cinema em prosa

Ensaios de uma amante da sétima arte

Michele Ramos

Nunca recusa café. Usa a arte pra fugir da vida

O Sorriso de Monalisa: arte, subversão e feminismo nos anos 50

O filme de 2003 retrata a vida de mulheres dos anos 50 cujo objetivo único era atrair um marido. Na vida e na arte, o conservadorismo presente na época regulava a sociedade. Subversivo era quem não vivia segundo preceitos tradicionais.


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(Este texto possui spoiler)

Em 1953, uma nova professora de história da arte, Katherine Watson (Julia Roberts), chega à escola mais conservadora dos Estados Unidos. Aulas de oratória, elocução, postura, como cruzar e descruzar as pernas são parte do currículo. O tradicionalismo é tamanho que uma enfermeira é expulsa da escola por dar um método contraceptivo a uma aluna. “Contraceptivos no campus, enfermeira encoraja promiscuidade”.

O filme de 2003, apesar de alguns clichês, conta com boas atuações e torna-se interessante pela maneira que retrata esse conservadorismo que focalizava a vida da mulher nos anos 50: “Daqui pra frente sua única responsabilidade será cuidar do seu marido e filhos.” “Podem estar aqui para tirar uma nota alta, mas a nota mais importante será a dele, não a minha”. Além disso, o longa perpassa também o conservadorismo existente nas concepções que envolvem a arte: “Picasso fará pelo século XX o que Michelangelo fez pelo Renascimento”, você diz em sua tese. “Então, estas telas produzidas hoje só com borrões de tinta merecem tanto nossa atenção quanto a capela Cistina?”

Nesse sentido, somos levados a refletir “o que é arte? Quando uma obra é boa ou ruim? E quem decide?” Uma vaca pintada em um painel é considerada brilhante por alguém. Isso é arte? Qualquer fotografia é arte? Seria se fosse tirada por Ansel Adams (fotógrafo dos Estados Unidos)? E a foto da mãe da personagem de Julia Roberts, seria arte se tivesse sido tirada por algum fotógrafo que já fosse considerado artista? Mas, o que define um artista? Alguém importante que foi o primeiro a considerá-lo artista e todos os outros o seguiram? “Arte só é arte até as pessoas certas dizerem que é”. “E quem são essas pessoas?“.

Em meio à discussão sobre a obra “Carcaça”, de Soutine (1925), presente no filme, encontramos questionamentos: “É bom”? “Não, nem diria que é arte. É grotesco.” “Arte não pode ser grotesca?” “Se sugere que isso é arte, o que iremos aprender?”. Em uma conversa, a diretora da Faculdade recomenda à professora Katherine: “menos arte moderna”.

soutine-albright-knox.jpg Carcaça, de Soutine (1925)

Monalisa sorri no quadro de Da Vinci. Mas está feliz? Ela parece feliz, então o que importa?“. O que há por trás do sorriso de cada umas das mulheres do filme?

No sorriso de Betty (Kirsten Dunst), encontramos uma menina que não aceita que alguém seja mais feliz que ela. Persegue a felicidade que acredita encontrar no casamento, mas, ao ser traída pelo marido, percebe que a aparência de uma vida feliz não se tratava da felicidade de fato. No sorriso de Joan (Julia Stiles), descobrimos uma possível estudante de direito incentivada pela professora que dizia que ela poderia, sim, fazer os dois, estudar e cuidar da casa e do marido. Contudo, após ser aceita em Yale, a estudante percebe que prefere apenas estar casada. ”Você disse que a gente poderia ser o que quisesse, eu escolhi isso”, diz ela à Katherine. “É longe demais pra voltar e servir o jantar às 17h”. Já no sorriso de Connie (Ginnifer Goodwin), notamos o desespero escancarado na falta de autoestima de uma menina que não se achava bonita o bastante para ter um futuro marido.

As ideias que giravam nos anos 50 eram relativas à grande felicidade de ser uma mulher casada e cuidar do marido e dos filhos. Hoje talvez seja fácil e oportuno que critiquemos isso tudo. Mas, você mulher moderna, já se imaginou naquele contexto? Afinal, somos produtos do meio. Reproduzimos costumes e padrões de comportamento. Alguém disse um dia que a função da mulher no mundo já estava pré-estabelecida antes mesmo de ela nascer. E demorou até que alguém começasse a questionar esta “verdade”.

