choque sináptico

Isso não é um surto psicótico. Esse é um momento de clareza.

Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto

holden e o campo de centeio

Quem quer flores depois de morto?


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É difícil encontrar uma obra tão rodeada de mistério e adoração; “O apanhador no campo de centeio” de Salinger adquiriu uma aura obscura e mística conforme o tempo (não maior que sua qualidade), muito por parte da infame contribuição de Mark David Chapman, que possuía um exemplar do livro quando assassinou John Lennon, afirmando que teria sido influenciado pela obra. Na verdade o lunático Chapman tratou de fazer um grande desserviço ao romance que, ao contrario do que muitos pensam, não tem nada de psicopático ou doentio, ao contrário, possui uma mensagem forte e momentos de singela beleza. Devido ao seguinte histórico, eu mesmo esperava encontrar algo nessa linha, no entanto me surpreendi, felizmente.

A história é narrada por Holden Caulfield, um colegial de dezesseis anos. Aparentemente o nome do protagonista deriva da palavra inglesa “Hold” que significa “segurar” e, ao longo do livro, percebemos que Holden está mesmo segurando algo, não físico, algo intangível, uma pressão que tange a obra do inicio ao fim e parece apenas se dissipar quando o protagonista está em contato com momentos que remetem a sua infância. O titulo do livro por si só já bastaria para formar um paragrafo, é extenso, alguns dizem que o nome não agrega nenhum significado especifico, porém, quando estamos adiantados na leitura, nos deparamos com um pequeno trecho que sintetiza todo o livro muito bem:

“Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto ─ quer dizer, ninguém grande ─ a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o que tenho que fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar para onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas seria a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice...”

Holden se prepara para ser expulso pela terceira vez consecutiva de um colégio, nem a escola, nem os professores, nem ninguém o agrada, ou consegue entender suas aflições. Todos ao seu olhar parecem, ao longo da obra, cada vez mais falsos ou hipócritas, nada foge à sua critica. Fazendo um sutil e sensível contraponto a esses sentimentos, o garoto não poupa elogios aos seus irmãos mais novos Phoebe e Allie, talvez porque, inconscientemente, os dois sintetizem bem a pureza e despreocupação da infância, estando suspensos em uma aura que remete a momentos passados, algo que Holden busca incansavelmente.

Com dezesseis anos, Caulfield prepara-se para entrar na idade adulta, porém ainda se encontra naquele estágio intermediário, tal conflito gera um turbilhão de pensamentos e reflexões, fazendo com que o personagem disseque o “mundo adulto” com destreza e inteligência, culminando com o "absurdo" da tradição de levar flores aos mortos. Sabendo que será expulso, adianta-se e decide voltar pra casa por conta própria, a viagem de volta dura um final de semana e é marcada pela jornada solitária e cinza do garoto imerso, na maior parte do tempo, em meditações taciturnas, no meio da imensa Nova York. É nesse tempo que todas as páginas do livro se baseiam, focando ora em acontecimentos banais, ora na mente de Holden.

O apanhador no campo de centeio, publicado em 1951, tornou Salinger um fenômeno, vendendo consideráveis 14 milhões de cópias ao redor do mundo. Ao contrario de hoje, a obra foi pioneira ao dar luz aos conflitos de um adolescente cada vez mais próximo da maturidade e, devido ao talento do autor, fez de forma magistral. A linguagem coloquial, cheia de gírias e palavrões se aproxima muito bem do vocabulário dos jovens. Holden se tornou um símbolo, um grito da juventude em meio a um planeta cada vez mais cheio de regras e condições banais. Sintetizando, a obra tem um estilo forte e rápido, o autor um talento inegável e o personagem principal as motivações e anseios de uma geração antes sem voz. A combinação exata para um livro clássico e de sucesso.


Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto.
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