cinema esgoto e outras mentiras...

Porque a arte sai do ego e vai pro ralo...

Gustavo Halfen

Pós graduando em Cinema de pela UTP. Gustavo escreve para dois blogs e é colaborador do site Pipoca Moderna. Além de ser biólogo, poeta, compositor, pintor, escritor, blogueiro...

ENSAIO DE ORQUESTRA de Fellini: Uma sociedade fora de sintonia

Ensaio de Orquestra de Fellini, da homenagem a música à crítica social. Nada ali, passa despercebido; se lançado na época do sequestro, tortura e assassinato do primeiro ministro, Aldo Moro, pelas Brigadas Vermelhas, fosse mera coincidência. Ao menos até hoje o longa é referenciado e comparado com obras proféticas como "1984" e "Admirável Mundo Novo".


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Uma das últimas obras de Federico Fellini, "Ensaio de Orquestra" em princípio seria um filme sobre música, uma ode aos instrumentos e à música clássica, mas acabou tornando-se um marco em sua filmografia pela temática política, pois o diretor italiano sempre deixou claro sua fobia pelo tema. Mas em "Ensaio de Orquestra" é impossível não enxergar a crítica em cima do comportamento social e a influência de líderes e políticos sobre seu povo.

Ao início dos créditos do filme ouvimos um barulho de trânsito repleto de buzinas, simbolizando uma mescla de desorganização com falta de educação; e isto se comprova com a chegada dos músicos na capela onde será feito o ensaio da orquestra. Ali, todos falam ao mesmo tempo, uns estão preocupados com o jogo que passará no rádio, outros precisam tomar seus remédios. É interessante notar que existe um pequeno, mas notável atraso no som diegético do filme em relação à imagem, trazendo para o espectador um estranhamento e fazendo-se perceptível lá na frente a falta de sincronia entre os músicos da orquestra. Logo chega uma equipe de filmagem que fará uma documentação do ensaio; e na voz de Fellini, o entrevistador começa a conhecer os instrumentistas. Cada um defende seu instrumento e o papel deste na peça, outros não querem aparecer, a pianista, chega a virar cambalhota para agradar o entrevistador. Neste momento conhecemos o maestro, que como todo líder, organiza as pessoas e inicia o ensaio.

O maestro tem a fala grossa, e não admitindo os erros dos músicos ele os adverte em alto e bom tom, e não demora para alguém citar que a lei sindical não permite mais de três ensaios. Assim o maestro diz: “vocês deveriam se preocupar mais com a música e não com o sindicato...”.

O copista fala para a câmera que os instrumentistas são enjoados e que antigamente eram mais dedicados e respeitavam o maestro. O maestro, em seu intervalo, também se defende perante as câmeras, citando as leis absurdas que proíbem o totalitarismo do regente.

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Logo os músicos infelizes com a situação “humilhante” que estão passando diante do comportamento do maestro, se revoltam, quebram cadeiras da capela, cantam e escrevem nas paredes palavras de ordem, jogam dejetos nos quadros de músicos consagrados e até substituem seu regente por um metrônomo. Prontamente surgem diferenças entre os manifestantes que se encontram perdidos em meio ao caos que criaram; a baderna perdura até que uma tragédia acontece e entram em desespero. O momento torna-se propício para aquele que antes fora líder voltar ao seu posto original; o maestro restabelece a ordem local e como uma paródia direta a Hitler, começa a comandar seus súditos de forma ditatorial e em alemão.

O filme de Fellini, torna-se mais atraente ao analisarmos o contexto histórico da época na Itália. O lançamento do filme coincidiu no mesmo ano do seqüestro, tortura e assassinato do primeiro ministro, Aldo Moro, pelas Brigadas Vermelhas. Moro queria unir pacificamente o lado comunista da Itália que possuía 34% das cadeiras parlamentares, com o lado de extrema direita apoiado pelos EUA, nos anos 1970, durante a Guerra Fria. As Brigadas Vermelhas eram um grupo de revolução comunista armada que não aceitava a conciliação entre a direita e a esquerda. Aliás, nenhuma das partes queria tal acordo. Com Moro fora de cena, o democrata cristão Andreotti assumiu e fez dura oposição aos comunistas. O fato é que eram muitos interesses próprios, incluindo EUA e União Soviética, mas nenhum deles estava realmente preocupado com a situação econômica da Itália.

Se levarmos a metáfora de "Ensaio de Orquestra" ao pé da letra, temos a Itália como uma orquestra confusa e mal ministrada. Apesar do descontentamento e da revolta popular, o povo empobrecido com uma perda e temente ao futuro, opta pelo status quo.

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Não obstante, analisando o filme nos dias de hoje, sua temática continua atual e, atingiu proporções globais. No Brasil tivemos agora uma fagulha do sentimento de revolta através dos protestos liderados a princípio pelo Movimento Passe Livre que, com o tempo tornou-se uma revolta popular de nível nacional chegando a ser considerada uma das maiores da história do país. Em um certo momento foi impossível deixar notar-se a quantidade de palavras de ordem e motivos para se estar nas ruas, tudo ficou confuso; nem mesmo o povo, quanto menos a mídia e o poder público sabiam exatamente o motivo de revolta (semelhante ao longa de Fellini). Mas uma coisa era certa: não era só por R$ 0,20, ou seja, eles sabiam o que não eram, mas não exatamente o que queriam. Passado a euforia inicial e a esperança de uma mudança brusca e imediata no país, surgiu um sentimento de medo; comparava-se o momento com os antecedentes do golpe militar de 1964, onde a partir de uma crise no país, uma economia desorganizada e um panorama político confuso, os militares deram um golpe e a ditadura militar entrou em vigor.

Todos esses ideais nos fazem chegar a conclusão que, assim como os livros "1984" (George Orwell) e "Admirável Mundo Novo" (Aldous Huxley), "Ensaio de Orquestra" continua recente e profético. Porém agora, com o surgimento do Wikileaks de Julian Assange, as denúncias de Bradley Manning e Edward Snowden e o início de uma certa consciência político social da população brasileira e mundial, existe uma gota de esperança para que este regime totalitarista silencioso perca força e torne o filme de Fellini apenas um guia de estudo, e não um filme de comparação com os governos ditatoriais atuais.


Gustavo Halfen

Pós graduando em Cinema de pela UTP. Gustavo escreve para dois blogs e é colaborador do site Pipoca Moderna. Além de ser biólogo, poeta, compositor, pintor, escritor, blogueiro....
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