checkin

Pra quem quiser espiar, check-in. Quando cansar, check-out.

Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de algumas antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí

Queridas pessoas privilegiadas

Entendo que sejam sensíveis, e não muito tolerantes a assuntos delicados. Compreendo que se ofendem com facilidade, tanto quanto se cansam e se aborrecem. Sei bem da sua falta de prática em olhar o outro lado da moeda. Mas é por isso que precisamos conversar.


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Respondam siceramente,

Por que vocês se incomodam tanto por fazer parte de um grupo seleto? Pra que esse desespero em convencer os outros de que seus problemas são muito grandes? Eles sabem que a vida de ninguém é um mar de rosas. Contudo, por mais difíceis que as coisas estejam, vocês são privilegiados – já estão numa situação melhor do que muita gente. Na verdade, a sua maré baixa é mais promissora do que a maré alta de pelo menos metade da população do planeta.

Entendam, não há nada errado em reconhecer seus privilégios. Pelo contrário. É preciso conhecê-los, justamente para se posicionar em relação a eles.

Por exemplo, eu, como pessoa pertencente à classe média da população, tive e tenho acesso a uma série de bens, recursos e oportunidades que as pessoas de camadas menos favorecidas jamais (ou muito dificilmente) alcançarão. Isso me dá muito mais chances de conseguir um bom emprego, viajar pelo mundo, financiar a casa própria, fazer bons contatos, realizar meus sonhos... enfim, a felicidade e a realização profissional/ pessoal estão bem mais acessíveis a mim do que a uma jovem que trabalha desde os 12 anos pra colocar comida na mesa.

Nunca tive problemas em apresentar o garoto que eu estivesse namorando à minha família, amigos e conhecidos. Muito menos temi ser ofendida ou atacada na rua por andar de mãos dadas com um rapaz. Nenhum coleguinha da escola deixou de sentar perto de mim quando descobriu que eu me interessava por meninos. Ninguém me pergunta "como eu posso ter certeza de que gosto de homens se nunca experimentei ficar com uma mulher". Não há termos pejorativos para se referir à minha orientação sexual. Nunca me trataram como se eu tivesse uma doença. Em filmes, livros, músicas e propagandas, casais formados por um homem e uma mulher são maioria esmagadora. Ou seja, jamais me senti perseguida ou excluída por ser heterossexual.

Mas por que estou enumerando todas as vantagens que tive ao longo da vida?

Pra lembrar que se eu sou graduada, trabalho, tenho artigos e livros publicados, não é só por mérito próprio (a famosa meritocracia). É porque eu venho de uma família que sempre estimulou meu aprendizado, tive acesso a computador e biblioteca, matrícula em escolas equipadas, pais dispostos a conversar comigo.

Pra perceber que se eu tive liberdade de sair com um certo número de garotos e experimentar diferentes tipos de relação, é porque a minha orientação sexual nunca foi motivo de censura, repúdio ou vergonha.

Sobretudo, pra saber que tanta gente não consegue (ou tem dificuldade em conseguir) realizar essas mesmas coisas não por falta de vontade ou talento, mas porque não têm as mesmas facilidades que eu tive por pertencer a alguns grupos privilegiados.

E ainda existem aqueles privilégios que eu não vivencio: ser homem numa cultura que diminui as mulheres, ser branco numa sociedade em que isso vira escudo, ser destra num mundo feito pra direita, e por aí vai.

Pessoas privilegiadas, não pensem que quero que se sintam culpadas.

É claro que vocês não têm culpa por terem nascido homens, brancos, héteros, ricos, cis e/ou cidadãos de países desenvolvidos.

Também não pensem que as ofendo por chamá-las de privilegiadas. Primeiro porque isso não é ofensa, é condição. E segundo porque trata-se da verdade: vocês têm privilégios. E justamente por tê-los podem oprimir quem não os tem.

Eu não escolhi ser hétero, mas, ao longo da vida, muitas das minhas atitudes podem ter reforçado o preconceito e o estigma relacionados aos gays: quando eu ri de uma piada homofóbica só pra não contrariar, quando fiquei em silêncio diante da intolerância de alguém, quando não quis fazer trabalho com aquela "aluna esquisita".

Então os movimentos LGBT não estão errados ao dizerem que "toda pessoa hétero/cis é uma potencial opressora de pessoas gays/transgênero", assim como as feministas não estão inventando quando dizem que "todo homem é um potencial agressor de mulheres". Não é que ele vá necessariamente fazer algo contra elas, mas ele 'pode', existe uma cultura que permite que homens discriminem e agridam mulheres sem nem se darem conta disso (mesma cultura que permite que pessoas héteros/cis discriminem e agridam pessoas gays/transgênero sem nem perceberem).

Esse é o perigo de ser privilegiado, você se torna cego e indiferente se não tiver o ímpeto de olhar além do próprio umbigo. E essa visão pode ser muito desconfortável. Não é fácil admitir que você se beneficia de certas estruturas e costumes. Muito menos reconhecer que suas conquistas dependem de uma série de circunstâncias que permitiram que você as realizasse.

Será que eu teria a mesma facilidade para a escrita e a leitura se não fosse filha de pais leitores, que podiam me dar livros de presente e, no caso da minha mãe, professora de Teoria Literária, ainda oferecer uma visão mais aprofundada sobre eles? Será que eu teria a mesma autoestima em relação ao meu corpo se usasse um manequim maior, que não aparecesse nas peças publicitárias? Acho que seria muito mais difícil.

Sem dúvida pertencer a outros grupos não privilegiados me tornou mais empática diante dessas desigualdades. A partir da consciência que eu criei em relação às desvantagens que enfrento por ser mulher/parda/canhota/tímida, ficou menos complicado me colocar no lugar de uma pessoa que também sofre com alguma discriminação. Por mais que aquela não seja a minha realidade, ela me atinge porque eu faço parte do(s) grupo(s) que coloca(m) essa pessoa à margem. E eu sei que essa posição não é nada divertida.

Mas se você, cara pessoa privilegiada, ainda não consegue calçar os sapatos de ninguém, eu te pergunto:

Às custas de quem o seu privilégio se sustenta?

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Síria e suas crianças em guerra.jpg

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Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de algumas antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí.
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