cinema esgoto e outras mentiras...

Porque a arte sai do ego e vai pro ralo...

Gustavo Halfen

Pós graduando em Cinema de pela UTP. Gustavo escreve para dois blogs e é colaborador do site Pipoca Moderna. Além de ser biólogo, poeta, compositor, pintor, escritor, blogueiro...

A onipresença do gênero western no cinema moderno

O cinema western, considerado um dos principais gêneros da sétima arte, obteve seus anos dourados nas décadas de 1930 e 1940, principalmente com os filmes de John Ford. Porém por toda a trajetória da história do cinema e, inclusive na atualidade suas características são frequentemente homenageadas. Embora muitas vezes despercebidos, os filmes de máfia, super heróis e thrillers de ação são recheados de referências dos mocinhos e bandidos do velho oeste.


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Você pode dizer que não gosta, ou até mesmo dizer que nunca viu, mas o cinema western está mais próximo de nossas vidas do que parece. O gênero mais conhecido no Brasil como faroeste, é considerado um dos mais importantes da história do cinema e influenciou a maioria dos grandes filmes.

O filme The Great Train Robbery (O Grande Assalto ao Trem, 1903) inovou a forma de fazer cinema, utilizando pela primeira vez em um filme de ficção, ambientes externos, movimento de câmera e montagem paralela, além de romper pela primeira vez a “quarta parede” na famosa cena do tiro na câmera; homenageada por Martin Scorsese em Goodfellas (Os Bons Companheiros, 1990) e Ridley Scott em American Gangster (O Gangster, 2007). É conhecido que nesta cena o público demonstrou certo desespero com medo que a bala os atingisse.

great-train-robbery-1903-granger - 01.JPG Cena clássica de The Great Train Robbery do tiro na câmera.

Com o passar dos anos o cinema western foi tomando um formato mais característico, romanceando a colonização do oeste estadunidense; mostrando a relação do homem com a natureza quase desértica (O Estouro da Manada, 1951), as guerras contra os índios (Rastros de Ódio, 1956), a cultura indígena (Um Homem Chamado Cavalo, 1970) e a busca do ouro (O Ouro de Mackenna, 1969). O protagonista das estórias do velho oeste acabou traçando o perfil do mito do herói hollywoodiano: o “mocinho” xerife, esperto e bondoso que mata (ou prende) os bandidos de sua cidade; hoje tão em voga nas adaptações cinematográficas das HQs. A partir destes personagens, surgiram também os códigos de honra, que estão acima da lei, muito referenciados em filmes de máfia. the searchers.jpg Pôster do clássico Rastros de Ódio.

O épico Stagecoach (No Tempo das Diligências, 1939) de John Ford, além de ser referência pura nos filmes de Indiana Jones, influenciou o diretor Orson Wells ao fazer Cidadão Kane, considerado o maior filme de todos os tempos.

Em meados dos anos 1960 houve a produção europeia chamada western spaghetti, cujo principal porta voz foi Sergio Leone. Em sua “Trilogia dos Dólares”, com Clint Eastwood como protagonista, ele inovou o mito do herói, transformando-o em anti-herói; o homem sem nome e sem passado, mercenário, frio e solitário. Personagem este popularizado na atualidade pelos diretores Robert Rodriguez e Quentin Tarantino. A trilha sonora característica do gênero, nos filmes de Leone tomaram amplitude global; a música tema do longa, Três Homens em Conflito (Il Buonno, Il Bruto, Il Cativo, 1966), composta por Enio Morricone, é considerada uma das mais famosas e belas canções da sétima arte.

the god, the bad and the ugly duelo.jpg Cena do longa Três Homens em Conflito representando um duelo entre inimigos.

Em 1970 o artista Alejandro Jodorowsky dirigiu o filme El Topo onde ele cultua o gênero western em uma saga surrealista ao herói, cujo protagonista evolui espiritualmente para se tornar o gatilho mais rápido do oeste.

Na atualidade, mais precisamente em 2008, os irmãos Cohen levaram o Oscar de melhor filme com “Onde Os Fracos Não Têm Vez” (No Country for Old Man, 2008). Utilizando do humor negro, os Cohen desconstruíram o gênero western em uma análise decadente do xerife velho, fraco e inexperiente e fortalecendo o papel do bandido: frio, calculista, assustador e enigmático. Já em 2011, o prêmio de melhor diretor de Cannes foi para o dinamarquês Nicolas Refn, que em Drive nos traz o anti-herói criado por Leone, o homem sem nome, calculista e invencível, no papel principal de Ryan Gosling. Em 2013, concorrendo ao melhor filme no Oscar, Tarantino homenageou o gênero, que considera o seu preferido, no filme Django Livre, onde ele cita referências claras dos anos dourados do western, além do spaghetti; a estória agora se passa na região sul dos EUA, seu protagonista é negro, e a trilha sonora original é composta por Enio Morricone.

Em uma época onde nada se cria e tudo se copia, é incontestável que em cada disparo de pistola, em cada busca de vingança e em cada disputa entre mocinho e bandido, vemos os westerns como pano de fundo.


Gustavo Halfen

Pós graduando em Cinema de pela UTP. Gustavo escreve para dois blogs e é colaborador do site Pipoca Moderna. Além de ser biólogo, poeta, compositor, pintor, escritor, blogueiro....
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