cinema esgoto e outras mentiras...

Porque a arte sai do ego e vai pro ralo...

Gustavo Halfen

Pós graduando em Cinema de pela UTP. Gustavo escreve para dois blogs e é colaborador do site Pipoca Moderna. Além de ser biólogo, poeta, compositor, pintor, escritor, blogueiro...

Nicolas Winding Refn: do gangsta movie ao neon noir

Nicolas Winding Refn é um diretor dinamarquês conhecido pela trilogia Pusher que trata do submundo das drogas de Copenhague. Além de Bronson, filme inspirado no prisioneiro mais violento da Grã Bretanha, Refn foi vencedor do prêmio de melhor diretor de Cannes em 2011 com o longa Drive, um filme fetiche inspirado na construção do mito do herói. O diretor se destaca pela construção de cenas de silêncio que precedem a ultraviolência embelezada por cores brilhantes e pela afinada trilha sonora. A mistura de temas fantásticos com a realidade nua e crua, tornou-se sua assinatura, e hoje é considerado um dos cineastas mais promissores da atualidade.


NMR v1.JPG

Com a crise criativa do cinema hollywoodiano nos últimos anos, os olhos dos produtores e cinéfilos se voltaram para a Europa; que possui menos investimento na área, mas cada vez mais vem ganhando mercado ao redor do mundo, pela qualidade e originalidade de suas produções. O cinema europeu trafega principalmente entre Inglaterra, Espanha, França e Dinamarca, este último chamou bastante atenção pelo movimento cinematográfico Dogma 95; onde, em 1995 os diretores Lars Von Trier e Thomas Vinterberg publicaram um manifesto de criação de um cinema menos comercial e mais realista, com uma série de restrições técnicas e tecnológicas. Um ano depois um jovem dinamarquês de 26 anos lança seu primeiro longa intitulado Pusher, que de Dogma 95 tinha absolutamente nada. Considerado o primeiro gangsta movie da Dinamarca, seu filme tornou-se ícone do cinema underground europeu. Este jovem chamava-se Nicolas Winding Refn.

Nicolas nasceu na Dinamarca em 1970, mas morou nos EUA dos oito aos 18 anos. Posteriormente cursou American Academy of Dramatic Arts no país estadunidense, onde foi expulso após uma briga com um professor, e irritado, jogou uma mesa na parede. Provindo de uma família de cineastas e inspirado no terror O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre, 1974) ele decidiu seguir carreira.

A Era Pusher

Pusher Pusher.gif

Pusher (1996), sua obra inaugural, começa apresentando os personagens principais com um fundo negro e uma luz sombria sobre eles; na trilha temos a música Pusher Theme interpretada por The Prisoner Feat. Thomas Risell, já nos dando uma previsão da agitação que está por vir. Como pano de fundo, temos a periferia de Copenhague, onde Frank (Kim Bodnia), que vive de vendas de pequenas quantidades de cocaína e heroína, está para fazer uma grande venda, porém é preso em flagrante, ficando sem o dinheiro e sem a droga. A partir daí inicia-se uma cadeia de pequenos acontecimentos que vão cada vez mais comprometendo a vida do protagonista. O filme todo é escuro, com toques de vermelho, a violência não é gratuita e com bastante movimento de câmera seguindo o personagem de um lado para outro, o espectador dá rápidas espiadas na violência das cenas, como quando Frank espanca seu colega Tonny (Mads Mikkelsen) com um taco de baseball. Pusher se tornou um ícone do cinema independente e, inclusive em 2012 ganhou um remake inglês não comparável ao original, dirigido pelo diretor espanhol Luis Prieto; Nicolas Refn assina a produção executiva.

