choque sináptico

Isso não é um surto psicótico. Esse é um momento de clareza.

Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto

Os Heróis de Sangue Negro

A degeneração mental e física de pessoas numa ambição louca e desenfreada, se encarregam de tornar Sangue Negro uma obra intimidadora.


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A sociedade presencia, de tempos em tempos, surgimento de homens aparentemente fora da curva normal, pessoas únicas que poderíamos rotular como “extraordinárias”, uma vez que classificássemos o mundo de uma forma rasa e binária, com os seres humanos se dividindo entre esta (os extraordinários) e os “ordinários”. Se tomarmos ainda, como método de distribuição, o poder aquisitivo numa escala de milhões, teremos a incrível proporção de onze em cada dez mil pessoas. Ou seja: Onze em cada dez mil pessoas serão extraordinárias-milionárias, sempre partindo do nosso postulado inicial de que o dinheiro seja o norteador de tal divisão, muitas vezes, esses onze indivíduos, tornando-se objeto de inveja e cobiça, de veneração.

Pois bem, tendo dito tudo isso, Sangue Negro (There Will Be Blood) se trata de um filme de Paul Thomas Anderson ambientado nos Estados Unidos do século XIX/XX, não apenas um filme, mas sim uma obra monumental. A história é narrada na visão de Daniel Plainview, personagem interpretado pelo monstruoso Daniel Day-Lewis em uma atuação que lhe rendeu o segundo Oscar de melhor ator, segundo dos três conquistados.

Plainview, na nossa divisão, se encaixaria na classe dos extraordinários, não só isso como estaria também apto a ser o fundador dela, visto que Plainview seria a perfeita personificação da filosofia capitalista negra, do capitalismo, fugindo daquele batido estereótipo barato e sem profundidade do banqueiro avarento. PTA da inicio à sua obra com uma longa cena sem falas, por paisagens áridas e lugares imensos, o filme se apresenta dessa maneira, a degustação e a apreciação são partes fundamentais, a fotografia e as paisagens são tão importantes quanto os protagonistas.

Plainview inicia-se como um simples mineiro, passa por um acidente e surpreendentemente escapa com vida, arrastando-se. Nesse trecho notamos a sede de viver e a ambição do personagem central, porém viver sob que propósito? Em um curto período de tempo “evolui” de mineiro para um homem do petróleo que não tem medo de se sujar na própria lama, com o próprio suor, tal conotação que de alguma maneira representa progresso. Em meio a esse avanço um de seus empregados sofre um acidente fatal, o protagonista assume o filho recém-nascido do falecido. Relativamente estabelecido em sua posição e já certamente endinheirado, Plainview recebe a visita inesperada de um curioso jovem de Little Boston: Paul Sunday gêmeo de Eli Sunday (ambos interpretados por um Paul Dano ótimo), que lhe confia à informação privilegiada, em troca de dinheiro, de que em sua terra natal o petróleo é tanto que chega a se concentrar na superfície do solo.

Chegando ao local acompanhado de seu filho adotivo H.W, Daniel se depara com Eli, um religioso fervoroso que não mede esforços para o “progresso” de sua igreja e da população local. Visto que o lugar é um mar de óleo, logo as perfurações do honrado homem do petróleo e porta-voz da civilidade começam, assim como os conflitos. Plainview e Sunday demonstram uma dinâmica destrutiva e intensa, dois gigantes se atraindo e ao e mesmo tempo consumindo-se. Para Daniel a máxima “por cima do meu cadáver” não há significado, tanto quanto para Eli, um homem de fé. Apesar de serem divergentes ambos apresentam semelhanças estarrecedoras, o verdadeiro protagonista do longa é, na verdade, o próprio dinheiro, o dinheiro como inicio, meio e fim, e tanto Eli quanto Daniel não passam de peças em função deste. Arautos e personificações de lados obscuros das facetas humanas, o magnata e o profeta atuam como parasitas interdependentes.

O cenário, o protagonista, o antagonista, a história, a loucura. De fato, o filme é um deleite para os apreciadores do cinema, qualquer crítica ou resenha se tornaria automaticamente fútil e curta em contraponto a todos os significados do filme. Day-Lewis nos entrega uma atuação pra história, uma profundidade surpreendente, Dano apesar de novo não decepciona e também recebe uma indicação, a cena final envolvendo esses dois é simplesmente Homérica. Impossível não refletir durante dias após contemplar tamanho soco no estomago. Trata-se de uma obra sobre realidade, de uma obra sobre progresso e algumas das pessoas “extraordinárias”.


Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto.
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