choque sináptico

Isso não é um surto psicótico. Esse é um momento de clareza.

Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto

O Problema Do Problema

"É na angústia que o homem toma consciência de sua liberdade (…) na angústia que a liberdade está em seu ser colocando-se a si mesmo em questão"


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Há um tempo publiquei um artigo: Tratava-se dos nocivos efeitos das redes sociais e, por conseguinte, da cultura do status. Certa repercussão unida a alguns comentários surgiu, um deles, instigando-me, sugeriu que ao invés de apontar os problemas, amplamente divulgados e saturados, indicasse possíveis soluções a tais anomalias.

Confesso que esse acontecimento tirou-me o sono e, na oportunidade, não pude nem ao menos replicar, nunca por grosseria e sim por não distinguir claramente medidas adequadas e amenas, necessárias à situação (ao contrario de destruir CPUS e romper com as respectivas bandas largas, oque também não seria solução nenhuma). Creio que, ao contrario, trilhei o caminho inverso e acabei por me aprofundar mais nos problemas, o que é, naturalmente, muito mais fácil. Claro, todo o médico, antes de um prognóstico e tratamento, deve saber a fundo as angustias de seus pacientes.

É paradoxal pensar que em meio a esses maravilhosos tempos modernos, cheios de integração, globalização e socialização, “discrepâncias” como a depressão e o suicídio, muitas vezes encobertos, persistam. Esses fenômenos apresentam características um tanto especificas a eles: uma “angustia”.

A cultura do status aparenta possuir, como ponto de partida, uma crescente e alarmante necessidade de reafirmar nossa presença, fazermos vistos, ou seja, simplesmente dizer aos outros que existimos. Tendo isto postulado, podemos notar que as redes sociais acabam por servir como soluções homeopáticas para as aflições dos indivíduos envolvidos, que ignoram ou não sabem de seu problema, uma vez que assume um papel de válvula de escape, uma válvula virtual para conflitos bem reais e palpáveis.

A conexão costuma proporcionar a falsa ideia de proximidade entre indivíduos, é comum imaginarmos que a maioria dos acontecimentos gira ao nosso entorno, além disso, enquanto permanecemos conectados podemos e parecemos afastar um incômodo inerente nosso e a nossa atualidade. Esse incômodo, comumente, é resultado da percepção de que o individuo existe (essa a raiz do problema) e a existência, por sua vez, sempre será algo solitário, nunca que poderemos compartilhar nossa existência (nesse momento introduzem-se as redes sociais), empresta-la, em primeiro momento isso não é algo suave e sim o oposto, para muitos um fardo pesado. O choque dessa realidade gera a angustia, a aflição, a necessidade, o entendimento de que realmente existimos e não há nenhum motivo claro para isso, tal angustia pode desenvolver-se, transformando-se em uma eventual depressão e ocasionar em um eventual suicídio (como uma ultima alternativa, uma falsa saída).

“A falta de sentido da vida provém da incapacidade do ser humano se auto-conhecer e de agir como ser pensante e autônomo. Ao não perscrutar e analisar sua existência e seu mundo interior, o indivíduo torna-se incapaz de dirigir sua própria vida.” (Sartre).

O filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre já havia teorizado sobre o assunto, em seu romance A náusea de 1938, Sartre nos apresenta Antoine Roquentin, um literato que subitamente descobre sua existência e ao mesmo tempo a falta de sentido de sua vida, a futilidade, a Náusea aparece como resultado de tais constatações chegando ao ponto de causar-lhe ânsia. Escreve um livro histórico, para que por meio da vida de seus personagens, consiga fugir de sua própria realidade.

Tendo dito tudo isso, reconheço que o buraco é mais embaixo no que se trata da internet, há o problema do problema, algo que não é simplesmente futilidade ou falta de senso. Seria normal que acreditássemos que a angustia das pessoas, o conhecimento de nossa própria singularidade, é algo ruim, porém pode se revelar completamente o contrário. Um contato mais profundo com nós mesmos acaba por nos revelar facetas antes nunca vistas de nosso interior, aspectos que antes não conhecíamos. Resultado disso é que exteriorizamos essa nova visão para o ambiente de nosso convívio. Deixamos de executar processos que eram inúteis. A partir do instante que o individuo passa a olhar para si mesmo, entra no fundo de “seu eu”, certamente não será o mesmo.

O conhecimento amplo de nós mesmo torna-se necessário para que possamos realmente ter o controle ao invés de exibirmo-nos sem nenhum propósito, não é simples e obviamente pode ser um jogo perigoso, porém só dessa maneira o ser descobre o que quer e não o que a sociedade impõe a ele. Descobre que é livre. E que não precisa de meios e intermédios para que possa realmente existir, que ao contrario do que pensa e do que os outros querem; é válido existir por si só.


Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto.
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