choque sináptico

Isso não é um surto psicótico. Esse é um momento de clareza.

Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto

Compra-se Ideal

"Ideologia, eu quero uma pra viver!"


O Homem dos Tanques

Ideal, segundo uma das definições, é "Algo ou metas de projetos no qual pessoas buscam alcançar e realizar", em outras palavras, podemos entender o ideal como uma espécie de lei superior que rege a vida de cada pessoa e o alicerce no qual os indivíduos buscam edificar sua própria vida.

Muitos ouviram, assistiram ou leram a história da lendária jornada de Alexander Supertramp (Chris McCandless), um jovem norte-americano recém formado e de família rica, que foge de casa, sem um centavo, para uma viagem sem rumo, andando a esmo pela imensidão dos Estados Unidos rumo ao Alasca, buscando isolar-se do mundo e da sociedade que o oprime e o faz infeliz, encontrando seu fim em meio a galhos e gelo, sozinho.

Colocados os fatos nessa ordem e dessa maneira, a maioria das pessoas pensaria que nisso tudo não há nada de fantástico, que o rapaz era mais um degenerado entre tantos, um louco e tudo que fez não passava de desatinos de um adolescente e, olhando por essa visão, talvez fosse, se eu não houvesse propositalmente omitido, dessa curta sinopse, o âmago da jornada, sem o qual a narrativa parece estar incompleta e vazia: o ideal.

Jean- Paul Sartre, um dos fundadores da escola existencialista e Nobel da Literatura (que recusou), escreveu em seu livro O Existencialismo é um Humanismo, de 1946 o seguinte trecho: "Antes de vivermos, a vida é coisa nenhuma, mas é a nós que compete dar-lhe um sentido, e o valor não é outra coisa senão o sentido que tivermos escolhido(...)"

Tal frase pode, se não em forma mas em sentido, substituir ou complementar a definição vos dada no inicio desse artigo. Me pergunto o que, especificamente na história de McCandless, que no final se provou trágica, surte um efeito tão hipnótico a ponto de querermos imita-lo.Procuro responder a essa pergunta olhando para a vida comum das pessoas comuns.

Sartre em seu outro livro, intitulado convenientemente de A Náusea diz: "Eles não desejavam existir, só que não podiam evitá-lo; era isso. Então realizavam suas pequenas funções, devagar, sem entusiasmo (...)"

Uma vez existindo, desde cedo, somos bombardeados por sugestões, conselhos e manuais de boas maneiras, boa educação e bom emprego, ou seja, de como ser uma pessoa normal e andar na linha. Somos obrigados a comprar, como na publicidade, os sonhos dos outros, muitas vezes sendo nesses casos; Nossos pais e mães, que por sua vez foram influenciados por outros e assim sucessivamente até nós. É nos dado, pelas pessoas mais vividas, o caminho das pedras, o jeito fácil de ser alguém e "conquistar" a vida e, o mais irônico de tudo, sem que nunca tivéssemos solicitado e, por sermos pequenos e sem discernimento, no começo funciona muito bem. Não digo que esse clico é errado e nem que é uma regra, o que proponho é apenas a reflexão sobre os mecanismos existentes, se existe um culpado, certamente não são os sujeitos que apenas dançam de acordo com a música.

O problema, parecendo uma doença, se desenvolve e emerge com o passar dos anos, o que Sartre intitula de Náusea e Heidegger de Angustia surge, uma vez que progredimos por um caminho não inerente a nós, que não nos diz respeito, quer dizer, um ideal falso. Muitas vezes não há volta, estamos em idade avançada, necessitamos sustentar uma família, estamos acomodados ou simplesmente falta coragem, coragem de largar tudo que fizemos até ali que, querendo ou não, nos dá segurança. Dessa forma tornam-se mais nítidas, consequentemente, patologias sociais como a geração dos profissionalmente frustrados ou o aumento dos casos de depressão na população.

Henry David Thoreau; autor, naturalista, ativista e influência de personalidades como Gandhi e o próprio McCandless, diz em Walden;

"Como os jovens podem aprender a viver a não ser tentando a experiência de viver?"

A real transtorno cresce à medida que as pessoas são privadas de seu poder de escolha e sua capacidade de discernimento. Quanto mais os indivíduos seguirem a corrente ao invés de tomar suas próprias atitudes, mais se sentirão nauseados, vazios e frustrados, até porquê o que todos fazem pode não ser correto. Uma vez que existimos, sem motivos aparentes, cabe a nós mesmos descobrirmos e darmos um sentido a nossas vidas.

Uma geração sem ideal próprio pode ser comparada a um livro com capa ricamente ornamentada mas em branco por dentro, nas suas páginas, ansiando preenche-las. McCandless nos comove justamente por, contra todas as probabilidades, ter seguido seu ideal, seu objetivo de vida. O fato de ter falecido só enobrece a si e aos valores em que acreditava, final que muitos outros idealistas e precursores também tiveram e nem por isso suas crenças foram diminuídas.

Só possuímos direito a uma tentativa, ao contrario do titulo desse texto e da música de Cazuza, não se compra ou quer ideologia, se constrói.


Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto.
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