cinema em prosa

Ensaios de uma amante da sétima arte

Michele Ramos

Nunca recusa café. Usa a arte pra fugir da vida

Anticristo

Sobre as cenas explícitas de violência, Lars von Trier afirma: "Simplesmente achei que seria errado não mostrar. Sou um cineasta que acredita que devemos colocar na tela tudo o que pensamos. Sei que é doloroso ver, mas esse filme tem muito a ver com essas dores"


antichrist_larsvontrier.jpg

(Este texto possui spoiler)

Então eu assisti Anticristo.

Evitei durante um tempo, não sei se devido à temática ou ao terror psicológico que geralmente faz minha cabeça explodir com este tipo de filme.

Ficarei um bom tempo pensando nele, não sei se consigo analisá-lo, com certeza não entendi tudo que significou ou tentou significar. Ao assistir, senti uma mistura de choque, medo e fiz um esforço grande para prestar muita atenção em cada cena, em cada diálogo e tentar compreender a função de todo o simbolismo presente ali.

Com certeza não falarei de tudo, ainda estou refletindo sobre cada cena e adicionando pensamentos à minha interpretação. Portanto, se você assistiu ao filme, esse texto é uma tentativa de debate sobre ele.

Falando do filme, faço uma análise como espectadora e tento aqui expor as emoções que senti ao assisti-lo, como eu disse, num esforço enorme de compreensão.

Lars von Trier divide Anticristo (2009) em capítulos. No prólogo temos uma cena belíssima, em preto e branco, somada a uma música lindíssima que nos remete a um cunho religioso. Nela um casal transa de maneira que fanáticos religiosos chamariam de pecado. Enquanto isso, temos cenas alternadas do bebê do casal que acorda, sai da sua cama e do seu quarto, abre a janela e pula. Parece, ao espectador, que o momento em que o bebê bateu no chão, ela, personagem sem nome de Charlotte Gainsbourg, teve um orgasmo.

anticristo_1.jpg Cena do filme Anticristo

No capítulo seguinte temos o casal tentando superar a perda do filho. A esposa estava no momento de escrever sua tese e o marido (interpretado por Willem Dafoe) é psicanalista. Por isso, mediante o sofrimento e a dificuldade dela em lidar com a dor e o luto, ele a leva para casa para tratá-la, pois, segundo ele, ninguém a conhece melhor do que ele.

Ele utiliza, então, de recursos psicanalíticos para tentar ajudá-la a lidar com o luto do filho. Charlotte Gainsbourg está excelente em seu papel e sofre em cada cena de maneira que sentimos seu sofrimento como extremamente verdadeiro. E o marido realiza testes com a esposa com o objetivo de descobrir o melhor caminho para tratá-la. Em meio a isso, ele pede que ela pense no que lhe causa mais medo na vida e diz que o melhor modo de cura é o enfrentamento do medo. Ela diz que tem medo do “Éden” (em uma clara referência do filme à Bíblia), lugar em que esteve com seu filho em um período anterior, na tentativa de ficar isolada para concluir sua tese. Então, o casal volta ao local para viver o medo da mulher e superá-lo.

anticristo4_galeriaBig-thumb-800x533-57437.jpg Cena do filme Anticristo

Percebemos, ao longo dos dias em que o casal está no Éden, uma mudança no comportamento da protagonista, que intercala momentos de agressividade, desejo sexual extremo, tranquilidade e tristeza. Nos diálogos do casal, notamos uma perspectiva bastante negativa por parte dela com relação à questão do bem e do mal e do que seria a real natureza do ser humano. Em certo momento ela afirma que a natureza é má, mas não só a natureza fora da cabana, mas a natureza humana.

Através da ideia de que a natureza humana é naturalmente má, podemos estender a perspectiva do filme para um ponto de vista religioso, de modo que o longa pode querer sugerir que se somos naturalmente maus e se somos à imagem e semelhança de Deus, logo Ele também o é.

Desse modo, notamos um esforço da mulher em lutar contra a sua “natureza maligna” e contra a culpa que sente pela morte do filho. Se o filho morreu no momento em que ela sentia prazer, ela agora se culpa pela necessidade de senti-lo.

