cinema digressões e dois dedos de prosa

Para falar de tudo e do nada

Leonardo Maran

Perdido em uma vida louca, virado em palavras, frases e expressões. Adorador do bom e do mau cinema, tenta fazer sentido de tudo aquilo que não tem nenhum.

O poder do dinheiro e a insignificância do homem em Leviatã

O Leviatã da impressionante produção do russo Andrey Zvyagintsev não é um gigantesco monstro marinho, mas a imensa cadeia humana de poder que sobrevoa todos nós, pobres mortais.


“Você pode pegar um Leviatã com um anzol ou amarrar sua língua com uma corda? Ele continuará te pedindo perdão? Ele falará com você em palavras gentis? Nada na Terra é seu igual. Ele é rei de tudo que é orgulhoso.”

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O Leviatã da impressionante produção do russo Andrey Zvyagintsev não é um gigantesco monstro marinho, mas a imensa cadeia humana de poder que sobrevoa todos nós, pobres mortais. Kolia (Aleksei Serebryakov) é o Jó sobre quem todo o peso do mundo é jogado.

Após perder uma disputa judicial pela propriedade de suas terras, que serão vendidas para Vadim (Roman Madyanov), o prefeito da cidade, por um preço irrisório, Kolia apela para um amigo de longa data, o advogado Dmitri (Vladimir Vdovichenkov).

Para proteger a moradia e o ganha-pão da família, que também consiste da nova esposa Lilya (Elena Lyadova) e do filho do primeiro casamento, Roma (Sergey Pokhodaev), Dmitri chantageia o vicioso prefeito com provas das terríveis ações passadas cometidas por ele.

Com uma belíssima fotografia contemplativa, o filme apresenta algumas excelentes atuações para contar a história de um bom homem injustiçado pelo sistema que o cerca e que, segundo a visão mostrada, é fundamentalmente injusto. Este sistema é incorporado pelo inescrupuloso Vadim, cujas ações imorais são corroboradas pelo padre local, Vasiliy (Vyacheslav Gonchar).

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Embora apareça pouco, o prefeito é uma peça-chave para compreender a trama. Como um verdadeiro representante do Estado, que comanda todas as instituições de poder da cidade, ele tem, de forma representativa, uma aliança com a Igreja, que o auxilia na jornada para manter e ampliar sua corrupta zona de influência.

Apesar da clara divisão entre bem e mal, o roteiro cuidadosamente construído consegue ainda assim dotar todos os seus personagens de profundidade e nuances suficientes para que a história não seja apenas mais um conto moralista e maniqueísta. Não à toa, o filme foi premiado justamente neste quesito no último Festival de Cannes.

Uma das características mais notáveis de Leviatã, no entanto, é a forma como o longa trabalha com simbologias bíblicas, históricas e políticas de uma maneira intrinsecamente incorporada à sua narrativa visual.

A constante presença da baleia em sequências primordiais, detalhes como um quadro de Vladimir Putin no escritório de Vadim e a constante presença de um clima quase ditatorial naquela pequena sociedade russa são detalhes que não apenas ajudam a compor o quadro geral, mas nos ajudam a compreender a natureza de cada um daqueles personagens, do ambiente em que vivem, de sua história passada e de suas ações presentes.

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Leviatã é um filme por vezes desesperador e por vezes dominado por uma deliciosa comédia de humor negro, principalmente no que envolve o poderoso, e ao mesmo tempo medíocre, Vadim. Expor as fragilidades de um ser tão execrável, a baixa eficácia de sua cadeia de comando e seu descontrole emocional é uma forma de dizer que a instabilidade deste universo desolador não se mostra somente no elo mais fraco, mas também nos principais representantes desta autoridade supostamente temível.

Diferente do Jó bíblico, Kolia não recebe as recompensas de Deus após suas terríveis provações. De forma irônica, a pregação do padre Vasiliy fala sobre a salvação representada pela verdade, enquanto a história mostra que o poder e o dinheiro são as únicas características realmente salvadoras em um mundo dominado pelo egoísmo e a desconfiança.


Leonardo Maran

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