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Porque a arte sai do ego e vai pro ralo...

Gustavo Halfen

Pós graduando em Cinema de pela UTP. Gustavo escreve para dois blogs e é colaborador do site Pipoca Moderna. Além de ser biólogo, poeta, compositor, pintor, escritor, blogueiro...

Uivo: o grito da geração beat

O longa metragem “Uivo”, homenageia um dos maiores poetas do século passado. Allen Ginsberg, um dos fundadores do movimento beatnik, foi além de escrever poemas; ativista político e defensor da liberdade, Ginsberg foi umas das peças chaves da quebra de paradigmas comportamentais dos jovens estadunidenses nos anos 1950 e 1960; lutou pela legalização da maconha e liberdade sexual, tanto dentro como fora dos EUA.


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Allen Ginsberg, um dos grandes nomes da geração beat, considerado uma das maiores celebridades do século XX, preso certa vez por cúmplice de assassinato, outra por cúmplice de furto; expulso de Cuba e Tchecoslováquia por pederastia e defender a legalização da maconha; ativista político. Seu poema Uivo é tido como um dos mais belos do século passado, juntamente com o livro “Uivo e Outros Poemas” tanto pela sua forma literária como pela espontaneidade e ritmo jazzístico. Esse filme é sobre esse poema.

O longa não chega a ser uma biografia do escritor; é mais uma homenagem baseada no seu poema. Temos quatro atos que se mesclam durante o roteiro: Ginsberg, interpretado carismaticamente por James Franco, em seu apartamento, sob uma luz amarelo esverdeada, rompendo a quarta parede e divagando sobre sua vida e obra em uma entrevista para um suposto jornalista; o tribunal onde sua obra “Uivo e Outros Poemas” está sendo julgada por utilizar linguagem obscena; temos em preto e branco o autor lendo sua poesia na Six Gallery, em um evento criado por ele mesmo chamado 6 Poets at 6 Gallery e, intercalando com todos estes atos temos uma animação com uma livre interpretação de Uivo sendo lido por J. Franco, onde monstros chifrudos soltam fogo pelo nariz e Neil Cassady leva lindas garotas para transar em seu automóvel, em meio a caveiras pegando fogo, jovens fazendo sexo nas estrelas e paus gozando fogos de artifício no céu.

Em sua casa Allen fala que as pessoas nunca se chocariam com a expressão de um sentimento; referindo-se a quando declarou aos seus amigos beats que era homossexual. Explica que o início de Uivo é sobre sua paixão e idolatria pela pessoa e artista que Jack Kerouac representava a ele: “...tagarelando, berrando, vomitando, e sussurrando fatos, e lembranças, e anedotas...” O poeta explica com sua voz rouca e boêmica que os escritores tem idéias preconcebidas sobre o que é a literatura, e isso os impossibilita de fazerem coisas mais interessantes; anos depois estas mesmas palavras continuam valendo e saindo da boca do chileno artista multimídia Alejandro Jodorowsky, conhecido pela ousadia, linguagem obscena e surrealismo em suas obras cinematográficas.

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Ginsberg ainda conta sobre sua obsessão sexual por Cassady, onde em Uivo ele cita: “...Neil Cassady herói secreto deste poemas, garanhão e Adônis de Denver...”, fala sobre o espírito robótico da população estadunidense no universo pós segunda guerra mundial, além de Carl Solomon, amigo que conheceu no hospício (a quem dedica o poema), e sua mãe que enlouqueceu com seu demônio interior chamado Moloch.

Aviso de spoiler: Percebemos que o fim do inspirado longa vai chegando quando o poeta beat declama sua obra na 6 Gallery em presença de seus amigos e os cita: “...tudo é sagrado. Todo tempo é uma eternidade (referência de Blake). Todo homem é um anjo....A máquina de escrever é sagrada... O Poema é sagrado... Sagrado Peter, Sagrado Allen, Sagrado Solomon, Sagrado Lucien, Sagrado Kerouac, Sagrado Burroughs... Sagrado Cassady...”.

Assim, ao final temos o verdadeiro Allen Ginsberg cantando Father Death Blues, poema feito para a morte de seu pai.

Um filme que é pura poesia! Para àqueles que pouco conhecem a obra e a vida de Allen, e a geração beat, eis uma apetitosa oportunidade para tal. Para àqueles que já o conhecem, delírios poéticos e jazz de uma geração desregrada, nunca são de mais.

Direção: Rob Epstein, Jeffrey Friedman País: EUA Ano: 2010


Gustavo Halfen

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