Daniel Keny

Ouroboros na sociedade pós-moderna


foto_mat_23203.jpg

Tripalium: instrumento utilizado para subjugar animais e forçar escravos a aumentar a produção. Essa é a origem da palavra trabalho. Começo com essa definição para termos a dimensão do que, de fato, representa o ato de trabalhar desde os tempos antigos. Na Grécia Antiga, o trabalho era um tipo de castigo para aqueles que não tinham capacidade de produzir arte e filosofia; era a atividade dos medíocres. Com a Revolução Industrial e o estabelecimento do sistema capitalista como ordem econômica mundial, ganhou valor moral, ainda que essa mudança tenha começado meio na marra, nas indústrias britânicas que exploravam absurdamente seus operários. Mas, em pouco tempo, a indústria se desenvolveu, passou a pagar (um pouco) mais do que o necessário para a subsistência e os trabalhadores puderam, com o passar dos anos, elevar cada vez mais o seu nível de consumo – o que nos traz à sociedade atual, que gira em torno da produção em massa de bens de consumo.

worriedman.jpg E com toda essa abundância material que nos cerca e nos olha com desejo através das vitrines dos shoppings, às vezes, paramos e nos perguntamos: Por que trabalhamos? A resposta que parece fazer mais sentido soa um tanto idiota. “Ué, trabalho para consumir, e para consumir preciso trabalhar”. Ou seja, um círculo vicioso do qual todos nós pertencemos. Uma engrenagem que poucos ousam abandonar. A relação trabalho x consumo distorce a noção de necessidade da maioria da sociedade e pouca gente vai ter a base intelectual, a curiosidade, a faísca de perceber que há algo de muito errado nessa dinâmica. A gente vai simplesmente reproduzindo o comportamento dominante sem refletir sobre ele. O ditado "o trabalho enobrece o homem" é uma máxima que convence, está no chip de quase todo mundo.

A personalização do consumo atinge níveis absurdos. Hoje é possível customizar quase tudo. Eu posso ter a camisa do Batman com as cores do Superman. Meu peixe pode comer ração com sabor de algas e o meu gato come ração com sabor de peixe. Nós trabalhamos em atividades que não gostamos, algumas delas pouco relevantes, para ter dinheiro para bancar esse tipo de desejo, que certamente não condiz com o real significado da palavra necessidade.

E518RW1H_201.JPG Fato é que sair desse ciclo é muito difícil; o “cotidiano automático” da sociedade capitalista a mantém forte. O imaginário humano já está condicionado, é quase impossível pensar em uma vida diferente da que levamos, quando fomos criados para aceitar que esse é o jeito certo de viver, que é preciso crescer, estudar, trabalhar muito, conquistar bens e ter uma velhice digna, talvez morando no interior, levando uma vida simples, mas tranquila. Enquanto o proletariado luta por uma dignidade ilusória e subsiste sem empolgação diante da ideia de "vida interessante" dos ricos, enquanto busca ascender dentro da classe média para alcançar a felicidade nas roupas de grife, nos carros zero km e nos produtos tecnológicos cada vez mais avançados e personalizados, crianças passam fome logo ao lado, no farol da esquina. Talvez um rapaz em Bangladesh ou uma menina cheia de sonhos em Taiwan não ganhem em um mês o suficiente para comprar uma calça de marca que um jovem brasileiro de classe média veste para ir à balada. A mesma calça que a menina e o rapaz confeccionaram lá do outro lado do mundo e que eles também gostariam de ter.

large.jpg A desigualdade social é marcante no sistema capitalista. Mas, como conceitua o filósofo francês Jean Baudrillard, “o trabalho não existe”, isso talvez queira dizer que o trabalho é a nossa marca de submissão ao sistema que move o mundo. Ser aceito em grupos sociais é uma das necessidades do ser humano. Se pegarmos a Pirâmide de Maslow, veremos que para atingir o seu topo é obrigatório passar pela aprovação social, já que a autoestima significa, entre outras coisas, ser bem visto e admirado. E a autorrealização se torna muito mais alcançável quando as etapas inferiores estão preenchidas. Logo, o medo de ser marginalizado dentro da sociedade acaba esvaziando a noção de necessidade. O que realmente precisamos para sermos “pessoas de bem”? Precisamos TER. Ter uma formação profissional, ter um emprego de carteira assinada que nos proporcione grana ao final do mês para sobreviver e consumir, para comprar os nossos sonhos; de acordo com o sucesso financeiro conquistado, esses sonhos crescem proporcionalmente.

images.jpg Mas a sociedade do consumo apresenta algumas falhas. Toda a riqueza gerada não é dividida de forma igualitária, como podemos concluir. O capital acaba sendo drenado para quem já detém capital. Em resumo, trabalhamos porque fomos induzidos a acreditar que "é preciso trabalhar", produzimos cada vez mais, destruímos o meio ambiente para saciar toda essa sede de consumo e acabamos vendo o dinheiro escapar sempre para as mesmas figuras. Para completar, muito dinheiro é investido em tecnologia – o que não é necessariamente ruim – e resulta em evolução técnica para o sistema, mas não gera mais emprego. A automatização acaba nos roubando trabalho. Claro, essa mesma tecnologia avançada pode fomentar o desenvolvimento de novas ideias.

Toda essa produção cada vez mais personalizada gera demanda de consumo cada vez maior por coisas inúteis que, ao contrário do que pensamos ou fomos induzidos a pensar, não nos fazem mais felizes. Pelo contrário, o ser humano nunca esteve tão depressivo. Ainda assim, o ciclo se repete em eterno retorno (ouroboros), e se considerarmos que o capitalismo alimenta-se de si mesmo, exigindo de seus devedores que contribuam no limite de sua moralidade e técnica, podemos prever uma ruptura, porque, em algum momento, não seremos o suficiente para nós mesmos, e menos ainda para o sistema.


version 2/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Daniel Keny