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Pra quem quiser espiar, check-in. Quando cansar, check-out.

Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de algumas antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí

Apetrechos literários que parecem (e só parecem) uma boa ideia

Se o mercado editorial vem pensando diferentes maneiras de conceber um livro, alguns elementos desses projetos nem sempre caem nas graças dos leitores.


Partes que compõem o livro.jpg

Eu gosto de livros. E não falo só de ler livros, mas de sentir livros, cheirar livros, folhear livros, ler as orelhas e a sinopse, procurar conhecidos na ficha catalográfica, prestar atenção nas ilustrações. Em outras palavras: gosto tanto da experiência de leitura como do livro enquanto objeto.

Acontece que existem centenas de maneiras de compor esse objeto e, entre os elementos escolhidos para essa empreitada, nem todos me agradam. Por isso decidi elencar alguns desses apetrechos e descobrir se não estou sozinha ou se sou mesmo a diferentona do rolê.

Fita para marcar páginas

A famosa fitinha. Quase obrigatória em edições caprichadas e/ou especiais. A princípio é uma boa ideia, o leitor não precisa se preocupar com o que vai marcar as páginas ao longo da leitura.

O problema é que essas fitas parecem ser projetadas para desfiarem depois de algum tempo. Por mais cuidadoso que você seja, é muito difícil que pelo menos um fiapo não se solte. E quando essa fita dá pra desmanchar, não tem gambiarra que a torne apresentável outra vez.

Fitinhas no corte dos livros.JPG Fonte: Memorialices

Cinta

Basicamente, serve para ajuntar algum conteúdo publicitário ao livro, de maneira integrada ao mesmo. No geral são colocadas quando o livro foi adaptado para o cinema, venceu algum prêmio, é de um autor consagrado ou vendeu muito bem em certo país/evento literário.

De todos os itens da lista, acho que esse é o mais desnecessário. O que a maioria dos leitores fazem é aposentar a cinta, guardá-la numa gaveta e esquecer que faz parte do livro. Isso quando não acabam rasgando a bendita sem querer – o que não é muito difícil.

PORÉM, quando bem usada, cria uns projetos gráficos maravilhosos, como é o caso da edição abaixo (sim, aquilo é uma cinta):

Cinta Entrevista com o Vampiro.JPG

Luva

Projetada para proteger o livro e compor um visual mais atraente para ele, é flexível e leve.

Particularmente não vejo muita necessidade nela. A não ser que o livro venha com algum material extra como folheto informativo ou algo parecido (como acontece em alguns clubes de assinatura), no fundo é um acessório que não faz muito além de encarecer o preço final do produto.

Luva de Livro.jpg Fonte:Perita Manaus

Box

A evolução da luva. Vou confessar que gosto deles, principalmente quando conversam com o projeto gráfico dos livros que protegem. Também tornam a organização da estante mais prática e, por serem mais resistentes, dão uma boa protegida nos livros.

O problema é que se você não deixa esses livros e o próprio box respirarem de vez em quando (de preferência sob a luz do sol) as chances do papel acumular manchas escuras é bem alta. Afinal, as páginas ficam abafadas sem terem como se arejar – o que acaba contaminando inclusive o box.

Isso sem falar quando os livros não cabem mais no box depois de lidos. Frustração define.

Box João do Rio Carambaia.jpg

Jacket

Muito comum no exterior, ainda não é maioria por aqui. O que me deixa satisfeita. Claro que existem edições cujo projeto gráfico não seria tão interessante sem o uso da jacket. Ela de fato permite que o livro seja mais trabalhado enquanto produto. Há edições que inclusive usam os dois lados da jacket para encantar o leitor. Estão ficando cada vez mais atraentes e rebuscadas.

O que gera uma contradição. O objetivo da jacket, além de estético, é conservar melhor o livro. Ao invés da capa sofrer arranhões ou amassados, é a jacket quem os recebe.

A ironia é que elas estão ficando tão bonitas que você tem medo de danificá-las. Então, ao ler um livro que tenha jacket, você a retira e só volta a usá-la quando a leitura termina – o que perde pontos no quesito praticidade.