Nosso dever e obrigação é assumir nosso lugar no lar, criando os filhos que perpetuarão nossas tradições no futuro. Devemos ponderar que a Srta. Katherine Watson decidiu declarar guerra ao sagrado matrimônio. Sua doutrina subversiva e política encoraja nossas alunas a rejeitarem os papeis para os quais nasceram. Katherine está nos impedindo de fazer o que nascemos pra fazer”, escreve Betty no jornal da escola.

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Simone de Beauvoir foi uma das grandes pioneiras do feminismo no mundo. Sua frase célebre “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” (O segundo sexo, 1949) vai de encontro à frase da aluna no filme de que a mulher nasceria com papeis designados. Ao contrário, a identidade da mulher é formada no âmbito da cultura e, portanto, é histórica e social. Você pode pensar que hoje em dia o radicalismo dessa aluna na forma de pensar não exista mais, que tudo mudou, e que as mulheres têm as mesmas oportunidades que os homens, mas sabe que as coisas não são bem assim. E com certeza você conhece uma mulher que não quer ser mãe e isso é considerado absurdo pelas outros. “Você não fará o que nasceu pra fazer”, eles dizem. Alguma semelhança com os anos 50?

Em certo momento do filme, Katherine diz às alunas: “Eu não sabia que exigindo excelência eu estaria desafiando os papeis para os quais vocês nasceram”. “Vamos abrir nossas mentes para ideias novas”. E explicita, assim, uma das principais funções do professor de toda e qualquer área: fazer o aluno pensar sobre sua época. Questioná-la.

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Para tanto, Van Gogh é citado no filme: “Ele pintava o que sentia. Não o que via. Ninguém entendia. Achavam infantil e tosco. Levou anos até reconhecerem sua técnica e verem como suas pinceladas faziam o céu noturno se mexer. Ainda sim, ele não vendeu nenhum quadro em vida.(...) Agora, 60 anos depois, ele é tão famoso que todos têm cópias suas. A reprodução disponibilizou a arte para as massas”.

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Através da reprodução da arte, perde-se algo equivalente à tradição, pois, se algo pode ser copiado, ao invés de uma ocorrência única, temos uma ocorrência em massa. Walter Benjamim analisou as consequências sociais e artísticas da reprodução da arte em “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica” (publicado em 1936 e em 1955). Segundo o autor, “o processo de reprodução provoca um profundo abalo da tradição, na medida em que coloca a reprodução ao encontro de quem apreende, atualiza o reproduzido em cada uma das suas situações”.

Inserimos-nos num nicho, num conceito e depois de submersos fica difícil sair e pegar ar na superfície. “O contexto de onde vemos afeta o modo como vemos”. Portanto, a maneira como vemos a arte de hoje e de ontem e a vida daquelas mulheres, nossas avós, é diretamente influenciada pelo mundo no qual vivemos hoje.

Betty Friedan foi uma das pioneras do feminismo nos Estados Unidos, segundo a autora, em seu livro “Mística Feminina”, em 1950, as moças iam à universidade para arranjar marido. Em meados da década, 60% abandonaram a faculdade para casar, ou temendo que o excesso de cultura fosse um obstáculo ao casamento. Assim, para essas mulheres, viver a feminilidade plena seria agarrar um homem, conservá-lo, cozinhar para ele e ter filhos.

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No enredo presente no filme, a professora Katherine distoa do pensamento da época, pois não almeja um marido, como diz em uma cena: “eu gostaria de me casar, mas se isso não acontecer, tudo bem”. Por esse e outros motivos, era considerada subversiva: “Os professores relevam as faltas das casadas”. “Não desrespeite nossas tradições por ser subversiva”. Segundo o dicionário, subversivo é: Ação ou efeito de subverter; prática de atos subversivos; revolta, insubordinação contra a autoridade, as instituições, as leis e os princípios estabelecidos.

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Deixemos os padrões, os conceitos pré-estabelecidos. Não só com o que “significa” ser mulher, mas com tudo aquilo em que pensamos e acreditamos por que alguém quis que fosse assim. Pensemos no que consideramos arte. Naquilo que avaliamos como bom ou ruim. Se as escolhas que fazemos são feitas por nós, de fato. O “certo” é certo segundo quem? “Família certa. Arte certa. Pensar certo.” “Dispensa o esforço de pensar por si mesma”.

“O Sorriso de Monalisa” coloca em questão nosso papel na sociedade de ontem e nos faz refletir sobre a de hoje. A subversividade, hoje em dia, pode ter o significado transformado pelo novo contexto. Mas fugir do padrão continua sendo um choque pra muita gente. A linha reta é confortável e evita riscos, mas será que vale a pena?


Michele Ramos

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