cinema digressões e dois dedos de prosa

Para falar de tudo e do nada

Leonardo Maran

Perdido em uma vida louca, virado em palavras, frases e expressões. Adorador do bom e do mau cinema, tenta fazer sentido de tudo aquilo que não tem nenhum.

...E o Vento Levou visto e lido

Filme e livro: Duas formas completamente distintas de adentrar a história de amor de Scarlett O'Hara e Rhett Butler durante a Guerra da Secessão norte-americana.


png Um dos planos mais belos e icônicos do filme

Já faz algum tempo desde que assisti pela primeira vez a E o Vento Levou. Foi na telinha precária do meu notebook, na maravilhosa qualidade RMVB (vai vendo) e dividido em duas partes, mais ou menos como o próprio filme. E foi lindo.

Existe algum mistério na junção entre os visuais excepcionais, cheios de cores e formas memoráveis, e a trilha sonora emocionante do filme que faz da experiência algo inesquecível. E há os personagens também, charmosos e tridimensionais. Confesso que acho a última conversa entre Scarlett O’Hara e Rhett Butler, ao pé da escada da propriedade de Tara, uma das melhores cenas da história do cinema.

Foram todas essas coisas que me influenciaram a ler a obra de Margaret Mitchell, de 1936. É um romance longo, então estive orgulhosamente empurrando a coisa com a barriga durante todo esse tempo. Terminei há apenas algumas semanas e fiquei pensando nos pontos de encontro e divergência com o filme, que não são poucos.

Nos dois, acho bem clara a simpatia da história com o lado confederado da questão, até porque esta é uma narrativa sobre a completa destruição do modo de vida dos sulistas. Mitchell parecia ter sentimentos divididos em relação à senhorita O’Hara. Ao mesmo tempo em que retratava Scarlett no livro como uma espécie de heroína, por ter desafiado as convenções dentro das quais viviam as mulheres da época (e nisso pode-se dizer que Mitchell era feminista, ao menos em sua literatura), também parecia nutrir uma certa aversão à falta de escrúpulos da personagem, ainda mais quando comparada aos idealizados cidadãos do sul, por quem, como já disse, a autora demonstrava uma vasta preferência.

Já a maneira como Rhett Butler é mostrado no livro chega a ser genial. O leitor nunca consegue ter sequer um momento dentro de sua cabeça, jamais sabe com certeza o que se passa em sua mente. É isso que dá força às revelações finais do personagem e que nos atenta para as pistas sutis implantadas ao longo de toda a narrativa, que indicam o tempo todo como funciona a cabeça de Rhett. Tudo isso certamente foi muito mais fácil de se fazer na tela, já que ali não teríamos acesso a seus pensamentos de qualquer forma.

Mas talvez a maior diferença entre livro e filme esteja na forma como os dois tratam os acontecimentos históricos que cercam e interferem na narrativa principal. No filme, até pelas limitações de tempo e espaço próprias do cinema, não há um aprofundamento grande da questão da libertação dos negros. Já no livro, esse é um dos temas principais.

Mitchell_sepia.jpg A autora Margarett Mitchell às voltas com seus escritos

Eu sempre me sinto meio dividido quando vejo manifestações antigas de racismo. Por um lado, entendo que era uma outra época, outros valores e que faltava discernimento sobre diversas questões raciais, então é difícil julgar esse tipo de coisa atualmente. Mas não é razão suficiente para que hoje isso deixe de soar nojento. É mais ou menos o mesmo problema que tenho com O Nascimento de Uma Nação, um dos filmes mais importantes da história do cinema e, ao mesmo tempo, um lixo em termos ideológicos. Responsável ainda, segundo alguns, pelo ressurgimento da Ku Klux Klan na época.

E o Vento Levou talvez não tenha sido tão influente nesse sentido, mas demonstra uma mentalidade parecida. Na parte da história que se passa antes da Guerra da Secessão, o livro apresenta uma população de escravos que é fundamentalmente bem tratada, querida e feliz. Como um recorte do período, talvez isso até represente uma porcentagem pequena da realidade, mas Mitchell ainda faz questão de ocultar qualquer possibilidade de existência de senhores rurais que tratem minimamente mal seus escravos, o que já sabemos que está bem longe de ser verdade.

Mas o mais triste nem é isso. O mais triste é ver o quanto a autora trata os negros como seres inferiores durante a maior parte do tempo, dizendo que eles precisariam da ajuda e dos cuidados constantes dos brancos, pois eram “como crianças”. Na primeira parte do livro, ainda é difícil dizer se esse é o pensamento da escritora aflorando para as páginas ou apenas a mentalidade dos personagens. O que seria desculpável, já que todos eles estavam adaptados àquela realidade, assim como estavam também confinados aos limites da ficção. Já na segunda metade, há um momento descritivo em que a narradora detalha todos os seus preconceitos sobre os escravos libertos. Para se ter uma ideia, a KKK aqui também é tratada como uma associação de heróis pronta para acabar com os abusos dos denominados “negros ordinários”.

É provável que o filme acabe mostrando muito pouco da situação dos negros pós-libertação justamente para dar maior foco à história de amor e ódio de seus personagens principais. Apenas a empregada Mammy ganha destaque, e mais por estar sempre presente nos momentos difíceis da narrativa. No fim das contas, dentro de todas essas circunstâncias, essa acaba sendo uma escolha acertada.

Annex-Leigh-Vivien-Gone-With-the-Wind_16.jpg Scarlett O'Hara e Rhett Butler em um de seus raros momentos de ternura

Chega a ser engraçado porque, quando penso em E o Vento Levou, raramente me lembro de seus aspectos históricos. No filme, mesmo quando a Guerra da Secessão deixa marcas terríveis em todos, só me dou conta dos seus efeitos através do mal que a batalha causa nos personagens e da forma como modifica suas vidas. Ao menos, o filme é uma história sobre essas pessoas, que evita assumir pontos de vista polêmicos sobre as questões sociais da época. E, se o faz, é em uma escala infinitamente menor em comparação com o livro.

Imagino que tenha sido esse um dos principais motivos para o filme se tornar o clássico que é hoje. Porque, embora o livro continue sendo conhecido e lido, ficou longe de alcançar essa mesma notoriedade. Ou talvez a profundidade visual e emocional da história tenha se tornado muito mais evidente na tela. O fato é que, embora não tenha exatamente me decepcionado com a obra escrita, aliás muito bem escrita, e que tem inclusive diversas passagens memoráveis, fico também com Vivien Leigh e Clark Gable. Assim como o resto do mundo, não consigo resistir aos dois entoando essas falas clássicas:

“Com Deus como testemunha, jamais sentirei fome novamente” e “Francamente, minha querida, eu não dou a mínima.”

Enfim, talvez não seja exatamente o que eles dizem, mas a forma como dizem, que me faz ser tão obcecado por tudo nesse filme. Ou talvez eu seja meio sentimental. É como explica um outro grande personagem da literatura, desta vez de raiz brasileira mesmo: “Não sei, só sei que foi assim”. E tenho dito.


Leonardo Maran

Perdido em uma vida louca, virado em palavras, frases e expressões. Adorador do bom e do mau cinema, tenta fazer sentido de tudo aquilo que não tem nenhum..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Leonardo Maran