cinema esgoto e outras mentiras...

Porque a arte sai do ego e vai pro ralo...

Gustavo Halfen

Pós graduando em Cinema de pela UTP. Gustavo escreve para dois blogs e é colaborador do site Pipoca Moderna. Além de ser biólogo, poeta, compositor, pintor, escritor, blogueiro...

Cores: uma homenagem poética ao vazio do “existir”.

Em uma época onde sócio-culturalmente tudo já foi feito, pegando carona com a banalização da informação pela popularização da internet; é inegável que um tédio neo existencialista tenha se apossado da juventude pós punk brasileira. Essa temática é retratada no acinzentado longa metragem “Cores”.


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Em seu primeiro longa metragem, o diretor Francisco Garcia homenageia as gerações nascidas nos anos 1980; jovens que acompanharam a chegada da globalização e da internet em suas vidas, porém não abandonaram a televisão. Embora exista a facilidade de acesso às diversas atividades, o comodismo se sobressai nesta geração, que não quer se assumir como deprimida, afogando suas angústias em uma lata de Coca Cola. “Cores” não os retrata na forma de uma crítica social, mas sim em uma compilação poética e bela.

Luca (Pedro di Pietro), Luiz (Acauã Sol) e Luara (Simone Iliesco) são amigos, talvez não pela afinidade de gostos, mas por um comodismo em comum. Luca, mora com a avó e tem um estúdio de tatuagem pouco ativo. Luiz trabalha em uma farmácia, entretanto sobrevive com a venda ilegal de “tarjas pretas”. Luara é vendedora em uma loja de peixes ornamentais, tem uma imensa vontade de viajar, mas imersa em seu aquário mundo, todos giram, ela não.

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Referenciando a obra cinematográfica de Jim Jarmusch, o principal elemento de “Cores” é o tédio; como pano de fundo temos a cinzenta São Paulo, aviões decolam e pousam na capital, entretanto a vida do trio, retratada metaforicamente na forma da tartaruga de estimação de Luca, é devagar e preguiçosa. A câmera de Garcia segue a mesma preguiça, grande parte do filme fica estática, fotografando belos planos em PB, recheados de cultura pop nas entrelinhas, num excelente trabalho do diretor de fotografia Alziro Barbosa. A trilha sonora, provinda das sujas tubulações dos esgotos da metrópole paulista (composta pelo músico experimental Wilson Sukorski), vem ajudar o espectador a habituar-se no atolamento do lodo estático vivido pelo trio.

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Frequentemente o cinema nacional enfatiza o submundo de forma crua e suja, em tons sombrios. “Cores” vêm na contramão desta tendência. O cuidado com a fotografia embeleza a decadência, além de poetizá-la, dando a sensação não de um julgamento, mas sim de uma homenagem à geração que nasceu no pós punk brasileiro e ao tédio neo existencialista que se apossa da juventude.


Gustavo Halfen

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