cinema digressões e dois dedos de prosa

Para falar de tudo e do nada

Leonardo Maran

Perdido em uma vida louca, virado em palavras, frases e expressões. Adorador do bom e do mau cinema, tenta fazer sentido de tudo aquilo que não tem nenhum.

Sobre lugares que não existem mais

Novas pessoas, que nunca tinha visto antes, começaram a aparecer com frequência. Acabei descobrindo que a casa era mais delas do que minha. Justo eu, que tinha passado uma parte tão boa da infância ali, eu que achava que não tinha lugar melhor no mundo para se estar.


Quem disse que eu me mudei? Não importa que a tenham demolido: A gente continua morando na velha casa em que nasceu.

Mário Quintana

house.JPG

Férias de verão eram meu eterno sonho de consumo na infância. A escola podia não ser lá tão ruim ou exigente e eu adorava meus amigos, mas não adiantava. Todo ano me agarrava à ideia de duas semanas de sol, praia e piscina como se toda minha felicidade dependesse daquilo.

Naquela época, a promessa de uma viagem ao exterior ou mesmo para outros Estados era só isso mesmo: uma promessa. De fato, eu, minha irmã e meus pais íamos invariavelmente todos os anos para o mesmo lugar: a casa de um tio na praia de Boraceia.

Sonhava com ela dias antes da partida e me divertia tanto quando estava por lá que a casa acabou ganhando contornos míticos. Um retrato gigante do Buda ao pé da escada que levava aos quartos povoou muitos de meus pesadelos. Os rostos lascados de velhos lobos do mar pendurados na parede me lembravam das aventuras dos traiçoeiros Long John Silver e Ahab, que eu estava só começando a conhecer.

Havia um velho serviço de jantar de madeira que reproduzia um quadro de Rembrandt, cujo original fui visitar pela primeira vez há pouco tempo. Uma reprodução da Vênus de Milo à beira da piscina pode ter sido a verdadeira responsável pelo interesse que nutro até hoje por arte greco-romana.

Nas paredes da sala, bandeiras e pratos de diversos lugares do mundo. Só fui descobrir quem era Che Guevara por causa de um paninho vermelho encardido com o retrato mais famoso do revolucionário. Sobre a lareira, duas espadas de esgrima entrecruzadas e um sombreiro mexicano. Ao lado da janela, uma lanterna que poderia muito bem ter saído de algum romance gótico de dois séculos atrás.

Um dos meus objetos favoritos, entre tantos, era um quadro com uma enorme variedade de nós de marinheiro e que, até onde sei, sempre esteve pendurado em uma coluna ao lado da sala de jantar. Na época, cheguei a tentar reproduzir alguns deles, mas a atividade era tediosa e esquemática demais para quando se está na praia, com uma piscina ali do lado dando sopa.

Quando o antigo relógio da sala (uma geringonça imensa e complexa movida a bolinhas de metal) dava oito horas, os tios, primos, pais, mães, avôs, avós, filhos, sobrinhos, genros e noras ocupavam seus lugares à frente da churrasqueira e procuravam algo para fazer. As noites modorrentas, muitas vezes de chuva, faziam com que abríssemos o armário debaixo da TV e desenterrássemos de seu túmulo sagrado os mesmos velhos jogos de tabuleiro empoeirados.

Alguns eram tão antigos que as informações estavam defasadas em dez ou vinte anos. Brincávamos, jogávamos, discutíamos e de vez em quando saía uma briga mais séria, mas ninguém ligava muito.

À noite, dormia escutando o barulhinho do mar, depois de um dia inteiro enfrentando piratas imaginários, construindo e destruindo castelos de areia, engolindo água salgada, recolhendo conchas do fundo de águas lodosas. Em algumas madrugadas era comido vivo por pernilongos e atormentado por mosquitos, e precisava suportar o calor infernal que os insistentes ventiladores de teto não eram capazes de dissipar totalmente.

Um dia, aparentemente sem motivo algum, nada mais era como tinha sido. Tornou-se praticamente impossível juntar toda a família por lá. Nas raras ocasiões em que isso acontecia, surgia sempre uma dificuldade ou outra. Alguém não estava muito animado ou não mexeu a bunda para fazer nada ou começou a arranjar problemas.

Novas pessoas, que eu nunca tinha visto antes, começaram a aparecer com frequência. Acabei descobrindo que a casa era mais delas do que minha. Justo eu, que tinha passado uma parte tão boa da infância ali, eu que achava que não tinha lugar melhor no mundo para se estar.

Não me esqueço do dia em que minha mãe me puxou de lado e contou sobre as brigas. Foi como tirar um véu da frente dos olhos. Fui capaz de lembrar que muitos dias, principalmente os dias ruins, acabavam com alguém chorando ou de cara feia. Que nas noites em que íamos nos deitar cedo, de lá do quarto eu podia ouvir vozes alteradas e furiosas vindas da cozinha. Que uma vez um tio abandonou a casa de uma hora para a outra e demorou anos para voltar.

Aí, tão repentinamente quanto tínhamos começado, paramos de ir à casa do meu tio em Boraceia. E passamos a viajar para outros lugares, sempre para mais longe, como se a cada vez que entrávamos em um avião procurássemos declarar nossa independência de tudo que tínhamos deixado para trás, em um passado mais e mais apagado.

Algumas coisas ainda permaneceram, embora muitas tenham sumido com o passar dos anos. Não tenho ideia do que fizeram com a imagem do Buda. Fico imaginando que está hoje em alguma casa de veraneio, atormentando os sonhos de outra criança tão impressionável quanto eu era. Os jogos ficaram velhos demais até para a gente e tiveram que ser jogados fora. A estátua da Vênus caiu durante uma brincadeira de crianças e se desfez em caquinhos impessoais e sem significado.

Os rostos de piratas, as espadas e os nós continuam nos mesmos lugares que sempre ocuparam, ou ao menos gosto de imaginar que estejam lá, como boa companhia para minha memória.

Sei que não descubro a pólvora quando digo que nada sobrevive à infância da mesma maneira que era. Porém, essa sensação de perda causa dor ainda hoje, às vezes mais às vezes menos, e determina a forma como me relaciono com todo lugar em que estou. Qualquer viagem de férias é vista através das lentes daqueles verões na casa do meu tio.

Posso dizer que viajei a uma quantidade razoável de lugares, mas ainda não encontrei nenhum que significasse tanto quanto a casa na praia de Boraceia. Hoje já começo a me conformar com a ideia de que talvez nunca a encontre, nem mesmo em Boraceia, ainda que a casa permaneça exatamente ali, quase idêntica ao que era, imune à passagem do tempo mas nunca à minha passagem.

sand.jpg


Leonardo Maran

Perdido em uma vida louca, virado em palavras, frases e expressões. Adorador do bom e do mau cinema, tenta fazer sentido de tudo aquilo que não tem nenhum..
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Leonardo Maran