choque sináptico

Isso não é um surto psicótico. Esse é um momento de clareza.

Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto

A esperança de mudanças em um cenário sem esperanças.

Ensaio sobre a decomposição da individualidade.


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Acho interessante pensar em como, as vezes, a maioria de nós costuma tomar caminhos que não nos dizem respeito por motivos diversos. Seja enchendo a cara sendo abstêmio ou exercendo uma profissão odiosa para si por cinquenta anos consecutivos. Na verdade “tomar caminhos que não nos dizem respeito” quer dizer, em essência, fazer tarefas que não queremos e não nos imaginamos fazendo. Ainda mais interessante que isso e, talvez, o aspecto fundamental da coisa é a causa raiz que nos leva, depois de um tempo (ou de muito tempo), não só a continuarmos a desempenhar nossas funções medíocres mas, além disso, ter medo de não desempenha-las mais, nos acorrentando por dentro.

É um tema batido, certamente, porém me parece cada vez mais atual e relevante e, além disso, por ser “batido” é que o assunto se torna mais assombroso para mim. Como um objeto que tem tanta importância na vida dos indivíduos pode se tornar algo “batido”, a palavra adquirindo um sentido quase banal. Para essa prisão invisível existe uma combinação de elementos que mantem as pessoas em uma inércia degradante, combinação essa que pode ser infinita porém, quase sempre, parece ser constituída de alguns poucos itens como: Comodidade, medo e pressão social.

Como se não bastassem os efeitos negativos de cada um desses itens isoladamente, entre eles talvez ainda exista um ciclo, por exemplo: A comodidade como fim resultante do medo proveniente da eventual pressão social. Sendo um ciclo auto-sustentável e aparentemente duradouro a ponto de prender as pessoas por anos, não é estranho encontrarmos casos graves e últimos de indivíduos que desperdiçam suas vidas inteiras em trabalhos que não querem com pessoas que não gostam. Para problemas complexos assim costumamos ouvir soluções tão banais que, incrível, não entendemos como nunca pudemos ter pensado nelas por conta própria, por exemplo: Se você não gosta do lugar então sai e se você está infeliz mude seu jeito.

Primeiro que entre não gostar de algo e efetivamente sair de algo existem muitos degraus com suas próprias tipicidades que devem ser observadas e depois, sobre mudar de jeito, a ideia parece ser tão abstrata que sou incapaz de concebe-la sendo que o problema não está no jeito e sim na atividade. Tendo gastado todas as nossas forças se arrastando com pedras nos bolsos, lá na frente costumamos ouvir a típica frase “a vida é assim mesmo” mas assim como? Nascidos em um sistema já estabelecido, com suas convenções e leis, a fórmula que funcionava lá na colonização do país é nos aplicada (apenas com algumas adaptações), sem respeitar as características próprias de nossa época e, o mais importante, nossas próprias características. Por fim um método deturpado por constantes anomalias ao longo dos anos é aplicado a indivíduos nos quais a própria metodologia não se aplica, formando um quadro no mínimo grotesco.

Na linha do “assim mesmo” surge um outro fator e talvez um dos mais em pauta que chamamos de “necessidade”, a necessidade esmagando todo o resto como se fosse intimamente ligada a vida (e muitas vezes é). Se vivemos apenas uma vez me é estranho que alguns passem necessidade e outros fartura, nascendo da mesma forma o ideal seria presumirmos que partiríamos todos de condições idênticas e adequadas para sermos o que quisermos. Uma vez que talvez nem a mínima condição é garantida presumimos que o erro vem de antes de nós e ainda antes de nossos pais, uma genuína doença genética social.

Dessa forma nos acostumamos a fazer o que dá, acostumados a posicionar nossos sonhos e desejos em um ponto inalcançável, em uma faixa temporal não tão distante, para que não julguemos impossíveis, e nem tão perto para que eles não nos iludam, e dessa forma ficamos sempre a meio caminho da própria felicidade. Assim, o que prezamos fica estático em um lugar que permite que nada morra mas ao mesmo tempo nada floresça e se concretize, tudo cristalizado e brilhando, chamativo, sensual e também irônico e trágico. Talvez esse seja o segredo, a esperança de mudança em um cenário sem esperanças, a única coisa que nos salva da loucura e do total embotamento do eu frente ao que fizeram de nós.


Matheus Martins

Quem quer flores depois de morto.
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