3464_2.jpg Cena do filme Anticristo

Lars von Trier debocha da psicologia quando sua personagem diz que “Freud está morto”. Ou seja, a psicanálise não cura. Podemos fazer aqui uma relação com Nietzsche, que em várias obras afirma que “Deus está morto”, inclusive em seu livro “Anticristo”. Se o filósofo queria dizer (não de maneira tão simplista como afirmo aqui, claro), que não devemos viver a vida de acordo com as vontades de um Deus morto, Lars von Trier pode estar sugerindo que as propostas de cura de Freud não devem ser seguidas de forma tão exata já que nem sempre a cura é falar sobre o problema. Ou, como afirma ela no filme, “tudo está muito além da dor e do luto”.

No “Éden”, ela parece querer punir a si e ao marido pela morte do filho e percebemos o quanto essa personagem estava ligada ao assunto de sua tese. O tema era “feminicídio”, termo que é usado para designar o assassinato e outras formas de agressão às mulheres apenas por serem mulheres. Na Idade Média, as mulheres eram mortas com a justificativa de sua natureza maligna, tidas como bruxas e outros seres do mal.

Ela, em certo momento, passa a acreditar nesses termos e julga, não só a ela, mas a todas as mulheres como seres dotados do mal. A personagem, assim, parece não conseguir fugir à sua natureza maligna e animalesca e parece demonstrar que só a eliminação do mal é a solução para a vida, ou para o fim da dor. Assim como os assassinatos das mulheres, que representavam o mal, a única solução para o fim do sofrimento é a sua eliminação.

Ela confirma, por fim, sua natureza de maldade e culpa, em um comportamento de crueldade gratuita com o marido. Ele, também culpado pelo “prazer” que matou seu filho deveria sofrer tanto quanto ela. Talvez os personagens não tenham nomes para representarem genericamente o homem e a mulher no mundo.

anticristo3.jpg Cena do filme Anticristo

A cena em que ela corta o próprio clitóris é nitidamente uma menção à culpa pelo prazer. Podemos estender a interpretação aqui, no sentido sexual da mulher, que sabemos ainda hoje ser um assunto tido como tabu e muitas mulheres sentirem-se ainda, de certa forma, culpadas por sentirem e precisarem de prazer sexual.

Notamos uma volta do filme ao passado, pois se mulheres eram consideradas “seres malignos” e dotados de culpa, em “Anticristo” isso ficou em tamanha evidência que a solução única era a morte. Assim como no passado.

É como se Lars von Trier quisesse usar o “avesso” e o exagero para chocar e fazermos pensar no que hoje é considerado “normal” em comparação com o que era antigamente. Ou no que a mente humana é capaz de sentir e ser levada a fazer por uma crença ou ideologia.

Não queimamos mais mulheres na fogueira, mas será que somos livres sexualmente? Ainda há vestígios de culpa?

movies-antichrist-1.jpg Cena do filme Anticristo

No “Éden” bíblico a mulher (Eva) foi a responsável pela criação do pecado no mundo, no filme ela representa a culpa, a dor, o sofrimento e, novamente, a responsável pela maldade no mundo. Além disso, o “Éden” do filme parece ser o contrário do paraíso. Em uma cena na qual o casal transa na mata, a natureza modifica-se visualmente em uma menção ao inferno. Possivelmente numa analogia ao pecado.

Somos levados a acreditar que o homem é naturalmente bom, mas o filme questiona essa condição e coloca a natureza humana naturalmente má. E esse “mal” é introduzido e propagado no mundo pela mulher.

Prazer é pecado e, por isso, deve ser eliminado, combatido. O filme de Lars von Trier leva isso às últimas consequências. O pessimismo relativo à humanidade e a ausência de uma “solução” para a maldade humana presentes no filme chocam, incomodam.

1259009460Antichrist2.jpg Cena do filme Anticristo

Anticristo está longe de ser um filme fácil ou para ser assistido por qualquer espectador. Eu mesma não sei se assistiria novamente, mas é inegável pensar que assistir a um filme que faz com que você tente desvendar cada detalhe durante e depois de assisti-lo é sinal de que os questionamentos que foram incutidos na tela sugerem, como diria Shakespeare, que “há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe vossa vã filosofia”.


Michele Ramos

Nunca recusa café. Usa a arte pra fugir da vida.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Michele Ramos