Bleeder

bleeder v2.jpg Três anos depois, mantendo a linha cinematográfica de Pusher, veio Bleeder. Ao início temos também a apresentação dos personagens cada um com uma música na trilha. Na trama, Leo (Kim Bodnia) descobre que sua namorada Louise (Rikke Louise Andersson) está grávida e decidiu ter o filho. Com o peso do mundo em suas costas, aos poucos Leo vai refletindo sobre o fato de não ter conquistado nada na vida, e a situação piora quando seu cunhado Louis, um sociopata, o ameaça após saber que Leo bateu em sua irmã. Prevenindo-se, Leo compra uma arma; assim a tensão do filme aumenta vagarosamente, onde o diretor compõe um mundo movediço e traiçoeiro. O roteiro é construído na densidade humana e na pressão social, a energia quase insuportável do filme é extraída das cenas escuras, excelente trabalho de atuação, cores quentes, além dos fade outs em vermelho no fim das cenas, prevendo o derramamento de sangue que está por vir. Temos também o ator Mads Mikkelsen no papel de Lenny, amigo de Leo, que trabalha em uma locadora e não sabe conversar sobre outra coisa além de filmes. A violência de Bleeder vai longe de ser gratuita como nos filmes de Tarantino e companhia. Aqui, a ferida dói mais! E a dramatização é crua e vermelha!

Fear X Fear X 02.jpg

Em seu terceiro filme, Fear X (2003), Winding Refn abandona os violentos submundos de Copenhague e conta a estória de Harry Caine (John Turturro), segurança de um shopping em uma pequena cidade nos EUA. Harry procura obcessivamente os motivos que levaram o assassinato de sua esposa no estacionamento do shopping que trabalha. A polícia local parece ter desistido do caso, fazendo com que Harry siga a intuição de pequenas pistas para desvendar o mistério. Em um primeiro momento, Fear X, se detém a nos sintonizar com a atmosfera paranóica e obsessiva do protagonista, lembrando muito a série de David Lynch, Twin Peaks (1990). Porém em um segundo momento, já temos novos personagens e um clima cínico no ar que lembra bastante os trabalhos do diretor David Cronenberg. Agora o gênero é suspense, entretanto, o espectador sabe muito pouco dos segredos que rodeiam a trama, mas fica na expectativa do desvendamento final. Fear X desconstrói essa lógica do gênero, tornando-o mais enigmático e incompreensível. A conclusão filosófica do longa é a conformação da vida pós contemporânea; um personagem sinistro do filme diz: “Na luta pela justiça, sempre haverá baixas imprevistas.” Certas colméias não devem ser tocadas", temos que nos contentar com certos mistérios indecifráveis da vida (“X”). A incógnita que o filme deixa no ar, trouxe ódio para o público e um fracasso de bilheteria.

Pusher II pusher ii.jpg

Com o fracasso financeiro de Fear X e a pressão dos fãs, Winding Refn decidiu retomar Pusher e desenvolver uma trilogia. Mantendo como pano de fundo a periferia de Copenhague, em Pusher II seguimos a mesma linha do primogênito, que acompanha o dia a dia de um personagem e suas ações impulsivas que, por mais que tente se livrar de seus problemas, mais fundo cava sua cova. Agora, o personagem principal é um coadjuvante do primeiro filme; Tonny (Mads Mikkelsen) que acabou de sair da prisão e tem que lidar com a questão paternal: além de Tonny ser um filho decepcionante, ele descobre que será pai, fora isso, temos também problemas com o chefe do tráfico local Milo (Zlatko Buric), muito presente no primeiro filme da série. Os vacilos do protagonista vão tornando a estória agonizante e o fim deixa aberto para continuação.

