cinema shots

Uma dose de sétima arte com um twist de vida real.

Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio.

O Instagram de Antonioni

Blow-up: o filme com mais "likes" que já vi.


Modelos maravilhosas e seminuas. Uma estética vintage cheia de cores vibrantes e a impressão de que a felicidade só existe em um mundo onde a beleza dita as regras. O comentário é sobre uma cena do filme Blow-Up - Depois Daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni, mas poderia muito bem ser sobre a contribuição que um certo aplicativo fez para a fotografia digital e, por consequência, para a sociedade atual.

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São mais de 50 milhões de fotógrafos ativos nesta grande rede. Fotos com temas que vão de unhas, cabelos e sapatilhas a uma infinidade de autorretratos. Tudo, é claro, acompanhado de hashtags para identificar. Assim funciona o app Instagram: #um #retrato #do #hedonismo.

O aplicativo uniu a praticidade da fotografia digital com a estética e o conceito das antigas Polaroids. O resultado: fotos instantâneas cheias de estilo e uma inundação de efemeridades. Sou usuário do Instagram e confesso adorar os recursos que ele traz. A estética do final dos anos 60 e início dos anos 70, por exemplo, é encantadora. O estilo, explorado exaustivamente hoje em dia, é fruto do talento de grandes gênios desta época, um deles o próprio Antonioni, que inspirou-se no fotógrafo inglês David Baley para criar seu personagem.

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Fico imaginando que incrível seria se Thomas, personagem interpretado por David Hemmings no filme, pudesse compartilhar seus shots em 1966 como fazemos nos dias atuais. A timeline dele, com certeza, exibiria imagens de sessões de fotos com belas modelos, ângulos e situações cotidianas das ruas de Londres, estranhos caminhando por paisagens bucólicas e até mesmo detalhes da mistura de luta e ato sexual em que Jane Birkin compartilha a beleza de seu corpo com todos.

Jane: What are you doing? Stop it! Stop it! Give me those pictures. You can't photograph people like that. Thomas: Who says I can't? I'm only doing my job. Some people are bullfighters, some people are politicians. I'm a photographer.

A lascívia não é escancarada. O filme me faz refletir sobre a necessidade que temos de nos expor para se autoafirmar ou, simplesmente, para uma suposta aprovação de outras pessoas. Já queríamos e tínhamos muitos "likes" em 1966. O Instagram apenas tornou possível a visualização instantânea deste tipo de aprovação.

Outra questão que o filme levanta é a do envolvimento pessoal e do compromisso emocional que as pessoas tem com o registro fotográfico em um mundo tão cheio de estímulos artificiais que tornam os sentimentos naturais descartáveis.

Estamos nus diante de todos no que diz respeito ao que fazemos, comemos, com quem saímos e para onde vamos. Todos que quiserem podem acompanhar nossas sessões de fotos e almoços divertidos com os amigos. Nós permitimos isso. Demos um blow-up (expressão que, na fotografia analógica, significa "ampliar") em nossas vidas. Os detalhes estão na web, para todos verem.

Eu seguirei Jane Birkin até o fim de minha vida. Mas, se ela tivesse uma conta no Instagram, seria

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Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio..
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