choque sináptico

Isso não é um surto psicótico. Esse é um momento de clareza.

Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto

A vida finita

Finito(a), segundo o dicionário e de maneira bem reduzida: Que acaba, que tem fim.


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Acredito que as definições literais sejam uma boa maneira de dar início a um texto, isso porque elas delimitam muito claramente o sentido que queremos dar a uma frase ou uma palavra. Digo, acrescento ainda, que esse texto poderia, muito bem, ser composto apenas pelo título: Nesse caso o próprio título, assim como a vida, seria o fim por si só. Naturalmente quando partimos do pressuposto da existência de uma vida finita, é normal imaginarmos que há um outro modo de vida, que por antítese, seria a vida “infinita”, eterna. E direi que existe! Bem, na verdade não sou eu quem digo e, de minha parte, não sei se há realmente uma vida infinita mas, o “infinita”, o “eterna” nessa situação, não diz respeito à vida imortal, quer dizer, a prevalência do corpo ao tempo de maneira indefinida, e sim a uma alma transcendental em relação ao corpo, ou seja, o inverso.

E para que tudo isso afinal? Ora, de acordo com essa segunda visão, a vida seria apenas um ensaio para algo muito maior, um treinamento duro para uma nova fase que se seguiria logo após a morte, essa “nova fase” se considerando eterna. Conceito esse, muito explorado e utilizado por diversas doutrinas religiosas. Sendo assim o que fazemos e deixamos de fazer, aqui e agora, não tem muita importância, quando o que passamos e fazemos nada mais é que teatro para algo maior que virá. Na verdade seria até obsceno “desejar”, parecer sobre as tendências do corpo, já que a alma é o que verdadeiramente que importa, esta estando presa a um corpo fraco e incompleto.

Dessa forma o ser humano deve, e passa, a ser pautado pelas normas da alma, que incluem questões superiores e elevadas que não podem, de maneira alguma, serem influenciadas pelas objeções do corpo, que englobam fatores como sentimentos e desejos, fatores supérfluos e fúteis que não se perpetuaram para a outra fase, o outro estágio da existência, porque obviamente, uma alma não possui desejos e carências físicas.

Naturalmente, mais uma vez, reside ai toda a diferença. A vida do indivíduo crente desta visão passaria o tempo todo a ser moderada pelas “questões superiores” tendo ele que resistir diariamente as tentações do corpo e busca suprir suas deficiências a todo momento. É importante lembrar que estas reflexões só são possíveis por que o homem tem consciência de si e de sua existência, e não é uma “couve-flor” como Sartre diria, que só poderia ser uma “couve-flor” e nada mais.

O outro modo, o modo que define o título deste texto, é radicalmente contrário a primeira visão e partiria da premissa inversa, ou seja, vivemos apenas uma vez, e todo segundo tem o fim e si mesmo, é iniciado e aniquilado logo em seguida, a morte não é passagem para coisa alguma e sim, apenas, o termino. Dessa maneira a alma assume um papel secundário, o corpo é quem comanda as nossas decisões e atitudes, a vida sendo guiada pelos prazeres, todo e quaisquer prazer que a vida tem a nos dar. Já que só se vive uma vez.

E isso, por mais incrível e óbvio que pareça, afeta e muda toda nossa concepção de mundo. Por qual motivo, já que só se vive uma vez, iremos desperdiçar nossos preciosos e irrecuperáveis segundos com tarefas medíocres e maçantes ou assuntos que nem ao menos nos dizem respeito? Sendo que a vida, como qualquer outra coisa, é um recurso escasso. Por qual motivo seremos cerceados e pautados por normas e éticas que insistem em podar nossa liberdade e nosso pensamento, nos enchendo, muitas vezes, de preconceito?

A vida como finita, revela um modo dramático de se viver, uma vez tendo essa consciência, é quase que obrigatório sair do estado de inércia. O famoso “deixa a vida me levar”. Se tivermos isso em mente, é necessário ser o protagonista das próprias ações e não deixar a sociedade e os outros tomarem as decisões realmente importantes. Lembrando que juízos de valor não querem dizer nada, e qualquer e toda resposta soa vaga, apenas pretendo levantar caminhos e reflexões sobre nossa condição. Afinal, se vivemos ou não só uma vez, é fundamental pensar “o que estamos fazendo de nós mesmos”?


Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto.
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