cinema shots

Uma dose de sétima arte com um twist de vida real.

Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio.

Robert Altman, nudez e revelações.

Verdades desnudas


short1.jpg

Ficar nu diante de alguém é para muitas pessoas uma tarefa bastante complicada. Se expor é difícil. E quando a anatomia não contribui as dificuldades saltam aos olhos.

Mais difícil ainda é despir-se dos segredos de nossa persona. Ser pego no pulo, com as calças na mão ou com a boca na botija. Quando o rei está nu, não só os súditos ficam pasmos como a rainha dá o fora. Não tem como evitar.

E você, caro leitor, já foi pego de calças nas mãos? Seja em uma relação amorosa, no trabalho, ou em qualquer outra situação? E quando alguém lhe surpreende com alguma questão cabeluda, você age de que maneira?

“Then tell me about nothingness. I’d like to hear a complete account of nothing.”

A cena que ilustra o post é do filme Short Cuts, do diretor Robert Altman. Nela, a personagem Marian, vivida por Julianne Moore, se mostra totalmente vulnerável às questões levantadas por seu marido Ralph. Tão vulnerável que, de “saia” na mão e após titubear bastante, revela um segredo extraconjugal guardado há muito tempo.

A metáfora é perfeita. Ser pego na mentira é como ter a roupa toda rasgada. É estar completamente nu diante dos olhos de quem descobre a farsa. Marian perde a compostura diante do marido e se vê encurralada entre expor seus pelos ruivos ou velar o fato. A cena acaba com Ralph encarando e aceitando, relativamente bem, a revelação mais cabeluda do filme.

São raras as vezes em que as mulheres se deixam apanhar em flagrante delito. Não tão raras as ocasiões em que maridos, crentes que estão fazendo a coisa certa, mostram o peito nu como prova de amor e penitência. Parecem que querem ser castigados, pobres diabos. E acreditam, ingênuos que são, no perdão da traição. É como se diz popularmente: “quando a coisa aperta é calça de veludo ou bunda de fora”.

Claro que não estou aqui para defender os homens e pixar as mulheres, pelo contrário. A canalhice masculina tem incontáveis exemplos que nem é preciso citar. Porém, há quem diga que homens mentem mais e mulheres mentem melhor. Também duvido disso. Mas é certo que ninguém é capaz de despir-se de forma tão cruel quanto uma mulher. Altman ilustra isso muito bem na cena em questão.

É por isso que a nudez me encanta tanto. A verdade nua e crua pode cortar fundo como uma navalha, mas faz todo o sentido em um relação como o casamento, por exemplo, onde a confiança é a base de tudo. Se expor exatamente como se vem ao mundo é qualidade e não defeito. E a Marian de Altman nos mostrou que não se deve ter pudor em se mostrar vulnerável. Confiança total nunca vai existir com a luz apagada.


Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio..
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/Cinema// //Thiago Lira