cinema esgoto e outras mentiras...

Porque a arte sai do ego e vai pro ralo...

Gustavo Halfen

Pós graduando em Cinema de pela UTP. Gustavo escreve para dois blogs e é colaborador do site Pipoca Moderna. Além de ser biólogo, poeta, compositor, pintor, escritor, blogueiro...

ONLY GOD FORGIVES: o filme de autocura de Nicolas Refn

Diferente de Drive, filme que consagrou o diretor em Cannes em 2011, Only God Forgives é um projeto mais pessoal do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn, com um intuito menos comercial e mais de autocura; onde o diretor expõe seus medos e pesadelos em um filme sobre redenção, violência e sonhos.


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Depois do sucesso de Drive, primeira parceria do diretor Nicolas Refn com o ator Ryan Gosling, que rendeu o título de melhor diretor de Cannes em 2011 para Refn, o público e a crítica ficaram esperançosos com o retorno da dupla Refn/Gosling em um novo projeto. Porém, o que não se cogitava era que o diretor dinamarquês, após dirigir o pesado e belo Valhalla Rising em 2009 (traduzido no Brasil como O Guerreiro Silencioso), já tinha quase todas as cenas de Only God Forgives na cabeça e, foi convidado pelo ator Ryan Gosling para dirigir um filme nos EUA de um roteiro e estória de terceiros. Ele aceitou e inseriu parte das referências que usaria em “Only God...” no aclamado Drive. A partir desta informação fica mais claro dizer que Drive faz alusão a “Only God...” e não o contrário, embora soe estranho.

Only God Forgives, assim como Valhalla Rising, é uma obra bastante pessoal do diretor; que traz à tona sua crise existencial: medos, crenças, revoltas e redenções, que antes de ter apelo comercial, vêm com o objetivo principal de autocura. Fazendo-se assim óbvia a dedicatória do filme a Alejandro Jodorowsky, diretor de filmes surreais que buscavam uma auto cura e redenção de pesadelos próprios e da humanidade em suas obras.

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Na trama, os irmãos Billy (Tom Burke) e Julian (Ryan Gosling), comandam um clube de boxe na Tailândia que serve de fachada para o tráfico de drogas. Após estuprar e matar uma garota, Billy é assassinado por Chang (Vithaya Pansringarm), ex policial e justiceiro de Bangkok. Logo a mãe dos irmãos (Kristin Scott Thomas) aparece em cena e exige de Julian, vingança.

É impossível não notar a fotografia neon do longa, e a utilização intensa de vermelho que exclui quase todas as outras cores do espectro; dando uma visão infernal e onírica de um purgatório, que funciona bem, mergulhando o espectador neste mundo, mas dificulta a narrativa.

O agradecimento nos créditos a Gaspar Noé e David Lynch, também tornam explícitas as referências utilizadas pelo diretor. A violência extrema e o clima fantasioso do filme confundem o espectador entre o que é sonho e realidade. Vemos Julian tendo devaneios e confrontando sua natureza versus seus princípios, através da relação edipiana e conturbada que possui com sua mãe. Temos também a desconstrução mesclada com a homenagem do confronto entre o bandido e o mocinho em personagens bastante estilizados e caricatos; a espada como arma de luta e a honra em duelos faroeste são referências evidenciadas e intercaladas com a máfia da pollícia de uma Bangkok colorida e neon.

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Only God Forgives é uma experiência única, mas que irrita a crítica mais convencional; o filme irritou grande parte da platéia que o assistiu em Cannes. Porém seu humor etéreo garante que nem tudo ali é sadismo. O oitavo filme do diretor, que tem estreia em agosto nos cinemas, se aproxima mais de Valhalla Rising do que Drive, pois aqui o herói está a mercê de um ser superior, que não lhe dá esperança de redenção.


Gustavo Halfen

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