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Pra quem quiser espiar, check-in. Quando cansar, check-out.

Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de nove antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí.

Um pedido para as mulheres: conquistem (cada vez mais) espaço(s)

Vivemos num mundo feito por homens, para homens. Se queremos mudar as coisas, o jeito é esticar nossos galhos pelos mesmos lugares em que tentam podá-los.


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Desde cedo, somos ensinadas a falar mais baixo, a não demostrar agressividade, a sorrir mesmo quando estamos incomodadas, a tolerar ofensas e disparates. Estudos têm revelado que meninas de apenas seis anos já se acham menos capazes do que meninos da mesma idade. Aprendemos a aspirar o papel da assistente, e não o da protagonista. Afinal, é isso que vemos na televisão, na escola, na universidade, no escritório, na igreja, na nossa família, na casa dos outros.

Essa é uma estrutura que beneficia apenas um lado: o masculino. Pra que se preocupar com as tarefas domésticas quando se tem uma mãe/irmã/esposa/filha para cuidar delas? Pra que se esforçar mais no trabalho, quando sabe que sua colega é quem precisa provar seu valor por usar saia? Pra que levar as reclamações da namorada/esposa em consideração quando existe toda uma cultura (sustentada inclusive por muitas mulheres) que coloca seu comportamento como normal?

A mudança, se vier, não partirá daí. Se hoje mulheres podem, por exemplo, votar, não foi porque um grupo de homens legais olhou para elas e pensou: "Puxa, estamos aqui sem fazer nada, bora garantir o direito da população feminina ao voto". Foram séculos (sim, séculos) de luta, sangue, passeatas, campanhas de conscientização, articulações políticas e muitos outros obstáculos que as mulheres que desejavam ser cidadãs plenas precisaram combater. O maior deles era justamente o veto masculino. Pais, maridos, irmãos, filhos, chefes, governantes, médicos, juízes, policiais, empresários e jornalistas que não desejavam mulheres (um pouco mais) emancipadas – situação que ainda se mantém em muitos países.

Não há exemplos na História de nenhuma grande transformação na vida e no papel social das mulheres que tenha sido iniciada por homens. Eles até chegaram a apoiar alguns desses movimentos (mesmo que fosse um apoio tardio), mas não os articulavam, não os fundaram. E por quê? Por que não interessava a eles, não era parte da sua realidade. Isso se repete até hoje.

Por mais que um homem entenda as reivindicações por direitos e oportunidades iguais, a verdade é que a vida dele continuará bastante cômoda enquanto essa equidade não for alcançada. Ele terá inclusive mais chances de conseguir destaque, um elogio, um cargo. A mulher não. Enquanto esses preconceitos e restrições se mantiverem, ela será obrigada a se esforçar o dobro para ter acesso àquilo que homens possuem como direito inato.

Ser livre para ir e vir ainda não é um direito das mulheres. Ser dona do próprio corpo ainda não é um direito das mulheres. Poder se dedicar igualmente à vida pessoal e profissional ainda não é um direito das mulheres. Viver sem medo de ser agredida, ter relações apenas com consentimento, passar a infância/ adolescência protegida de qualquer tipo de assédio ou exercer todo o seu potencial também não são direitos das mulheres. E continuarão em falta enquanto elas forem minoria em todos os espaços de poder, de tomada de decisões, de construção de iniciativas que levem a este fim.

Recentemente, por exemplo, uma lei fez com que a violência doméstica deixasse de ser crime na Rússia. O Governo Trump cortou ajuda financeira a ONGs que realizam aborto em países pobres. O Congresso brasileiro tentou aprovar leis que reduzem direitos já garantidos das mulheres, como assistência em caso de estupro/assédio e licença-maternidade. Todas essas medidas foram articuladas por políticos que se apoiaram no pretexto de "defesa da família" – mesmo argumento utilizado por governos que negam às mulheres o direito à educação e ao voto.

As regras do jogo ainda são ditadas por homens que em sua maioria não se importam (ou se importam muito pouco) com qualquer questão além das próprias. Se queremos mudá-las, devemos construir um ambiente que nos permita criar novas regras, proteger os direitos que conquistamos.

Desse modo, nossas atitudes cotidianas são atos políticos.É por meio delas que mostramos o quanto somos valorosas e como merecemos uma vida mais plena. Infelizmente não basta atestar o óbvio: homens e mulheres são igualmente aptos para o sucesso e a realização, desde que estimulados a isso. Precisamos provar que estamos certas quando afirmamos "sou tão capaz quanto um homem pode ser" ou "meu gênero não me limita".

É duro carregar esse peso. Difícil ser a única mulher numa reunião, evento ou projeto. Qualquer deslize pode se transformar em justificativa para preconceitos antigos. Em compensação, é um peso necessário. Significa que não deixamos a peteca cair. Mesmo em menor número, mesmo com salários mais baixos, mesmo com toda a dificuldade, conseguimos chegar lá e fazer um bom trabalho.

Quando uma mulher não aceita ser diminuída, está rompendo uma cultura milenar que diz que mulheres são inferiores. Quando uma mulher se dedica a sua formação e carreira, está continuando a luta de milhões de mulheres que, ao longo dos séculos, se sacrificaram para que as futuras gerações conquistassem o direito de se educar, de ter renda própria. Quando uma mulher sai de um relacionamento abusivo, está quebrando a opressão que norteou a vida da maioria de suas antepassadas.

Por meio do empenho de cada uma de nós, e com o apoio uma das outras, caminhamos para a construção de um mundo que não seja violento conosco. Um mundo em que tenhamos poder de escolha, voz, respeito. Pode não ser a realidade da nossa geração, mas talvez nossas netas cheguem a vislumbrar esse horizonte. Do mesmo modo que vemos uma realidade muito mais promissora do que a de nossas avós.

O que gostaria de dizer às mulheres nesse Dia Internacional da Mulher é: espalhem-se por todos os cantos que acham que merecem.

Faça acontecer. Foque em você mesma, nos seus pontos fortes, nos seus objetivos. Corra atrás deles, não da aprovação alheia. Faça cara feia se não gostar do que ouviu. Rebata argumentos que julgar equivocados. Diga "não" sem peso na consciência. Peça ajuda sem se achar fraca por isso. Não perca tempo tentando agradar um parceiro ou uma família que se intimida com o seu brilho. Destaque-se. Supere-se. Precisamos disso, todas nós.

Quanto mais exemplos tivermos de mulheres que protagonizam seus destinos, mais possibilidades teremos de fazer o mesmo.

Parabéns pra gente. E luta que segue.

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Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de nove antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí..
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