choque sináptico

Isso não é um surto psicótico. Esse é um momento de clareza.

Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto

Los Angeles pergunte a Fante

O mito por trás da lenda; o que há em John Fante e em sua obra para influenciar escritores como Charles Bukowski e toda uma geração.


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O livro é Pergunte ao Pó, o ano 1939 e o autor John Fante.

Fante nasceu em 1909, nos Estados Unidos, foi romancista, contista e atuou também como roteirista em alguns filmes de Hollywood, seu apego pela literatura era enorme, exemplo disso é que mesmo ficando cego, em decorrência de diabetes, conseguiu ainda ditar à sua mulher o que resultaria em: Sonhos de Bunker Hill, sua ultima obra. Apenas esse pequeno contexto já serviria para tornar Fante um autor a se pensar, mas o que o torna realmente interessante é a energia contida em seus romances.

Pergunte ao Pó, seu segundo livro, se tornou uma espécie de marco cult dos tempos modernos, tanto pela maneira como foi escrito; selvagem e indomável, quanto pela contribuição de escritores a fama da obra, como Charles Bukowski, que chegou a declarar que Fante foi sua maior influência literária. Alias não só declarou como eternizou toda sua admiração no prefacio de Pergunte ao Pó:

"(...)Cada linha tinha sua própria energia e era seguida por uma outra que nem ela. A própria substância de cada linha dava uma forma à página, a sensação de alguma coisa esculpida ali. E, aqui, afinal, estava um homem que não tinha medo da emoção"

Escrevendo dessa forma, um dos mais belos e sinceros prefácios.

O livro é narrado em primeira pessoa por Arturo Bandini e logo nas primeiras páginas fica evidente que não se trata de uma leitura normal em decorrência da fluidez e força das linhas:

“Uma noite, eu estava sentado na cama do meu quarto de hotel, em Bunker Hill, bem no meio de Los Angeles. Era uma noite importante na minha vida, porque eu precisava tomar uma decisão quanto ao hotel. Ou eu pagava ou eu saía: era o que dizia o bilhete, o bilhete que a senhoria havia colocado debaixo da minha porta. Um grande problema, que merecia atenção aguda. Eu o resolvi apagando a luz e indo para a cama."

Assim que Bandini começa sua narrativa e resolve a maioria de seus problemas até o fim do romance. Arturo é jovem, de ascendência italiana (assim como Fante) e atormentado pelo desejo constante de ser escritor, mas não qualquer escritor, e sim um dos grandes, algo como um Victor Hugo moderno.

Vindo do Colorado e fugindo de seus pais, Bandini tenta a sorte em Los Angeles, porém não possui nenhuma renda fixa (além do dinheiro enviado pela sua mãe) e os únicos fatos que tem para se orgulhar são vários e vários exemplares da mesma revista onde publicou; O cachorrinho riu, seu primeiro e único conto até o momento.

Arturo é paradoxal, impulsivo, grande parte da sua tragédia parte das suas aspirações e do conflito proveniente do que realmente é vs o que pensa ser. Sonha em ser famoso e rico, no entanto permanece duro e desconhecido, observa toda a sujeira e veneno da Los Angeles pobre, mas ainda assim julga-se um gênio, como se fosse uma espécie de diamante na lama só a espera de ser descoberto e lapidado. Bandini vive no dilema do "quase"; almeja ser grande, mas a inspiração não vem, quer mudar de vida, mas não faz nada para que isso aconteça, nesse ponto podemos fazer varias analogias com as vidas de pessoas comuns, o melhor de Bandini esta justamente no ponto de ele não ser um personagem fabuloso, uma divindade em terra, mas de ser apenas um homem normal, gente como a gente, detentor de sonhos e afligido pela distância, aparentemente intransponível, para que possa alcançá-los.

Em suas andanças pelas ruas poeirentas e cheias de areia do deserto, Arturo questiona tudo e todos e acaba por encontrar Camilla; jovem, bonita, descente mexicana, que também tenta ganhar a vida trabalhando como garçonete em um café local e sofre com o preconceito à sua ascendência, assim como Bandini.

A partir desse momento o livro adquire um ritmo frenético, Camilla parece desencadear uma reação em cadeia e as aflições de Arturo parecem se intensificar, chegando ao ponto de torna-lo tragicômico. Ama Camilla que por sua parte não o ama causando profundo ódio a Arturo. Ambos permanecem nesse jogo de repelir e atrair até o desfecho do romance.

Toda a força de Pergunte ao Pó permanece na linguagem coloquial, rápida, cotidiana, ou seja, na simplicidade com que foi escrito. Fante extrai de cenas de pura miséria momentos de humor recheando a obra de instantes poéticos.

O livro é rebelde, rápido, cru, o que justifica a fama ao seu redor, é um romance fabuloso se você não se incomodar de ler algumas verdades.


Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto.
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