checkin

Pra quem quiser espiar, check-in. Quando cansar, check-out.

Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de nove antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí.

O que aprendemos com #meuamigosecreto?

Um compilado das atitudes, opiniões e reações que sacudiram as redes sociais na última semana.


Meu amigo secreto é.jpg

Dá para tirar muita coisa dos relatos da hastag do momento: as redes sociais são uma poderosa ferramenta de mobilização, as mulheres – sobretudo as mais jovens – estão mais conscientes sobre seus direitos, o machismo está muito enraizado na nossa cultura, primavera feminina, etc. Mas isso tudo já foi falado, de maneira bem melhor, inclusive. Então, eu fiz uma listagem daquilo que podemos apreender das situações relatadas por tanta gente.

Situações corriqueiras, cotidianas, que dizem muito sobre o modo como a mulher [ainda] é tratada na nossa querida terrinha.

Apoiar o feminismo é válido ...desde que ele seja como você quer

Uma reivindicação justa vira um exagero descabido no momento em que nosso pseudo pró-feminismo se vê no papel do vilão da história. Ao invés de refletir sobre suas atitudes e tentar entender por que tantas mulheres acham aquilo ofensivo, prefere começar o “mas não é bem assim”.

Ou seja, feminismo só é legal quando corresponde àquilo que ele acredita que o movimento deve ser, o que inclui como as mulheres devem se comportar dentro dele. Então, no fundo, ele acredita que o feminismo seja mais um espaço no qual o homem pode impor sua visão sobre o papel, essência e comportamento das mulheres – às próprias mulheres. Mais ou menos como isso aqui:

lugar masculino no feminismo.jpg

Não importa a situação, sempre dá pra ficar do lado masculino

É o famoso pacto de camaradagem. “Não vou julgar nem fazer nada porque vai que fosse eu nessa situação”. Uma coisa que a campanha mostrou é que, para muitos homens, é mais conveniente dizer que uma denúncia é parcial/exagerada do que reconhecer que ele (ou outro homem) fez algo errado e arcar com o peso disso.

melhor defender do que reconhecer  erros.jpg

Tem homem que (acha que) entende o que é ser mulher melhor do que uma mulher

Ele saca de tudo: as situações vividas pelas mulheres, os sentimentos que elas têm nessas situações, qual é a opinião delas sobre aquilo...a única coisa que não entende é que ele NÃO É uma mulher, ou seja, nunca foi tratado como uma, muito menos exposto às situações cotidianas que as mulheres passam. Uma coisa é defender as mulheres, apoiar suas causas. Outra é falar por elas. Afinal de contas, elas têm voz própria.

não me interrompa.gif

Pra muita gente, ficar em cima do muro é igual a tomar uma posição

Esse cara foi uma babaca, mas é melhor não falar nada porque ele não vai mudar por isso. Aquele outro fez algo muito errado, mas vou ficar na minha porque não quero tomar nenhuma atitude injusta.

E assim ninguém diz nada, ninguém faz nada...em suma, não muda nada.

Muito homem não se vê nos relatos da campanha... porque se recusa a ler qualquer um deles

Como têm certeza de que são caras muito legais, nem se dão ao trabalho de ler o que as mulheres andam relatando. Afinal, eles já conhecem tudo aquilo e é claro que jamais tomaram alguma atitude passível de crítica.

Pode até ser verdade em alguns casos. Mas acho que alguém que de fato se importe com as questões levantadas pela campanha dá pelo menos uma lida para conferir se tem (ou é) um amigo secreto.

você dá um toque?.jpg

Ser machista na roda de amigos não quer dizer que você seja machista “de verdade”

Uma coisa são os absurdos que você fala/faz na sua vida particular, outra é a imagem sensata e engajada que você constrói em público.

Acontece que boa parte dos relatos da campanha era justamente sobre caras que falam uma coisa, mas, na intimidade, fazem outra.

fala uma coisa, faz outra 1.png

fala uma coisa, faz outra 2.png

Essa fachada não engana ninguém, ok?

Você, como mulher, terá de relevar uns machismos aqui e ali

O machismo está por toda parte, se você for ficar ofendida, reflexiva, chateada ou até irritada com cada atitude machista, será:

a) Uma chata de galocha

b) Alguém que vai morrer sozinha e sem amigos

c) Uma pessoa muito difícil de se conviver

d) Todas as alternativas anteriores

Então o jeito é você, como mulher, bancar a sonsa de vez em quando. Ignorar aquela piadinha maliciosa ou os comentários infelizes que associam qualquer variação de humor a sua TPM, mesmo que venham do seu pai, melhor amigo ou namorado.

Acontece que nós, mulheres, já fazemos isso. Aliás, desde cedo somos criadas para “relevar os defeitos em razão das qualidades”, “não levar essas coisas tão a sério”, “ver a situação pelo outro lado”. A questão é: quando vão ver o nosso lado? Quando vão perceber que essa cultura que constantemente agride e diminui a mulher não tem graça nenhuma?

tratamento masculino e feminino.gif

assédio de qualquer jeito.gif

perguntas para homens e mulheres.gif

É horrível quando a pessoa que você ama e admira solta um comentário degradante, que ofende a um gênero inteiro. Todas (todas) nós já passamos por isso, em vários momentos da vida. Pior, é comum ouvirmos um “tinha que ser mulher” ou “vai lavar uma louça” quando entramos em um debate/discussão com um homem ~entendido~ em determinado assunto. Ou só quando abrimos a boca mesmo.

Os “pequenos” machismos do dia a dia estão sim ligados a violências maiores. Eles são sua semente.

E para quem pensa que a campanha #meuamigosecreto gira em torno de relatos sobre as "miudezas" do cotidiano feminino, sinto informar: foram milhares de denúncias de abuso emocional, ameaças de morte, exposição criminosa da vida privada, assédios duradouros (alguns persistiram por décadas!), pedofilia, estupros, relacionamentos abusivos, agressões físicas e até assassinato. Tanto que o número de denúncias à Central de Atendimento à Mulher aumentou 40% após as tags #meuprimeiroassédio e #meuamigosecreto. E olha que elas já não eram poucas.

O que ficou claro é que, mesmo nos segmentos mais favorecidos, a violência camuflada é tão comum quanto a violência descarada. Conclusão assustadora, mas que, no fundo, não surpreende. Enquanto houver gente achando que os comentários abaixo são normais e inofensivos, pouca coisa vai mudar.

deboche com #primeiroassédio.jpg

NOTA ESCLARECEDORA: Essa lista não pretende humilhar ou expor ninguém. Ela é apenas um compilado de várias atitudes que as mulheres participantes da campanha denunciaram como machistas e/ou desrespeitosas. Se você se sentiu atingido por algum dos tópicos, que tal sair da defensiva e se abrir para o que essas milhares de pessoas estão tentando dizer? Converse com suas amigas, suas irmãs, sua namorada, veja o que elas acham de tudo isso. Nunca é tarde para rever seus conceitos.


Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de nove antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/sociedade// @obvious //Ana Luiza Figueiredo
Site Meter