Pusher 3 pusher 3 v1.jpg

Milo, o traficante turco e temido pelos protagonistas de Pusher e Pusher II, agora é o personagem principal da trama que fecha a trilogia. A estória se passa na noite em que Milo, em tratamento para largar do vício da cocaína, se prepara para cozinhar para 45 pessoas na festa de aniversário de sua filha. Paralelamente, ele está resolvendo seus negócios no tráfico; seus vendedores ambulantes não estão cumprindo com o combinado (semelhante ao primeiro filme da trilogia), e os traficantes de maior grau hierárquico vêm cobrar suas dívidas, logo Milo se encontra em apuros e sem muitas opções. Aqui, aquele traficante frio e vingativo, mostra seu lado mais humano. Durante toda a trilogia, Refn consegue conservar o padrão do seu primeiro filme. O clima sombrio e traiçoeiro mantém-se o mesmo, e é difícil escolher um filme ou personagem preferido; todos estão desesperados e sofrendo as pressões de viverem no submundo das drogas. A ideia do coadjuvante de um capítulo da trilogia ser o protagonista do outro foi original e, agora Copenhague tem uma trilogia cinematográfica sobre o crime organizado e a sociedade marginalizada da capital dinamarquesa.

Da Dinamarca para o Mundo

Bronson bronson_poster.jpg

Em Bronson, Nicolas Refn já esbanja experiência, originalidade e ousadia. Baseado na vida de Michael Peterson, considerado o presidiário mais caro e violento da Grã-Bretanha, cujo apelido e alter ego é Charles Bronson; o longa conta sua estória desde a infância, e sua evolução, passando por diversas prisões e manicômios. Na pele de Bronson na melhor interpretação de sua carreira, temos Tom Hardy. Criticando o sistema penal inglês, o filme inicia com Bronson maquiado de forma caricata, transfigurado como um clown, contando sua estória em um teatro para uma platéia imaginária; a mistura de lutas violentas, sangue nas paredes e cenas surreais complementam-se com o jogo de luzes em vermelho e ótima trilha sonora. Aqui já temos resquícios do que seria o estilo que o diretor chama de Neon Noir, a utilização de música sintética estilo anos 1980 e cores vivas como roxo, vermelho e amarelo brilhantes. Bronson passou mais de 24 anos na solitária, fez greve de fome, atacou prisioneiros e funcionários, manteve seu professor de artes refém, desenvolveu quadros de pintura e poesias e, continua preso. Porém, existe uma petição para soltá-lo no site http://thecharliebronsonappealfund.co.uk/. Bronson é surreal, caricato e visceral, e levou o nome do diretor a ter notoriedade em toda a Europa e EUA.

Valhalla Rising Valhalla-Rising-Poster 01.jpg

Um ano após o sucesso de Bronson, o diretor dinamarquês decide partir para um gênero ainda pouco explorado por ele: o épico. Com base nas lendas nórdicas vikings, Refn optou por fazer um filme onírico ao estilo David Lynch. O resultado chamou-se Valhalla Rising (O Guerreiro Silencioso, 2009). Segundo as escrituras nórdicas, Valhalla é uma espécie de lugar aonde os guerreiros vikings vão após morrer honrosamente em combate. Na trama temos One-Eye (Mads Mikkelsen, em sua terceira parceria com o diretor) como um escravo guerreiro dotado de uma força sobre humana que é usado em lutas de apostas. Utilizando da força, ele conquista sua liberdade e na companhia de um garoto, ambos juntam-se a cristãos que estão a caminho da terra prometida através das cruzadas (única referência de data do longa). Porém com a presença de One-Eye, eles acabam chegando a outro lugar, ou outro mundo. O diretor abusa dos vislumbres paradisíacos dos planos abertos, sempre com bastante vermelho e, da trilha sonora que cada vez mais tensa, vai nos levando a um caminho que não temos certeza se queremos conhecer. São poucos os diálogos, e todos deixam dúvidas no ar. O longa foi bastante criticado por deixar mais perguntas que respostas.

