choque sináptico

Isso não é um surto psicótico. Esse é um momento de clareza.

Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto

Os Retalhos Que Somos

Tendo esbarrado, caído e tropeçado na vida, somos e aqueles que continuaram ou ficaram?


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Creio que uma das maiores qualidade e tragédias do ser humano seja a consciência que possui dos fatores que afetam sua vida, dos acasos e decisões que o levaram onde está, de suas influências. Um animal, para se tomar um exemplo, possui seus sentidos voltados diretamente para a causa instantânea de sua situação. Não confabula sobre os desencadeamentos que o levaram a ser enjaulado ou morto (para citar exemplos drásticos). Porém até mesmo um animal é influenciado por fatores externos, como maus tratos ou carinho. Assim como nós.

Sabemos das confusões que nos acometem, conseguimos descrever nossas injurias de maneira (quase) perfeita. Para tanto acredito que existam no mínimo dois fluxos para o processamento de momentos, sentimentos e fatos. Primeiro há o fato, este podendo variar de inúmeras formas, ao mesmo tempo existe o individuo que atua como receptor da informação. Nesse instante reside o primeiro fluxo, do fato para o receptor, sendo ele o de assimilação e interiorização. Logo que absorvemos o fato, estes tomam os contornos de "nossa" personalidade e realidade momentânea, para logo em seguida produzirem um efeito único em nossa pessoa, o efeito diversificando-se de varias formas e intensidades de acordo com tudo que passamos e vivemos até aquele momento. Esse efeito reverbera com maior ou menor força em nós.

O fluxo seguinte, após uma digestão do todo, seria logicamente o de exteriorização. Tudo de acordo com o filtro prévio que realizamos em um primeiro instante inconscientemente, porém, agora, a exteriorização possui algo a mais, algo novo no universo inteiro, ou seja, é tudo aquilo que somos e vivemos mais o fato recentemente absorvido. A coisa toda funciona como a história do telefone sem fio, aquela brincadeira infantil.

Li, certa vez, que nem mesmo um buraco negro consegue dizimar algo por completo, obliterar, apagar da face do universo. Sendo assim, poderíamos nós apagar um sofrimento ou alguém? O vortex consome, destroça, expurga mas no final ainda existe o resquício do resquício, mesmo o buraco negro já não é o que era.

Até mesmo na filosofia existem conceitos similares, um interessante nos diz que somos nós mesmos duas vezes na vida; uma ao nascer, porque somos indivíduos imaculados e outra no instante derradeiro da morte, apenas no instante da morte nos livramos das amarras, e descarregamos todo o peso que a sociedade nos colocou para representar algo que não éramos por muito tempo. Uma vez que estamos morrendo, representar para quem?

Tentemos por um momento trazer toda essa teoria para a vida cotidiana e executar uma analise mental sobre a situação dos indivíduos. Em primeiro lugar necessitamos saber quem somos. "Isso é moleza" me dirão. Pois bem, você é sua cor de cabelo, sua estatura, seu nome, seu seguidores no instagram, suas curtidas no facebook? Claro que não. Tudo isso não passa de casca e, ainda mais, parâmetros passageiros e superficiais. Podemos apela ao humor, aos sentimentos e carácter mas ainda assim acredito que não seja o suficiente.

A ideia da pessoa completa, perfeitamente autossuficiente e independente alem de absurda me parece heroica. Primeiro que é impossível ser autossuficiente fisiológica e sentimentalmente e depois a ideia de uma personalidade unica soa irreal. Sendo imperfeitos a busca por preencher nossos vazios é perpetua e dai surgem as assimilações. Quando vão embora ficamos perdidos, por que? Talvez porque a pessoa tenha tido um papel fundamental na construção de quem somos, do que somos hoje.

Uma vez estando no mundo, tudo nos afeta e nos altera. Só somos nós mesmos quando aceitamos a pluraridade de "eus" que coexistem em cada um. E ainda assim nada é apagado e, se fosse, já não seriamos as mesmas pessoas e sim outra coisa diferente. Relacionamentos mal sucedidos e gargalhadas dadas, tudo isso é cristalizado no momento em que acontece.

Ainda que o objetivo do texto seja despertar a reflexão acerca do "eu", acredito que as coisas tenham ficados quebradiças e espatifadas. Deixa estar. isso apenas prova os retalhos que somos.


Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto.
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