Daniel Keny

Agente Smith em tudo que você faz

Quem está no controle, nós ou os aparatos tecnológicos que fazem parte do nosso dia a dia?


Agent_Smith2.jpg

Em Matrix, filme de 1999 dos irmãos Wachovski, a humanidade é levada a acreditar em uma realidade paralela que se dá dentro do mundo virtual. Na ficção, a civilização humana é subjugada pelas máquinas e tem na sua existência o único propósito de alimentá-las energeticamente, formando grandes “campos de cultivo”. A consciência está adormecida no mundo real e os homens vivem plugados em um universo binário que remonta de forma (quase) perfeita a vida terrestre como a conhecemos.

Nossa realidade não viu guerra entre homem e computadores (por enquanto…), a inteligência artificial não é autônoma o suficiente para rebelar-se contra nós (por enquanto…) e ainda não temos um game que seja capaz de criar um mundo tão real quanto Matrix (também por enquanto…). Mas a evolução das máquinas está em andamento e a revolução do conhecimento está a pleno vapor, por conta da gigantesca produção cultural e de entretenimento chamada cibercultura. Na internet, não há limite criativo, embora existam regras quanto às propriedades intelectuais alheias (um tanto controversas, por sinal).

Nós vivenciamos a cibercultura o tempo todo, passamos grande parte do dia conectados, mas não temos o costume de pensar sobre esse trem em movimento da tecnologia que torna suas próprias plataformas obsoletas em um curto espaço de tempo, e mais, torna o ser humano ultrapassado, principalmente aqueles que se recusam a embarcar ou tem dificuldade de entender esse momento histórico.

Alguém falou em inclusão digital no Brasil?

A inclusão digital ainda segrega boa parte da população brasileira. Segundo pesquisa divulgada em setembro do ano passado pelo Ibope Nielsen Online, em matéria publicada no jornal O Globo, 67,8 milhões de pessoas têm internet em casa. Ou seja, aproximadamente 34,5% da população. Para um país de quase 200 milhões de pessoas, em fase de crescimento econômico, dá pra dizer que é pouco.

Há muita gente por aí que não está conectada com o “novo mundo”. Consideremos nossa querida metrópole paulistana. Aqui, a classe média vive uma realidade completamente diferente da maioria dos brasileiros. Assim como a classe média de outras capitais, ficamos (vou me incluir nessa) “cegos” e nem imaginamos como é a vida de um cara que não usa internet, ou a usa quando tem a oportunidade.

Para enxergar com outro ponto de vista, não é preciso ir muito longe, porque nas periferias, onde obviamente o poder aquisitivo das pessoas é menor e o acesso a computadores acontece principalmente em lan houses, a internet ainda é luxo, um privilégio com hora em contagem regressiva e que custa valiosos reais no fim do mês.

Sim, a cidadania digital que promovemos nas redes sociais de forma instantânea em nossos smartphones é, para muita gente, algo ainda muito novo, além de custoso. Com tantas mudanças que acontecem diariamente na internet e no mundo da tecnologia, fica muito complicado para esses caras manterem a mesma sociabilidade eletrônica que as classes do andar de cima da pirâmide. E, mais ou menos por aí, delineamos a exclusão social e a desigualdade social que ela gera.

Informações úteis X informações inúteis

A gente está sempre pensando no que fazer para estar atualizado. Mas acho que a pergunta certa seria: o que é estar atualizado? É ler as notícias dos portais? Qual a relevância das mais lidas? São informações úteis? Sem fazer juízo de valor, é fato que a maioria dessas notícias são ranqueadas por acessos (classificadas por algoritmos), ou seja, temas que despertam interesse geral. Naturalmente, sempre haverá novela, sexo, acidentes, futebol, artistas… Enfim, tudo o que atrai a nossa atenção.

