cinema em prosa

Ensaios de uma amante da sétima arte

Michele Ramos

Nunca recusa café. Usa a arte pra fugir da vida

Adaptações cinematográficas: o livro é sempre melhor que o filme?

“Sorriu com compreensão, com muito mais do que compreensão. Era um desses raros sorrisos que trazem em si algo de segurança e de conforto; um desses sorrisos que você encontra umas quatro ou cinco vezes em toda vida. Um sorriso que parecia encarar todo o mundo, a eternidade, e então se concentrava sobre você, transmitindo-lhe uma simpatia irresistível. Era um sorriso que o compreendia até o ponto em que você queria ser compreendido, acreditava em você como você gostaria de acreditar em si mesmo e lhe garantia que tinha de você a impressão mais favorável que você teria a esperança de comunicar.”


O-Grande-Gatsby-26abr2013-08.jpg

Como personificar a descrição de Fitzgerald do personagem Gatsby no livro “O Grande Gatsby”? Algum ator, mesmo Leonardo Dicaprio com seu talento e boa aparência chegaria perto de atuar em conformidade com a beleza poética desse trecho?

Durante muito tempo tive receio de assistir à adaptação de 2013 de “O Grande Gatsby” (também não assisti às adaptações anteriores). Um dos livros da minha vida estava no cinema e alguma parte de mim não queria que outra pessoa tivesse colocado em imagens todo o encantamento que senti ao lê-lo.

o-grande-gatsby-2.jpg Cena de "O Grande Gatsby"

Nesse filme, em especial, o diretor tinha a quase impossível tarefa de encontrar um Gatsby tão misterioso, encantador e envolvente quanto o descrito por Nick Carraway no livro de Fitzgerald, publicado pela primeira vez em 1925. Baz Luhrmann (diretor dessa adaptação de 2013) conseguiu? Parece que não. Apesar de ter demonstrado muito bem o vazio materialista que Gatsby mantinha para impressionar Dayse e atingir toda a futilidade dela.

Então, o livro é sempre melhor que o filme?

A resposta para essa pergunta não é simples, até porque não existe resposta certa, já que livros e filmes são coisas distintas, com mecanismos diferentes de se contar uma história.

O cinema dispõe de recursos que o livro não possui. O cinema tem música, silêncio, jogos de câmera, paisagens... inúmeras maneiras de "dizer". Ao ler um livro, completamos o sentido daquela narrativa com a imaginação. Ou seja: são outras maneiras de “dizer”. No filme, salvo exceções, muito não há o que imaginar. Aquela personagem que você imaginou loira, e que não foi descrita fisicamente no livro, foi interpretada por uma atriz ruiva no cinema. E vice-versa. São apenas detalhes que você utilizou para dar razão à história enquanto lia, mas que fazem toda diferença, pois, depois de assistir ao filme, a identidade visual que se cria com a personagem esta formada, instalada na memória. O livro parece tão mais rico devido às possibilidades. E as palavras nos dão possibilidades absurdas de construção de enredos cujo sentido é completado pelo leitor.

O leitor é muito ativo no processo de leitura. Todo seu conhecimento de mundo é mobilizado para a compreensão/interpretação daquela obra. No cinema, o espectador é mais passivo, é como se ele assistisse à construção de sentido que foi realizada por outra pessoa. Com outra perspectiva. Claro que, enquanto telespectador, podemos fazer várias análises de um filme, mas tem-se uma limitação de criação. No livro, ao contrário, o leitor é um tipo de criador.Por isso o assunto é complicado e particular, já que a relação de um leitor com um livro é única.

Além disso, trata-se também de uma questão de objetividade - o filme deve ter um tempo de exibição viável - e, obviamente, o que é narrado em um livro não precisa ser narrado em um filme. Por exemplo, em um filme, quando um personagem abre uma porta, você não precisa ler que ele abriu a porta, pois você o viu fazendo isso. O livro pode apresentar uma narração até poética de como a porta foi aberta.

Adaptações que considero bem sucedidas não são aquelas em que o livro transpõe-se literalmente para as telas, inclusive com trechos do livro narrados pelos personagens, mas sim aqueles casos em que a atmosfera do livro ou a sensação que é causada no leitor também é causada pelo filme.

ensaio-sobre-a-cegueira-3.jpg Alice Braga em "Ensaio sobre a cegueira"

E foi o que senti ao ver a adaptação para o cinema de "Ensaio sobre a cegueira". Fernando Meirelles captou tão bem a alma do livro que até Saramago emocionou-se ao assistir. A atmosfera sombria do livro conseguiu ser incorporada pelo diretor, que nos impactou talvez tão incomodamente quanto o livro de Saramago. O mesmo nó na garganta.

Por outro lado, li "Comer, Rezar, Amar" depois de assistir à atriz Julia Roberts interpretar Elisabeth Gilbert no cinema e, durante a leitura do livro, minha imaginação ficou bem limitada. Aliás, achei o filme melhor, já que o livro tem tantos detalhes desinteressantes que poderiam ter sido cortados que não fariam diferença alguma.

Thumbnail image for Comer-Rezar-Amar-Dormir_11.jpg Julia Roberts em "Comer,Rezar,Amar".

"Orgulho e Preconceito"(2005) nas telas surpreendeu-me positivamente com um Darcy tão apaixonante quanto imaginei ao ler o livro.

Dizemos, frequentemente, que o livro é sempre melhor que o filme, mas será que duas coisas tão diferentes podem mesmo ser comparadas? O que o autor quis dizer com a obra, se é que ele quis dizer algo, é tão difícil de ser definido que pode ficar muito distante da interpretação que se fez. Mas, mesmo assim a adaptação é válida.

Martha Medeiros disse em uma entrevista que após assinar um contrato liberando os direitos de um livro para ser adaptado, é como se não fosse mais dela. A escritora considera que sua obra é apenas um ponto de partida para a adaptação, seja teatro, cinema ou série de TV. A ideia inicial era dela, mas depois de adaptada é como se não fosse mais o seu texto que estava ali. E ela tem razão.

Encarar cinema e literatura como coisas distintas que são é essencial para não ficarmos tão decepcionados cada vez que vemos uma adaptação de um livro especial pra gente sendo exibido nas telas. A leitura que fazemos de um livro é impreterivelmente nossa. A que o diretor de cinema fez, não. Conformemo-nos.

E invariavelmente nos entristece contemplar com novos olhos qualquer coisa a que já estamos adaptados.” (FITZGERALD, O Grande Gatsby)


Michele Ramos

Nunca recusa café. Usa a arte pra fugir da vida.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Michele Ramos