O Neon Noir

Drive drive-poster-ryan-gosling.jpg

Há alguns anos o diretor de cinema surrealista e “psicomago” Alejandro Jodorowsky disse que Nicolas Winding Refn era seu filho espiritual, e o orientou a ir a Hollywood e “sorrir muito”. O resultado para Refn, foi a direção de Drive, que lhe rendeu o prêmio máximo almejado por um diretor: melhor diretor de Cannes em 2011. Na trama, temos como protagonista Ryan Gosling no papel do herói hollywoodiano; um homem sem nome e sem passado, frio e calculista. Driver trabalha a noite como motorista para assaltantes, de dia em uma oficina automobilística e ocasionalmente é dublê em filmes com acidentes de carro. Em seu novo apartamento, ele se apaixona por sua doce vizinha Irene (Carey Mulligan), que vive com o filho. Quando o namorado de Irene sai da prisão, devendo dinheiro para outros bandidos, a vida de Irene e seu filho correm perigo, é aí que nosso herói entra em cena. Tudo em Drive funciona em função da imagem do herói, seus movimentos friamente calculados não aceitam erros, e após a encenação ele retorna à escuridão, em jogos de luzes brilhantes e amarelas. O diretor embeleza a violência do herói em cenas que lembram Laranja Mecânica (Clockwork Orange, 1971) e, Taxi Driver (1976) na violência explícita. Embora supostamente se passe nos dias atuais, a estética do longa é “oitentista”: a jaqueta com um escorpião brilhante nas costas, os carros e a cores; tudo é inspirado no gênero que o diretor chama de “neón noir” filmes como Liquid Sky (1982) e Blade Runner (1982), que possuem cores neon e músicas sintetizadas, como o próprio diretor cita em entrevista no Festival de Cannes de 2011. A atuação de Ryan Gosling é diferencial, o ator possui a expressividade de uma estátua, e com o cenário reluzente, nos dando a impressão de um “vácuo brilhante e carente de matéria” (como cita o jornalista Bráulio Tavares), o personagem lembra os “avatares” dos games, que possui pouco movimento e um semblante estático, nos levando ao futuro do cinema: os vídeo-games. O nome de Alejandro Jodorowsky aparece nos créditos de agradecimento do filme.

Em 2011 foi lançado um documentário sobre o diretor intitulado NMR, dirigido por Laurent Duroche, ainda não lançado no Brasil. É possível ver o trailer aqui.

NMR.jpg

No Festival de Cannes deste ano (2013), um dos filmes mais aguardados é Only God Forgives; em seu segundo trabalho com Refn, Ryan Gosling interpreta Julian, um britânico que vive em Bangcoc na Tailândia, dono de um clube de boxe tailandês que serve de fachada para tráfico de drogas. Quando seu irmão é assassinado por um policial local, Julian sai em busca de vingança. Segundo o ator principal, o roteiro é a coisa mais estranha que ele já leu e está ficando mais estranho ainda. Refn confessou em Cannes do ano passado (2012) que vai seguir a mesma linguagem neon noir de Drive.

only-god-forgives-mugre-y-sangre.jpg

Nicolas Winding Refn é considerado um dos diretores mais promissores da atualidade, com uma carreira já repleta de cinema arte, suas obras destacam-se pela escolha afinada das trilhas sonoras, a construção de momentos de silêncios que precedem tumultos, acentuada fotografia com cores à neón noir e grande presença da cor vermelha, personagens excêntricos, o mix de crueza bruta com sutileza nas cenas de ultraviolência, o uso de longos corredores, o fetiche pelo mito do herói e pelos anos 1980, a presente referência em sua obra de Stanley Kubrick e David Lynch, além dos pôsteres que aparecem durante seus filmes, como Bruce Lee, Mad Max e Scarface. Há indícios também, que Refn dirigirá a adaptação para o cinema da série The Equalizer, além do remake de Logan’s Run. Basta-nos agora aguardar seus próximos trabalhos e ver o que o destino reservou para este controverso diretor nórdico.


Gustavo Halfen

Pós graduando em Cinema de pela UTP. Gustavo escreve para dois blogs e é colaborador do site Pipoca Moderna. Além de ser biólogo, poeta, compositor, pintor, escritor, blogueiro....
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/cinema// @destaque, @obvious //Gustavo Halfen