Agora, há também uma nova modalidade de notícias: os fenômenos da internet, que ganham relevância social quando caem no gosto da massa (o trending topics do twitter é um bom termômetro). E todo esse bolo de interesses nos leva à mesma questão. É preciso estar atualizado, inclusive de informações inúteis, para as conversas de corredor, de elevador, de happy hour…

Tem que estar antenado para poder interagir. Caso contrário, você correrá o risco de sentir-se um alienígena em qualquer bate-papo da classe média paulistana. Se você não entrar no Facebook, é provável que não se lembre de dar os parabéns a um amigo, e se um deles conquistar um novo emprego ou ficar preso no trânsito por horas, você não também não será um dos primeiros a saber. E se você não tem Facebook, suporte a ideia de que, para muita gente, você sequer existe.

A cibercultura parece engolir tudo ao seu redor, como um grande buraco negro. Nós fomos facilmente seduzidos – com toda a justiça – pelas maravilhas da internet. Não sejamos hipócritas. Embora viver à frente de uma máquina às vezes seja revoltante, no sentido de termos diminuído nossas interações físicas, o salto de inteligência e acesso a informação está modificando nosso modo de enxergar o mundo, e para melhor, em muitos casos.

A salvação dos antissociais

A inteligência coletiva tem nos ajudado em tudo: trabalhos acadêmicos, receitas de bolo, filmes de Bollywood, conhecimentos gerais, história… Enfim, todo tipo de cultura útil e inútil. E ainda permitiu a salvação dos antissociais; agora eles podem ter amiguinhos nas comunidades que tratam dos seus interesses – e o melhor – sem precisar fazer contato físico com ninguém!

Esse poder de atração tem transformado o estilo de vida das pessoas que moram em grandes centros urbanos, principalmente. E quando mudamos, as nossas visões de mundo mudam. Os gostos e necessidades, acima de tudo. Neste círculo, as próximas voltas talvez não estejam mais sob o nosso controle. Não saberia dizer se, uma vez que a internet se popularizou, alguma vez tivemos controle absoluto sobre ela.

Nós, consumidores de mídia e internautas assíduos, precisamos das mídias todas reunidas na tela do computador. Não! Na tela dos tablets. O tablet é o aparato tecnológico que está nos “livrando” de todas as outras mídias quando a intenção é entretenimento e informação rápida. A convergência de mídias e, consequentemente, da cultura, vem acontecendo em ritmo acelerado.

Tudo está se movendo sob influência direta da cibercultura. Das estratégias de marketing à produção artística. Nada mais é puro. Os meios de comunicação não sobrevivem mais como plataforma única, daí o termo transmídia, que é uma definição ainda vaga dos novos mediadores da informação, sejam veículos corporativos, sejam produtores independentes.

Também engloba plataformas, e como se pode avaliar, a definição de transmídia é bastante abrangente. Sinceramente, seria pretensão de minha parte querer explicar algo que ainda está se desenhando. Mas é por aí.

Quem domina essa relação?

Enfim, tudo que nós pensamos e fazemos vem de um histórico de referências. Cada vez mais, a cibercultura traz pra dentro de si todo tipo de conhecimento humano. Neste universo em que tudo que é “tocado” pela rede transforma-se em uma versão híbrida de si mesma, onde não há nada forte o suficiente para resistir a essa mudança, o Agente Smith, de Matrix, parece fazer mais sentido: tudo que por ele é tocado, sofre uma mutação e adapta-se ao novo mundo. Assim como vemos acontecer diariamente dentro da web. Fomos os provedores orgulhosos dessa evolução que, uma vez desencadeada, vai rumar com as suas próprias pernas. É estranho, mas parece que a influência que a tecnologia exerce no nosso dia a dia é tão grande que nos tornamos o processo, e não mais a força motriz do sistema. Estamos nos moldando à lógica social e cultural dos nossos tempos.

Apocalíptico? Talvez hoje as nossas criações sejam bytes a mais, sim, mas a inventividade humana continua existindo. Quem se adapta melhor e mais rápido, leva vantagem. Quem é talentoso, leva mais ainda. Mas, no fim das contas, não deixa ser ser instigante e um pouco assustador imaginar até onde irá a autonomia das máquinas…


deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Daniel Keny