
Susanna Kaysen é uma jovem, da década de 1960, que acaba de sair da adolescência e passa por problemas pessoais que a levam a tentar cometer suicídio. Diante de tal ato, seus pais a induzem a internar-se em um hospital psiquiátrico, onde ela passa dois anos de sua vida.
Essa é a sinopse de "Garota, Interrompida", filme de 1999, dirigido por James Mangold, baseado no livro "Moça, Interrompida", da própria Susanna Kaysen.

O livro e o filme são obras complementares, sendo o primeiro um retrato bastante focado na instituição psiquiátrica (famosa, na época, por ter recebido algumas celebridades) e na forma como a mesma funcionava; e, o segundo, abrangendo principalmente as relações de Susanna com as demais internas. Ambas as obras são executadas com maestria, oferecendo ao leitor e ao espectador uma visão mais ampla sobre doenças mentais e os paradigmas que as cercam.
Porém, analisando especificamente o filme, podemos levantar algumas questões (por mais que a época retratada, a década de 60, esteja tão distante) sobre o estigma da loucura e a banalização de problemas psicológicos.

Logo no início do filme, Winona Ryder, que interpreta Susanna Kaysen, levanta algumas perguntas: "você já confundiu um sonho com a realidade, já se sentiu triste, ou achou que o trem estava se movendo quando, na verdade, ele estava parado?". Tais indagações demonstram a fragilidade dos nossos conceitos sobre o que é ser normal e ser louco, haja vista que Susanna foi levada a internar-se por ter chegado ao extremo de problemas típicos de sua idade, os quais envolvem relacionamentos e pressões sobre a escolha de uma carreira, a incerteza de um futuro.
Obviamente, a adolescência e seus estágios finais são truculentos, mas nem todo jovem tenta o suicídio. Entretanto, aquele que assim o faz, deve ser considerado louco, passível de ser internado em um hospital psiquiátrico?

Desde os primeiros atos de sua internação, vemos que Susanna está contrariada, negando ter tentado se matar. Nesse ponto, em suas primeiras conversas com psiquiatras, é possível analisar a relação médico-paciente, que, claramente, desenvolve-se em um embate de forças, no qual o médico sempre impõe sua opinião a paciente. Os psiquiatras parecem ter uma opinião formada e irreversível a respeito das atitudes de Susanna.

Ao entrarem em cena as outras internas, percebemos mais estigmas e, novamente, entra a pergunta: o que é ser louco?
Uma jovem que sofre de anorexia, uma que se considera homem, vestindo e comportando-se como tal, outra que teve boa parte de seu rosto queimado e, por isso, tem problemas com autoestima, podem ser consideradas loucas? Na década de 1960, podiam.
É perceptível, assim, que nossos conceitos sobre a loucura são extremamente frágeis, passíveis de mudança. Tudo aquilo que nos parece estranho deve ser considerado louco, deve ser reprimido, precisa de remédios para "voltar ao normal".
Repetidas vezes, vemos as internas sendo medicadas, no entanto, o acompanhamento psicológico das mesmas é banalizado. Ora, se são loucas, nada mais precisam do que remédios. Esse parece ser o pensamento vigente, o qual, invariavelmente, produzirá, sim, doentes, haja vista que a exposição contínua a remédios provoca o vício (fato que é mostrado no filme).
Remédios são importantes para amenizar sintomas, tratar desordens irreversíveis sem tais métodos. Entretanto, apenas isso basta? O acompanhamento psicológico deveria ser tão estimulado quanto a prescrição excessiva de medicamentos, de modo que o paciente, ao longo de seu tratamento, possa evoluir a ponto de abandonar o uso de remédios (ou utilizar doses mínimas), e não ficar cada vez mais dependente dos mesmos.

Transportando essas questões para os dias atuais: quem nós consideramos loucos? Quais desordens estamos tratando exclusivamente com remédios, quando necessitam de acompanhamento psicológico? A famosa "cura pela fala" foi realmente suplantada pela "cura através das drogas"?
Para deixar como um adendo, dentre os significados da palavra "louco", no dicionário, estão: solto, livre, alegre, brincalhão, apaixonado, extraordinário, fora do comum, estupendo.
A loucura existe?

Comentários
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Léo Bianchini
Excelente post, realmente o filme faz pensar na questão da banalização dos transtornos mentais ou melhor na supervalorização dos remédios. Hoje em dia, cada vez mais, médicos não ligam para os fatores que causam a doença, não tentam saber a origem do problema apenas amenizar e assim a medicalização acaba sendo banalizada também, ao passo que o paciente nem precisa contar seu problema para o psiquiatra pois este já sabe, desde o momento em que o paciente entrou na sala, qual remédio será receitado ao fim da consulta. Precisamos, ainda hoje, lutar contra a estigmatização da loucura!
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