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Um blog sobre cinema e coisas afins

Thomson Albuquerque

Cinéfilo e colecionador apaixonado pela arte da imagem em movimento. Diretor, roteirista e protagonista da sua própria vida.

A voz de Chaplin

Chaplin relutou em incorporar o som à suas películas, a pantomima sempre lhe pareceu mais atraente.


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Se pudesse utilizar uma palavra para definir este grande mito do cinema diria que Chaplin foi uma figura paradoxal, sim isso mesmo! Em pleno o século do desenvolvimento das máquinas e da industrialização, esse ousado cineasta optou por dar vida ao seu eterno “Vagabundo”, um sujeito desligado, de bom coração e de trajes bastante modestos que conquistava as plateias com sua pantomima bem ritmada e que desafiava as leis da física.Satirizou a burguesia (classe da qual ele mesmo fazia parte!) e seus hábitos, deu esperança aos pobres, criticou veementemente o progresso da máquina e a sua mecanização do homem, condenou os horrores da guerra e engajou-se em várias causas nobres.

Para o bem ou para o mal da sua criatura, o criador resistiu à chegada dos sons nas películas. É fato que as primeiras experiências com essa “tecnologia” foram desastrosas, pois era comum ocorrer a dessincronização o que comprometia todo o espetáculo.Assim, o som demorou a ser incorporado nas obras chaplianas (não se sabe se por receio, falta de domínio da nova técnica ou se por mero capricho), e quando o foi, surgiu de forma bem discreta, como se aos pouco o explorador/diretor fosse tentando domar esse novo recurso.

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Em Luzes da Cidade o som fora agregado à pantomima funcionando em virtude desta, servindo apenas como um efeito sonoro, quase que oculto. Em Tempos Modernos, a presença do som cresce um pouco mais, seja através do barulho das máquinas em sua crescente voracidade frente aos “operários-robôs”; ou pelo rádio; ou por um gramofone, até culminar com a primeira vez em que ouvimos a voz de Carlitos ao entoar a “Canção sem sentido”. Tempos-Modernos-Chaplin.jpg

Os tempos mudam e a humanidade passa a viver o horror causado pela intolerância de duas grandes guerras que têm impactos em todo o globo, inclusive em Chaplin, o qual finalmente decidiu que era chegada a hora de dar voz às suas figuras mais controversas: Hynkel (clara alusão à Hitler) e o Barbeiro judeu.Surge então “O Grande Ditador”, onde todos os diálogos têm um propósito, cada palavra possui vida própria, é como se finalmente Chaplin, após longo período de reflexão, não mais suportasse o silêncio e fosse chegada a hora de o mundo ouvir o seu sermão. Na obra, passado e futuro contendem na medida em que os dois personagens principais são distintos, enquanto o Ditador espalha sua irracionalidade através da palavra, o barbeiro permanece mudo até os minutos finais para só então, sob o disfarce do primeiro, conceber um dos discursos mais vívidos e sagazes da história do cinema.

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Assim, após finalmente ouvirmos a voz de Chaplin em sua ode à união dos povos e repúdio à intolerância, a lição que fica é de um homem que pôs em risco todo o seu legado ao abandonar o lirismo dos filmes mudos para investir no poder das palavras em um momento histórico em que elas pareciam ter perdido o sentido.

Vejamos algumas cenas icônicas que ajudam a traçar um melhor panorama da adoção do som nas obras chaplianas.

Na conhecida cena da luta de boxe perceba que os efeitos sonoros são aos poucos incorporados na narrativa, sem contudo possuírem algum destaque.

Em Tempos Modernos, o som vai ganhando mais espaço e pela primeira vez ouvimos a voz de Carlitos quando ele entoa a “Canção sem sentido”. A ironia da estreia das suas cordas vocais no cinema fica por conta do fato de que Chaplin usa palavras sem sentido, criando uma língua própria.

O Grande Ditador traz o uso da palavra por excelência e marca definitivamente na obra de Chaplin a incorporação do som aos filmes outrora mudos. Na cena do discurso final do Barbeiro judeu, note que, conforme o clímax vai crescendo, o personagem vai direcionando o seu olhar para a plateia, quebrando a linha imaginária que distingue o que é ficção e o que é real.


Thomson Albuquerque

Cinéfilo e colecionador apaixonado pela arte da imagem em movimento. Diretor, roteirista e protagonista da sua própria vida..
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