cinema digressões e dois dedos de prosa

Para falar de tudo e do nada

Leonardo Maran

Perdido em uma vida louca, virado em palavras, frases e expressões. Adorador do bom e do mau cinema, tenta fazer sentido de tudo aquilo que não tem nenhum.

Uma ficção científica sobre a desigualdade e a injustiça no Brasil

Em um tempo em que as demonstrações de ódio e intolerância vêm atingindo níveis alarmantes, Branco Sai, Preto Fica é, infelizmente, um filme necessário. Além disso, é também uma belíssima obra, que convida para uma reflexão social profunda.


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Noite de baile black na Ceilândia, periferia de Brasília. A comunidade se mexe ao som da música. De repente, tudo para. Polícia. “Branco sai, preto fica!” Fica para apanhar, é claro.

O filme de Adirley Queirós, com ares de tragédia social futurista, mostra a história de duas vítimas dessa noite, ocorrida em 1986. Marquim, hoje de cadeira de rodas, é um DJ que comanda a rádio comunitária de onde vive. Shockito, que perdeu uma perna, trabalha distribuindo próteses a outros moradores que têm dificuldades similares de locomoção.

Uma estranha mistura de documentário (em depoimentos, os atores relembram o fatídico baile e a brutalidade policial, que atinge sempre os negros e mais pobres) e ficção científica, Branco Sai, Preto Fica é uma obra original e única na cinematografia nacional recente.

Utilizando uma complexa parafernalha tecnológica, Marquim e Shockito têm planos de fazer chegar a Brasília, tradicional símbolo da distância entre o governo e o povo brasileiro, uma mensagem que mescla um emaranhado de elementos da cultura popular (que inclui rap, funk e um delicioso “forrozinho safado”) com caráter revolucionário. O objetivo, figurativamente, é destruir as bases de um poder construído para desmerecer e oprimir continuamente quem já está embaixo, enquanto trata de manter os que estão de cima nas mesmas condições.

Ao mesmo tempo, vindo do futuro, o intrépido investigador Dimas Cravalanças (Dilmar Durães) busca provas dos abusos cometidos pela administração pública no episódio. Ele as consegue com os protagonistas, que carregam o testemunho na própria pele.

No entanto, as perspectivas para o futuro também não parecem muito boas. Através de uma mensagem apressada de vídeo, descobrimos que o país (mais ou menos assim como hoje) será dominado pela vanguarda cristã, o que por si só já soa ameaçador o suficiente para áreas como direitos humanos, igualdade social e reivindicações de minorias.

O cineasta é inteligente ao fazer o espectador sentir em diversas sequências as dificuldades enfrentadas por aqueles que perderam seus membros por repressão do Estado. De forma metafórica, eles ainda podem sentir as pernas, como partes fantasmas de si mesmos.

Construído de maneira a parecer um quebra-cabeças narrativo, o filme acaba se mostrando repetitivo em alguns momentos. A falta de dinheiro para a produção é evidente (a máquina do tempo de Cravalanças, por exemplo, é um contêiner), mas isso ajuda até mesmo a compor o cenário ideal para a história, que é sempre sobre e para aquelas pessoas.

Em um tempo em que as demonstrações de ódio e intolerância vêm atingindo níveis alarmantes, Branco Sai, Preto Fica é, infelizmente, um filme necessário. Além disso, é também uma belíssima obra, que convida para uma profunda reflexão social.


Leonardo Maran

Perdido em uma vida louca, virado em palavras, frases e expressões. Adorador do bom e do mau cinema, tenta fazer sentido de tudo aquilo que não tem nenhum..
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