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Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de algumas antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí

Por que Elsa deveria ser a primeira princesa lésbica da Disney?

O estúdio anunciou que revelaria sua primeira princesa lésbica em 2018 – mesmo ano em que a continuação de Frozen chega aos cinemas. Aqui estão algumas razões para que Elsa inaugure essa nova fase.


Elsa com poderes.jpg

Em primeiro lugar, este artigo não pretende discutir se o público infantil deveria ou não ser exposto a personagens que fujam do padrão heteronormativo. Já está mais do que comprovado que não apenas o contato com as diferenças resulta em adultos mais saudáveis, como também que as próprias crianças não veem problema nesse tipo de exposição. Portanto, parte-se da premissa de que o público infantil precisa (e é capaz de) ver os grupos que o rodeiam na vida real representados na ficção.

Dito isso, o anúncio da Disney dá margem para duas interpretações: que o estúdio criará uma nova princesa (que será lésbica) ou que alguma princesa já existente será assim caracterizada. A seguir, veja alguns motivos para que a segunda opção seja encarnada pela personagem Elsa, de Frozen.

Sexualidade Aberta

Na prática, Elsa e Moana são as únicas princesas do estúdio cuja orientação sexual não foi definida. Em ambos os casos, porque esse aspecto não era relevante para suas histórias. No entanto, ao reparar com atenção, o enredo de Elsa gira em torno de questões como autoaceitação, autoconhecimento, censura, medo, entre outras que podem ser facilmente atreladas às dificuldades enfrentadas por qualquer um que fuja do padrão heteronormativo.

Elsa e seus pais.jpg Inclusive a relação com seus pais.

Enquanto definir a orientação sexual de Moana não traria nenhuma diferença para a interpretação de seu filme, colocar Elsa como lésbica daria muito mais profundidade aos dilemas que enfrenta.

Popularidade

É possível questionar se Frozen é uma produção tão boa quanto o marketing o vendeu, mas é impossível duvidar de sua popularidade. Frozen virou febre entre crianças (e adultos) do mundo inteiro. Uma das maiores razões para isso é justamente a personagem Elsa. Ela é a única princesa do estúdio a ser coroada rainha logo no início do filme, tem poderes de gelo, esbanja um visual babadeiro e ainda por cima protagoniza a canção "Let It Go", que foi parar na playlist de 8 a cada 10 habitantes do planeta.

Elsa já é uma personagem querida e reconhecida pelo público. Torná-la a primeira princesa lésbica da Disney facilitaria seu acolhimento por ele após a ~revelação~, além de ampliar o senso de normalidade da mesma. Elsa se tornou um ícone da cultura pop. Seria ótimo se representasse um grupo ainda tão marginalizado dentro e fora desse universo.

Novos Significados para "Let It Go"

Você pode não gostar de Frozen, mas é quase certo que gosta de "Let It Go". Com vocais poderosos e melodia muito bem construída, tornou-se hino nas festinhas do play. Já entre adolescentes e adultos, a canção é muito associada à repressão que a maioria das mulheres enfrenta ao longo da vida, simplesmente por serem mulheres: comporte-se direito, não demostre isso ou aquilo, contenha-se, esconda-se.

O sucesso da música se deve em grande parte à sua letra:

"Can't hold it back anymore" [não posso mais me segurar] "The fears that once controlled me can't get to me at all" [os medos que me controlavam já não me afetam] "No rules for me, I'm free" [sem regras pra mim, estou/sou livre] "You'll never see me cry"[nunca vão me ver chorar] "Here I stand and here I'll stay" [aqui estou eu e aqui vou ficar] "That perfect girl is gone" [aquela garota perfeita se foi]

Esses são apenas alguns dos versos que podem remeter a aspectos da vivência feminina – e ao enfrentamento a eles.

Quão mais forte seria "Let It Go" se também dissesse respeito às barreiras e proibições impostas a pessoas LGBT?

Let the storm rage on.gif

Fuga dos Estereótipos

O senso comum frequentemente pensa as lésbicas como mulheres masculinizadas, brutas, "que odeiam homens", entre outros estereótipos que estão longe de abarcar a diversidade desse grupo. Elsa, porém, não encarna nenhum deles. Delicada, sensível e vaidosa, seria um excelente contraponto à imagem de dureza e desleixo por meio da qual as mulheres lésbicas são geralmente representadas.

Sua orientação sexual não tem a ver com as roupas que você veste, seus hobbies ou se gosta de usar maquiagem. Elsa seria a comprovação disso.

Desenvolvimento da Personagem

Verdade seja dita, os conflitos de Elsa foram mal explorados. Ela basicamente passa toda a história encolhida de medo (com exceção dos três minutos em que canta "Let It Go") e no final tem uma epifania que a faz milagrosamente controlar os poderes que lutou a vida inteira para compreender.

Elsa perdida.gif Pera aí, tô um pouco confusa...

Adicionar um conflito que estava implícito, mas que até o momento não havia sido trabalhado (sua orientação sexual) criaria as circunstâncias necessárias não só para desenvolver melhor a personagem e sua relação consigo mesma e os outros, mas também para entender e contextualizar muitas de suas atitudes no filme original.

Metáforas

Muita gente toma a história de Elsa como uma metáfora para a depressão. A figura da porta trancada, o isolamento da família (que tenta abafar seus poderes), a sensação de descontrole retratada pela personagem. No entanto, essas imagens também podem ser estendidas a outras situações, entre elas a própria condição feminina e/ou LGBT.

Elsa depressiva.jpg

Quando se vive num mundo onde ser você mesmo significa ser tido como errado ou perigoso, é compreensível se isolar e até mesmo desenvolver algum tipo de transtorno, de insegurança à depressão. Ao revelar-se lésbica, Elsa conversaria com ainda mais pessoas que, por um motivo ou outro, são consideradas "fora da norma", além de mostrar ao restante do público como essas pessoas se sentem.

Já está mais do que na hora de um dos maiores estúdios do mundo ter um(a) protagonista LGBT. Se uma personagem tão popular e icônica quanto Elsa for eleita como pioneira, podemos esperar mudanças interessantes por aí.

Tempestade vem.gif Tempestade vem!

P.S: Tecnicamente, Elsa não é mais uma princesa, mas uma rainha. Contudo, as demais princesas do estúdio não passaram a ser retratadas como rainhas após assumirem o trono, mantendo-se enquanto princesas em todas as menções e produtos da Disney (assim como seus pares, que não foram promovidos a reis). O mesmo vale para Elsa. De qualquer forma, "princesa" equivale mais a uma categoria do que a uma classificação exata.

P.S 2: Diante da recente decisão da Justiça, aproveito este artigo para reiterar – HOMOSSEXUALIDADE NÃO É DOENÇA. O que adoece é intolerância e preconceito.


Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de algumas antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí.
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