choque sináptico

Isso não é um surto psicótico. Esse é um momento de clareza.

Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto

O som, a fúria e Faulkner

O Som e a Fúria, romance publicado 1929, marca a segunda fase do autor e é em grande parte responsável por seu premio Nobel. Nele Faulkner nos “abandona” no universo da família Compson.


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Há livros de todos os tipos, isso é mais do que um fato. Livros que nos emocionam ou nos fazem tremer de ansiedade não são raros, porém são poucos aqueles que, em toda história da literatura mundial, nos atinge como um tapa no rosto e nos tira o ar, não especificamente pelo conteúdo, mas pela quebra de nossos paradigmas “do que deveria ser um livro”. Antes de entender qualquer obra, é essencial conhecermos o autor da mesma, e o contexto onde está inserido, tanto o contexto histórico como geográfico. Tais aspectos são fundamentais, uma vez que toda obra, por mais distante e austera que possa parecer, tem sim influencias pessoais de quem a escreveu, obviamente.

Com a vitória da União (nortistas dos Estados Unidos) liderada por Abraham Lincoln sobre os Confederados (sulistas), toda uma ordem social dos estados do sul, baseada na escravatura e na economia agraria fora quebrada, causando, dessa maneira, a ruína e a decadência de diversas famílias antes poderosas e tradicionais. Faulkner nascido em 1897, mesmo que trinta e dois anos após o final da guerra civil, foi influenciado profundamente pelas consequências e vestígios deixados por tal conflito na parte sul. O som e a fúria, romance mais aclamado do autor, é divido em quatro capítulos e um apêndice, os três primeiros narrados pelos herdeiros da família, o quarto contado por um narrador oculto, e o apêndice sendo uma espécie de mistura entre glossário e continuação do romance inicial adicionado anos depois pelo próprio Faulkner.

A máxima “decifra-me ou devoro-te” se adequaria perfeitamente como um titulo alternativo da obra. No livro, nada é explicito, nada é claro, nada nos é dado. Sentimo-nos em meio a um labirinto, onde a corda que nos mostra a saída é continuar lendo, por mais que a principio não se possa entender muito, tudo propositalmente planejado por Faulkner. Uma boa analogia seria a do filme feito apenas por close-ups, sabemos que existe um cenário, porem só enxergamos de muito perto, tornando impossível no primeiro momento distinguir o macro-ambiente do romance.

A primeira parte da obra é contada por Benjy Compson, um deficiente mental de trinta e três anos, o caçula dos quatro irmãos e mudo por sua condição. Benjy é constantemente vigiado, hora pela família e hora pelos negros empregados na casa dos Compson. Comunica-se com o mundo externo (fora de sua mente) por meio de choros e gemidos. O capitulo em si é denso, Benjy avança e volta em sua memória sem nenhuma ordem predefinida, vemos acontecimentos da infância em uma linha e imediatamente depois acontecimentos de sua idade adulta. Os eventos a sua volta são processado em sua mente de maneira pura. Benjy seria a personificação dos cinco sentidos primários, reconhece pessoas e retém fatos por meio do olfato e do tato. Apesar de ser bem tratado pela família em geral e excessivamente cuidado, Benjy atrai o preconceito originário de superstições pagãs. Essencialmente é um capitulo difícil, pesado, a narrativa não é linear em nenhum momento e fatos importantes são lançados em meio a todo um turbilhão de cores e sons.

Quentin Compson, o irmão mais velho, é quem narra o segundo capitulo, não menos difícil que o primeiro. Nele Quentin está em Harvard. Para bancar seus estudos a família se vê obrigada a vender suas terras: um pasto, no entanto tal pasto era um dos poucos objetos amados pelo seu irmão deficiente, o que gera em Quentin sentimentos de culpa e autopunição terríveis. Além disso, o amor incestuoso que nutre por sua irmã, Caddy, serve como intensificador de suas aflições. Aqui assim como em Benjy, Quentin viaja pelo tempo por meio de sua memória, porém ao contrario do primeiro, neste há uma ordem, confusa, mas existente. Quentin possui um nítido apreço pela morte. O Tempo e o amor por sua irmã ditam o ritmo do capitulo, o fluxo de consciência dessa parte raramente é quebrado por ações no tempo presente. Quentin permanece inebriado, envolto em névoa, os acontecimentos do presente ou do futuro não possuem mais importancia. Assim como Benjy é a sensação do livro, Quentin é a mente. Ambos os capítulos são permeados de uma obscuridade, uma melancolia e uma aflição pungente, assim como o livro em geral.

Já Jason, “o único Compson são em anos”, é o encarregado de mostrar o que resta de sua decadente família. Leva em si sentimentos de ódio e ressentimento de proporções gigantescas. Destila sua raiva em todos, inclusive em Benjy. Jason julga que Caddy e Quentin roubaram-lhe as chances e oportunidades de sua vida e que foi preterido pelos pais em relação aos irmãos que só fizeram desperdiçar o que lhes foi dado. Jason, após a morte do pai, a fuga de Caddy e o suicídio de Quentin, vê cair em suas mãos a responsabilidade de sustentar sua mãe, sua sobrinha Quentin (nome dado por Caddy a sua filha em homenagem ao irmão suicida) e “uma cozinha cheia de negros”, como faz questão de frisar, trabalhando dez horas por dia em uma loja de bairro, como se não bastasse o ressentimento por seus parentes ainda brada contra os nortistas, alegando que eles, sulistas, eram tratados como trouxas. Jason é, por fim, o sentimento da obra. Em seu capitulo as peças passam a se encaixar mais facilmente, a narrativa, mesmo que remontando o passado em alguns momentos, é linear e tradicional, é finalmente um alivio para o leitor.

O ultimo capitulo possui o enfoque principalmente em Dilsey, uma empregada negra, responsável por cuidar de toda a família desde a infância até a idade adulta. Dilsey parece ser a única sensata e com normas morais corretas em todo o romance. Finalmente, já no apêndice , Faulkner nos remonta as raízes da famigerada família Compson, desde sua chegada nos Estados Unidos até o loteamento da preciosa “milha de terra” conquistada, a venda do pasto e finalmente a venda da casa por Jason, lugar onde a maior parte do romance transcorre. Essa parte do livro soa como uma enciclopédia para aqueles que não conseguiram montar o gigante quebra-cabeça por si só.

Apesar do livro ser monumental em sua pretensão e qualidade, não é um livro recomendável, Faulkner procurou inovar, e de fato inovou de todas as maneiras. Caddy age como a força gravitacional da obra, todas as personagens e acontecimentos giram em torno dela. Caddy também funciona como o marco físico e visível de uma ruína a muito tempo anunciada e gerada, uma vez que foge dos códigos postulados a ela, como: pureza e decência. “O som e a fúria” se faz ver e ouvir a todo instante, assim como uma musica de fundo. O livro é difícil, se faz necessária uma boa dose de atenção e carinho nos primeiros capítulos. Ao final de tudo, se justifica o gênio em Faulkner

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Matheus Martins

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