cinema em prosa

Ensaios de uma amante da sétima arte

Michele Ramos

Nunca recusa café. Usa a arte pra fugir da vida

A Felicidade não se compra ou um filme para ser feliz em existir neste mundo caótico

O que seria do mundo sem você nele? Como seria a vida das pessoas ao seu redor se você não tivesse nascido? “A Felicidade não se compra” é um filme clássico que nos faz refletir sobre nossa influência no comportamento e na vida de quem nos cerca simplesmente por estarmos aqui, existindo. É o tal laço invisível que nos une.


tn2_its_a_wonderful_life_1.jpg

Em "It's a Wonderful Life" (“A Felicidade não se compra", no Brasil), de Frank Capra, 1946, um candidato a anjo de nome Clarence (Henry Travers), desce do céu para convencer George Bailey (personagem de James Stewart) a não cometer suicídio, pois é um homem importante na vida de muitas pessoas. Se a missão fosse bem sucedida, Clarence ganharia finalmente suas asas. “Ele está doente?”, questiona o anjo quando convocado para a missão de ajudar George, “Pior. Está desanimado,” responde uma voz no céu.

O enredo do filme gira em torno de George Bailey, homem admirado por todos na cidade, que abdica do sonho de estudar, viajar e conhecer o mundo para permanecer cuidando do legado da empresa em que o pai trabalhava antes de morrer. Perdido e desesperado em meio aos golpes do Sr. Potter (Lionel Barrymore), homem rico e poderoso da região, George acaba pensando em suicídio. Clarence desce do céu e tenta persuadi-lo de tal atitude, declarando a importância da sua vida para muitas pessoas, porém, mediante o ceticismo de George, o anjo resolve mostrar a ele as cenas de como seria a vida se ele não fizesse parte dela. “Foi te dada uma grande oportunidade, George, ver como seria o mundo sem você”.

A atuação de Henry Travers como anjo é excepcional e carrega comicidade na medida certa. O desempenho de James Stewart já nos é conhecido de outros clássicos como “Janela Indiscreta” (1954) e “Vertigo”(1958), ambos de Hitchcock.

6a00d83451bad569e201348999cad0970c-800wi.jpg

Falando em clássicos, confesso que tenho certa adoração por filmes em preto e branco, não sei em vocês, mas em mim revelam-se emoções diferentes causadas por aquelas imagens nas quais tento imaginar em que cores seriam. Percebo-me transportada para uma sensação boa de nostalgia. Acredito que assistir aos clássicos exerce sobre o espectador um quê de magia que só esses filmes são capazes. Para os cinéfilos de plantão, assisti-los é parte de um estudo sobre as influências recebidas pelo cinema atual.

A experiência de George, no longa, o leva a perceber que a vida de todos seria muito ruim sem a presença dele. Tudo seria diferente e sombrio e o destino das pessoas seria outro com sua ausência.

wonderanjo.jpg Henry Travers como Clarence

A vida é feita de histórias paralelas, mas que se cruzam dando inúmeros sentidos às coincidências que o acaso proporciona. Fatos que nos levam a questionar o porquê de conhecermos e nos relacionarmos com determinadas pessoas dentre tantas outras. É como se estivéssemos ligados por algum fio invisível no qual a nossa existência nesse mundo passa a fazer sentido em relação à existência do outro. “A vida de um homem toca tantas outras vidas que quando ele não está, deixa um buraco enorme.”

Em meio a tudo isso, “A Felicidade não se compra” nos leva a questionar: "E se eu não tivesse nascido?" Será que precisamos de um quase anjo que nos convença de nossa importância no mundo para passarmos a amar a vida do jeito que ela é?

O filme é considerado um clássico natalino, mas é para ser assistido em qualquer época do ano. Nos leva a crer novamente naquela bondade que parece tão pouco habitada no mundo de hoje.

Além disso, George e a futura esposa Mary (Donna Reed), são protagonistas de um dos diálogos mais belos do longa: "O que você quer, Mary? O que você quer? Você quer a lua? Diz só que sim que eu atiro um laço à volta dela e puxo-a. Isso é uma boa ideia. Eu te dou a lua, Mary." “Eu aceito, e depois?,” responde Mary. “Depois podia engoli-la e ia dissolver-se toda. E a lua irradiaria pelos teus dedos das mãos e dos pés”.

george-mary.jpg

O filme é certamente ótimo para aqueles dias em que estamos com a autoestima em pedaços, pois nos causa uma linda impressão de nossa importância como sujeitos únicos neste mundo de bilhões. Além disso, as cenas nas quais o anjo aparece dialogando com o protagonista são muito divertidas e irônicas com doses de fantasia e realidade na medida certa. Um filme adorável que faz com que você reacenda sua esperança na bondade do ser humano.

george_bailey.jpg

Portanto, quando precisar de uma pequena dose de otimismo, assista. O efeito é imediato: trata-se daquele tipo de filme no qual ao final você está lendo os créditos com lágrimas e um sorriso estampado no rosto ao mesmo tempo. Porque sejamos sinceros, não é todo dia em que acordamos nos achando a pessoa mais importante do mundo.

Querido George, lembre-se, nenhuma homem é um fracasso quando tem amigos. Obrigado pelas asas. Clarence”.


Michele Ramos

Nunca recusa café. Usa a arte pra fugir da vida.
Saiba como escrever na obvious.
version 7/s/cinema// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Michele Ramos