cinema digressões e dois dedos de prosa

Para falar de tudo e do nada

Leonardo Maran

Perdido em uma vida louca, virado em palavras, frases e expressões. Adorador do bom e do mau cinema, tenta fazer sentido de tudo aquilo que não tem nenhum.

Uma carta de adeus

Pituca morreu semana passada, depois de vários meses de muita luta. Este texto é uma homenagem a ela e à minha mãe, que foi quem esteve junto dela durante a maior parte desse tempo. Foi mamãe quem me disse que gostaria de poder contar um pouquinho da nossa história ao lado da melhor cadela do mundo.


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Você veio em uma manhã chuvosa de maio. Veio embrulhada na blusa de soft de meu marido. Suja, ensopada e cheia de alegria. Era o dia em que meu filho completava onze anos. Quando você chegou pulando e gingando pelo quintal, tão animada que mal podia se segurar, ele me disse com um sorriso no rosto que você era o melhor presente de aniversário do mundo.

Isso foi há 12 longos anos. Durante todo esse tempo você esteve conosco, como amiga, companheira, filha, irmã. Como uma protetora que nos manteria seguros mesmo sem pedirmos, mesmo às custas de sua própria segurança.

É difícil saber tudo pelo que você passou antes de nos conhecer. Sabemos que foi abandonada grávida naquela curva do parque. Que deu à luz no meio do mato e os seus filhos foram levados de você. Que nos seguia todos os dias em nossas caminhadas matinais. Aliás, nunca me esqueço daquela manhã em que você saiu pela primeira vez dos muros do parque e acompanhou nosso carro de longe, da calçada. Ali, eu já devia ter sabido que você ficaria conosco. Mas não sabia. Só soube mesmo no dia em que te encontrei toda molhada ali, ali mesmo, no lugar de sempre.

Já conosco, todo fim de ano você achava que os fogos de artifício poderiam atingi-la. Pedia, desesperada, para ficar dentro de casa. E nós deixávamos. Mas não podíamos protegê-la sempre. Ainda sinto a dor da vez em que, ao voltar de uma viagem, te encontramos com o pescoço machucado, cortado, sangrando. Até hoje não sabemos quem ou o que fez aquilo. Só que, apesar da dor que devia estar sentindo, não deixou de fazer festa para nós enquanto dirigíamos desesperados até o veterinário. O desespero era nosso. Você agia como se tudo estivesse normal.

Acho que nunca conseguimos dizer adeus de verdade a quem amamos. Penso que você sempre esteve tão próxima e tão distante. Às vezes me arrependo de não ter passado mais tempo com você, de não ter ido afagar sua cabeça sempre que sua carinha de pidona aparecia no vitrô da cozinha. Mas não sei. Pode ser que eu só esteja querendo me sentir um pouquinho culpada por alguma coisa.

Gosto de lembrar do quanto você era cheia de alegria e de vida. E é triste pensar no quanto esteve magra, fraca e abatida nesses últimos meses. Ou em cada problema que aparecia, que vinha toda vez para tirar mais um pouco da sua saúde frágil. As intermináveis viagens que fizemos até o veterinário, o quanto você tinha medo de entrar naquela salinha de espera, como ficava quietinha o tempo todo em cima da mesa enquanto ele te examinava.

Houve vezes em que chorei, quando você sentia tanta dor que acabava me mordendo para impedir que eu me aproximasse. Nós só queríamos ajudar, mas sei que isso nem sempre ficava tão claro para você. Mas eu chorava assim mesmo. Sentia medo. Achava que você teria alguma mágoa da gente ou que começaria a nos odiar por aquilo. É óbvio que isso nunca aconteceu. Mas a gente cultiva cada medo estranho...

Pode ser que tenhamos sido um pouco egoístas. Nós só queríamos ter você por perto por mais algum tempo. E, afinal, você sempre foi uma guerreira. Foram tantas as vezes em que renasceu debaixo dos nossos olhos, fortalecida e cheia de animação. Por isso ainda mantinha dentro de mim essa esperança meio besta. A esperança de que você nunca fosse nos deixar. Que sobreviveria a tudo. Não preciso nem dizer o quanto eu estava errada.

Ao mesmo tempo, você foi o meu bebê nos últimos meses. Pela primeira vez, completamente entregue. Esteve tão frágil que pude dar de comer, embalar você em cobertores (quase como daquela primeira vez no carro), ninar você, limpar você... enfim, cuidar de você como da criancinha que sempre foi. É meio triste dizer isso, mas confesso que gostava um pouco de toda essa rotina. Sentia algum prazer em saber que podia te ajudar de qualquer forma que fosse, de confortá-la em sua dificuldade.

Acho que agora vou ter que me acostumar. Me acostumar a não te ver no portão sempre que chego em casa, a não ter que correr para impedi-la de fugir para a rua. Me acostumar a não ver mais os pulos que você dava quando meu marido chegava com a coleira, querendo levá-la para passear. Eu sei que vou me acostumar. A gente sempre se acostuma. E não me leve a mal, às vezes o que mais desejo é isso mesmo, poder me acostumar. Mas outras vezes... outras vezes me pego pensando e achando que o mundo é injusto. Coisas assim nunca deveriam acontecer com seres tão bons e indefesos quanto você era. A verdade é que eu nunca devia ter que me acostumar com nada disso.

Pituca morreu semana passada, depois de vários meses de muita luta. Este texto é uma homenagem a ela e à minha mãe, que foi quem esteve junto dela durante a maior parte desse tempo. Foi mamãe quem me disse que gostaria de poder contar um pouquinho da nossa história ao lado da melhor cachorra do mundo.

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Leonardo Maran

Perdido em uma vida louca, virado em palavras, frases e expressões. Adorador do bom e do mau cinema, tenta fazer sentido de tudo aquilo que não tem nenhum..
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