cinema shots

Uma dose de sétima arte com um twist de vida real.

Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio.

A Queda do Poderoso Chefão

O sangue que adoramos no cinema não é o mesmo que brota do noticiário.


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Quem não se lembra da seguinte cena: clã de mafiosos reunido, aguardando notícias de uma das operações da família, recebe um funesto embrulho trazendo notícias de Luca Brasi. “É uma antiga mensagem siciliana”, diz um dos carcamanos: “significa que Luca Brasi dormiu com os peixes”

A cena é do filme O Poderoso Chefão, clássico de Francis Ford Coppola que adoro rever sempre que possível. Há pouco mais de um ano uma cena parecida ocorreu na vida real. E resolvi lembrar o assunto fazendo uma comparação.

A data é 2 de Maio de 2011. O então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na ocasião, também recebe um desses embrulhos misteriosos. No pacote estava escrito “Geronimo is KIA”. E todos que estavam reunidos em uma sala reservada da casa branca – também aguardando notícias de uma operação muito importante – fizeram cara de que a coisa estava fedendo muito mais do que peixe podre. Geronimo foi o codinome usado para se referir a um dos terroristas mais famosos de todos os tempos. KIA, a sigla para “Kill in Action”, ou, “morto em ação”.

050311_obama_03110503142314.jpeg "Oh my goodness! He's dead!"

A então Secretária de Estado Americano, Hilary Clinton, em sua expressão chocada, revela para o mundo inteiro que o que estava visualizando era uma foto das boas, no melhor estilo ensanguentado que Hollywood adora promover e que os cidadãos americanos precisam consumir da mesma forma que consomem leite, hambúrgueres e utilitários esportivos.

Naqueles monitores estava Osama Bin Laden. O criminoso mais procurado de todos os tempos. O homem que idealizou e financiou por meio de uma organização terrorista o maior atentado da história dos EUA. O personagem principal da guerra ao terror, exposto ali, em pixels, via streaming. Não em película, como o Luca Brasi agonizante do filme ou como “Sonny” Corleone cravado de balas. Nem como Bonnie e Clyde no filme homônimo que ficou famoso. No centro daquela mesa, junto com relatórios da operação, bem que poderia ter um balde de pipocas amanteigadas e um Coca Cola tamanho família. Pela cara do general americano com grande experiência em combates no Golfo, Iraque e Afeganistão o filme nem era lá essas coisas.

Mas será que o homem virou mesmo comida para peixes? Ou será que foi servido em Guantánamo, como acompanhamento especial nas sessões diárias de tortura coletiva da base? Seria um prato cheio para os famintos torturadores do exercito americano. Todos equipados com armas de grosso calibre, técnicas milenares de tortura e celulares com câmera.

Curiosamente, nós, espectadores que a exemplo dos americanos somos apaixonados por um bom derramamento de sangue, não vimos nem uma fatia de sushi afegão. Para nós, que assistimos com certo prazer a execução por enforcamento de outro genocida famoso, somente uma montagenzinha tosca de internet desmentida horas depois.

Nem o embrulho, nem o peixe, nem a espinha. