checkin

Pra quem quiser espiar, check-in. Quando cansar, check-out.

Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de algumas antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí

Não dá pra fingir que não tem nada acontecendo

Negação tem limite e já está mais do que comprovado que pior do que tá, fica.


Temer rouba direitos trabalhistas.jpg

"Tá complicado, mas a gente tem que fazer a nossa parte, cuidar das nossas coisas, que se depender deles [os políticos, o Judiciário, a situação do país] a gente não chega a lugar nenhum".

É mais ou menos esse o discurso apaziguador que repito quando me despeço da minha avó no telefone. Nada mais do que um rearranjo de frases que ela mesma sempre repete. Só que minha avó já tem mais de 80 anos, já passou por muita coisa nessa vida, e eu entendo perfeitamente porque se conforta com falas como essas.

Eu tenho vinte e pouquinhos. Ainda não estabeleci uma carreira, não formei família, estou longe da plenitude em qualquer sentido. Mas acabo de perder uma série de direitos e oportunidades que foram arrancadas da minha geração (e das próximas) em algumas canetadas, por sujeitos que sequer estarão vivos para presenciar o impacto de suas ações.

Fuck the planet I'll be dead anyway.gif Nessa vibe.

Por aqui temos o hábito de baixar a cabeça e seguir em frente. Nada contra seguir em frente apesar das adversidades. O problema é a crença de que essas adversidades simplesmente brotaram da terra e não podemos fazer nada contra elas. Quanto mais você se informa sobre o que está acontecendo, mais lodo aparece. Qual a solução? Fingir que nada está acontecendo. Tocar a vida como os meros mortais que somos, engolir as críticas, cortar gastos, dobrar a jornada de trabalho, aceitar um pagamento menor, reduzir expectativas...o lema é se ajustar, ser adaptável.

Sei que nosso passado de colônia e o histórico de regimes totalitários pesaram muito na construção desse modo de lidar com problemas de ordem social. Reconheço que nossa democracia tem mais nome do que prática (basta olhar para o que estamos vivendo). Entendo que nosso sistema eleitoral não é feito para que o povo seja representado, e sim para que os maiores partidos consigam aprovar suas propostas.

Mas é justamente por isso que essa adaptabilidade passiva me incomoda. Todo mundo sabe que tem algo errado. As pessoas estão desanimadas, a produção cai, índices negativos (violência, desemprego, greves) não param de aumentar. E mesmo assim "pega mal" tocar nesses assuntos, mostrar-se indignado, bater o pé. Até sites e páginas dedicados a esses debates alternam denúncias e convocações com notícias sobre um senhorzinho que tricota cachecóis para carneiros ou a menina que faz festa de aniversário para esquilos do Central Park.

QUAL É O NOSSO PROBLEMA?! Da MP 759 à recente anulação das investigações contra Temer, passando pela aprovação da reforma trabalhista e a impunidade dos responsáveis pelo desastre ambiental de Mariana, tá tudo errado. E o que fazemos?

a) Discussões, tomadas de posicionamento, mobilizações, qualquer atitude que impeça esses assuntos de caírem no esquecimento e possam, assim, possibilitar alguma solução.

b) Evitamos falar e agir sobre isso a todo custo, concentrando nossos esforços na manutenção da rotina.

c) Fazemos altos planos para nos mudarmos para algum país desenvolvido onde poderemos deixar as dores de cabeça de 3º mundo para trás.

Quando vejo tanta gente se agarrando às alternativas B e C, lembro daqueles capítulos dos livros de História com frases como: "enquanto o/a [insira problema] aumentava, a maioria da população [insira nacionalidade] não apresentou grandes resistências, o que culminou, anos mais tarde, no/na [insira evento histórico desastroso]". O que também lembra a mensagem das primeiras falas de 'O Conto da Aia'.

Desde quando a apatia diante de problemas trouxe algum retorno positivo? Se um trem está vindo na sua direção, do que adianta tapar os olhos, os ouvidos e ficar parado no mesmo lugar? Sai do trilho!

cai fooora.gif Faz qualquer coisa, só não fica aí!

Fato é que a maioria das pessoas, inclusive as que se importam com o que está acontecendo, escolhem se envolver o mínimo possível.

Eu entendo que temos obrigações e que ninguém é de ferro. Diversão e distração fazem parte, claro. Mas também entendo que chega uma hora que não dá mais pra adiar o que deve ser feito. É como um aluno que precisa tirar 7 numa prova pra não reprovar. Ele pode enrolar a semana inteira pra pegar nos livros, mas em algum momento vai ter que sentar na cadeira, abrir o caderno e encarar aquela joça. A não ser que ache mais vantajoso passar mais um ano na mesma série.

Somos esse aluno no vermelho. Temos que fazer um esforço visando nosso próprio benefício. Ou aguentar mais do mesmo.

Fora Temer Chaplin.gif Antes que eu me esqueça.


Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de algumas antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/sociedade// //Ana Luiza Figueiredo