Sem falar que são ótimas para acumular poeira, mofo e manchas.

Laranja Mecânica edição descascada.jpg Fonte: Cantinho Geek

Papel Manteiga

Geralmente utilizado em jackets, dá um charme extra à capa. Um exemplo é a edição d’A Bela e a Adormecida (Neil Gaiman) pela editora Rocco. Um projeto lindo, por sinal. Aquela capa não seria a mesma sem a sobreposição causada pelo papel manteiga.

Como sempre acontece com jackets bonitas, manejei o livro com todo o cuidado para não danificar o material, por sua vez mais delicado do que o padrão. Assim que terminei a leitura, recoloquei a jacket no livro e na hora em que fui guardá-lo, resc. A pontinha da jacket de papel manteiga rasgou.

Um mês depois, durante a limpeza da estante, após o movimento imprevisto de um livro vizinho... resc. A outra ponta também rasgou.

Moral da história: é preciso ter uma redoma privativa para comprar um livro com jacket de papel manteiga. Quem sabe assim o bendito não rasgue.

Capa de papel manteiga para livro.jpg Fonte: Portal Combinou

Materiais Inusitados

Falando em componentes alternativos, há edições que vão longe quando se trata de incorporar ao livro materiais que o leitor não esperaria ver ali: terra colada nas páginas, madeira ou purpurina na capa, aroma artificial de algo relevante na história.

Enquanto algumas invenções são bem-sucedidas, outras representam casos mais complicados. Lembro de Seu Azul (Gustavo Piqueira), da editora Lote 42 – que, por sinal, tem projetos gráficos muito interessantes no catálogo. A capa do livro conta com duas faixas grossas de areia, grudadas com cola de silicone. A intenção é que o leitor também tenha uma experiência tátil ao longo da leitura.

Dou créditos pela inventividade, mas não consigo conceber esse livro na minha estante, soltando areia não só em cima dos outros livros, mas no móvel, no chão e até em mim, enquanto o lesse. O livro circulou por alguns canais no Booktube (o YouTube voltado para a Literatura), e esse efeito colateral de areia pelos cantos acabou desestimulando alguns leitores a comprá-lo – inclusive eu.

Livros inusitados - Guita Soifer.jpg Arte: Guita Soifer

Texto Dividido em Duas Colunas

Sabe quando você vê aqueles livros do século XV pra trás, com ilustrações meticulosas, cada letra uma obra de arte? Esses livros geralmente eram divididos em duas colunas e várias edições decidem se inspirar nesse modelo para fazer o layout do texto.

Tudo que essa escolha tem de bonita, tem de não prática. Particularmente demoro mais a entrar no texto lendo aquelas linhas tão curtas e com muitas palavras separadas (então eles fo-ram até a esquina on-de o menino ti-nha depositado a cai-xa). As letras tendem a ser menores e a fonte, para imitar as mais antigas, também não ajuda.

Teve um motivo para os livros passarem a ser impressos no formato que possuem hoje, como um único bloco de texto (projetos editoriais e poesias à parte, claro). Pra que mexer em time que está ganhando?

Livro Idade Média.jpg

Capa Soft Touch

Fechando a lista, temos algo que irrita muitos leitores: as capas gostosas de pegar e fáceis (muito fáceis) de sujar. Seus próprios dedos podem marcá-la e tirar a manchinha não é lá tão simples depois que já secou.

Tenho meus macetes para não acabar com marcas na capa, e admito que gosto da sensação macia que deixa nas mãos. Mas com certeza entendo quem não curte.

Livros Mia Couto.jpg

E você? Acrescentaria ou tiraria algum item dessa lista? :)


Ana Luiza Figueiredo

Curiosa que arranja tempo pra falar das coisas. Premiada em diferentes concursos literários, participa de algumas antologias. É autora do livro e e-book infantil O Mirabolante Doutor Rocambole (Selo Off Flip) – e vem mais coisa por aí.
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