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Pra quem quiser espiar, check-in. Quando cansar, check-out.

Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de nove antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí.

Dois Pesos, Duas Medidas

Ultimamente opiniões exaltadas pipocam em diferentes meios, de todas as formas. Parece que somos todos juízes, prontos para bater o martelo e julgar qualquer coisa ou qualquer um como inocente ou condenado. Mas até que ponto esses julgamentos são coerentes, ou seja, valem para todo mundo?


Dois pesos duas medidas.jpg

Acredito que uma pessoa tenha o direito – e isso não obriga ninguém a concordar com ela – de julgar, acreditar e exigir o que quiser. Desde que não caia em contradição.

Contradição é quando alguém acha que a Lindsay Lohan é “vadia” porque já teve vários parceiros, mas não acha que o Leonardo DiCaprio seja “vadio” por ter se envolvido com várias mulheres. Na verdade, esse alguém acha que o Leo é um garanhão, um cara esperto, merecedor dos maiores elogios.

Quando o ator saiu de uma boate em South Beach acompanhado por diversas modelos, um informante confidencial descreveu o comportamento da seguinte maneira:

Ele saiu com 20 mulheres. É o meu herói. Estava transbordando de garotas para todos os lados. Joe Jonas parecia assustado, como se fosse se afogar e sufocar com tantas mulheres. A cara dele estava hilária ”.

E a Lindsay? Fico imaginando como esse mesmo informante (e a mídia) teria (m) descrito o acontecimento caso a atriz o protagonizasse. “Não se dá ao respeito”, “Drogada”, “Depois não sabe por que...”.

Se uma pessoa achasse que tanto DiCaprio quanto Lohan são “vadios” ou que ambos são “garanhões”, “sujeitos espertos”, etc, aí seu julgamento faria sentido, isto é, seria igual para ambas as partes. Nesse caso alguém poderia questionar os valores dessa pessoa, sua moral, mas nunca sua coerência.

Menina chorar tudo bem, mas menino chorar é frescura. Branco de chinelo é descolado, negro de chinelo é assaltante. O princípio dessas incongruências se aplica a várias situações. Por que, num país onde 50 mil pessoas morrem por ano em acidentes de trânsito – a maioria deles causados por embriaguez e imprudência dos motoristas – a pressão por leis e punições mais rigorosas nas estradas é muito menor do que para reduzir a maioridade penal, sendo que apenas 1% dos crimes no Brasil são praticados por jovens?

Let me think about it.gif

Nesses tempos de palpites e emoções à flor da pele, tem um jeito bem rápido de testar se seus julgamentos são coerentes ou caem em contradição. Vamos lá:

1) Se você acha que o menor infrator deve mofar na cadeia por pegar algo que não era dele, também deve defender que o mesmo aconteça com o rapazote que pega “souvenires” quando vai ao OutBack, mesmo que ele seja seu vizinho, seu amigo ou seu filho.

2) Você precisa admitir que aquele primo que tomou uns goles e pegou o volante é tão irresponsável quanto o fabricante que não informa a composição correta de seu produto. Ambos poderiam ter matado alguém (e sabiam disso), mas mesmo assim não se importaram.

I'm rich.gif Ah, nada que um pagamento de fiança ou um bom advogado não resolvam

3) Você necessita concordar que, se a menina que ouve funk mereceu ser estuprada, a menina que foi atacada saindo da igreja também facilitou o abuso. Afinal, ela “passou por aquele caminho porque quis”, “não comprou um taser por opção”.

4) Você tem que achar que um homem e uma mulher se beijando num filme é tão repulsivo quanto um homem beijando um homem ou uma mulher beijando uma mulher.

Naza e o couro. gif.gif Pra que isso? Desnecessária essa cena, muito forte. Cadê censura?

5) Se você vai a um protesto empunhando cartazes contra a corrupção, deve defender que TODOS os políticos (juízes, policiais, oficiais, empresários, etc) corruptos sejam punidos, não apenas aqueles pertencentes ao partido do qual você não gosta.

Somos Todos Cunha.png Oi?!

Se você pensou em algo como “Não é bem assim” ou “Mas nesse caso...” enquanto lia as equivalências desse artigo, infelizmente você caiu em contradição. E alguém que se contradiz precisa, seriamente, rever seus julgamentos.

Fica a dica.


Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de nove antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí..
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