
Edgar Allan Poe, Chico Buarque, Pablo Picasso, Kurt Cobain, Edward Munch, Hemingway, Frida Khalo, Beethoven e tantos outros grandes artistas de nossa época tiveram pelo menos uma coisa em comum. Em algum momento de suas vidas viram-se com um gutural e reverberante grito preso na garganta. O talento destas pessoas e o poder que tinham de imprimir às próprias angustias um caráter único fizeram com que o tal grito se transformasse em boa música, maravilhosas obras de arte e literatura de primeira qualidade.
Nas mentes conturbadas destes artistas, as ideias e angustias se fundiram. O tal grito, uma vez libertado, transformou a vida e a arte de todos eles - para o encanto de muitas gerações. No entanto, ante a arte a motivação: Picasso gritou a guerra, Munch também. Frida foi intensa como sua dor e gritou cores de sofrimento. A obra completa de Poe é um coral de vozes angustiadas.
Eu gritei "Bravo!" quando, no cinema, vi a seguinte cena:
O trecho é do filme "O Artista", do diretor Michel Hazanavicious. Após ver a cena, quis soltar o artista preso em minha garganta, nem que seja aos poucos.
"Filme feito para o Oscar", muitos disseram. Não por acaso, foi o grande vencedor da premiação em 2012, levando cinco estatuetas no total. Três delas entre as quatro principais categorias: melhor filme, melhor ator (Jean Dujardin) e melhor diretor. Fica claro que a produção francesa almejava desde o início agradar a academia. Ainda assim, mesmo com um roteiro calculado e uma narrativa que beira a pasteurização, vejo na película uma belíssima e muito bem feita homenagem à história do cinema. Hollywoodianices à parte, claro.
Tudo acontece no momento em que o personagem principal nota sua insignificância diante da inevitável transição entre o cinema mudo e o então novíssimo advento do som nas películas. O homem garboso, com bigodes à Rodolfo Valentino, habituado a exagerar nas feições como nos filmes sem diálogos, perde a noção de realidade e é aterrorizado pelo som direto de objetos ao seu redor. O espectador, a essa altura já envolvido na história do talentoso herói que caiu em desgraça, também se surpreende com a mudança.
É a única passagem de todo o filme em que se ouve algo incrivelmente real, o único momento que a aura de fantasia cessa por alguns minutos. Mesmo assim, o grito não sai. Não sai por medo de enfrentar o novo. Nenhuma nota, um pigarro que seja. Ele fica a mercê do próprio fracasso, que é seu maior terror.
Na minha vida, muitas vezes contive o grito. Ou por fatores externos, ou por medo de fracassar. Exatamente como o personagem que dança, vá lá, muito bem, mas não consegue dizer a que veio.
Só que soltar a voz é opção de quem tem o que dizer. E aprendi, no meio desta exibição que louva a arte de maneira tão bela, que sempre há alguém disposto a ouvir o artista. Sempre haverá um louco na silenciosa plateia, gritando: Bravo!
Comentários
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Far Sight Near Go
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