cinema em prosa

Ensaios de uma amante da sétima arte

Michele Ramos

Nunca recusa café. Usa a arte pra fugir da vida

Só sei que foi assim em O Auto da Compadecida

Uma análise do filme baseado na obra do grande escritor Ariano Suassuna


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O filme “O Auto da Compadecida” (2000), com direção de Guel Arraes e roteiro de Adriana Falcão, é uma adaptação da obra de Ariano Suassuna que foi originalmente escrita como peça teatral em 1955. Trata-se de uma ficção regionalista que possui o Nordeste como cenário das situações que são desenvolvidas ao longo da trama.

Todos os acontecimentos se dão através das aventuras de um sertanejo pobre e mentiroso cujo nome é João Grilo (Matheus Nachtergaele) e seu companheiro de estrada Chicó (Selton Mello). Eles podem ser considerados personagens picarescos, ou seja, que utilizam de pequenas artimanhas para se saírem bem em diversos eventos no decorrer da narrativa.

Ao contrário dos romances de cavalaria e filmes de super heróis modernos nos quais os personagens são dotados de perfeição e bravura, em “O Auto da Compadecida” os defeitos dos protagonistas são evidenciados, principalmente em João Grilo, que é extremamente mentiroso, e em Chicó que, de acordo com o próprio personagem, é um “frouxo”.

O_Auto_da_Compadecida-Selton_Mello_Matheus_Natchergaele_I0000527.jpg Cena do filme O Auto da Compadecida

A minissérie que precedeu o filme foi dividida em capítulos e seus nomes adiantam os acontecimentos futuros. Esse fenômeno também pode ser observado no romance Dom Quixote, no qual os títulos dos capítulos do livro também antecipam os fatos que posteriormente serão contados detalhadamente. Além disso, Quixote, como sabemos, também é lembrado por seus defeitos.

A respeito das peripécias dos personagens podemos citar a primeira cena da “peça”, intitulada “O Testamento da Cachorra”, na qual João Grilo diz ao padre da cidade que a cachorra da sua patroa havia deixado um testamento no qual daria ao padre parte do seu dinheiro se seu “enterro” fosse feito em “latim”. Desta forma, o padre aceita o pedido e realiza o enterro.

Como sabemos, toda narrativa intitulada “Auto” possui cunho religioso. Em um determinado momento de “O Auto da Compadecida” alguns personagens morrem e, em outra vida, encontram Jesus (Maurício Gonçalves), Nossa Senhora, interpretada por Fernanda Montenegro (a “Compadecida”) e o Diabo (Luís Melo) e são julgados por eles.

auto-da-compadecida-fernand.jpg Cena do filme O Auto da Compadecida

Por trás de toda a história do filme (artimanhas dos personagens centrais, cenas de humor e mortes dos personagens), existe outra história sendo contada. Assim como é característico nos contos, o filme possui duas histórias: a que está sendo contada na tela e a que está “abaixo da superfície”. Ao mesmo tempo em que o personagem João Grilo é apresentado ao espectador como um enganador, em outro momento suas atitudes são justificadas por sua condição de vida. Assim, em algumas cenas do filme percebemos a dificuldade de obter comida no contexto da seca nordestina.

Entrelaçada à trama existe, portanto, uma história real do sertanejo nordestino, uma contextualização regional de uma vida que é considerada severa. O personagem, Severino (Marco Nanini), por exemplo, que matou diversas pessoas ao longo de sua vida, é o primeiro a ir direto para o céu em seu julgamento e tem como justificativa o fato de ter presenciado o massacre de seus pais na infância. Podemos inferir desse exemplo que o personagem tornou-se uma pessoa ruim não por culpa própria, mas devido às circunstâncias de sua vida que não lhe deram uma melhor opção.

Ao assistir ao filme, podemos perceber a existência de uma convivência natural entre realidade e imaginário, representados no enredo através das histórias narradas por Chicó, nas quais sempre há um elemento inexplicável que é justificado pelo personagem pela frase “Não sei. Só sei que foi assim.” Esse aspecto somado à constante repetição da frase ao longo da trama são características das narrativas orais e dos contos fantásticos.

seltonmelo.jpg Cena do filme O Auto da Compadecida

A ironia também é notada em alguns trechos do filme, como, por exemplo, na fala de Jesus após o julgamento das pessoas mortas: “O inferno irá acabar virando uma repartição pública: existe, mas não funciona.” Aspecto presente também na fala de Chicó: “É, o cachorro já estava morto, mas você sabe como esse povo rico é cheio de confusão com os mortos. Eu, às vezes, chego a pensar que só quem morre completamente é pobre, porque com os ricos a confusão continua por tanto tempo, que chega a parecer que ou eles não morrem direito, ou a morte deles é outra.” Ou em outro momento, quando o cangaceiro Severino diz que iria abandonar aquela vida e viraria religioso, porque assim obteria mais dinheiro.

O filme possui uma mistura de diversos modelos narrativos que juntos fazem com que a história tenha uma construção moderna, apesar de possuir aspectos convencionais.

“O Auto da Compadecida” trata-se, assim, de uma obra riquíssima da literatura brasileira, e o filme uma bela adaptação do cinema nacional, que pode ser analisada a partir de diversos pontos de vista proporcionando uma discussão mais prolongada acerca de vários temas.


Michele Ramos

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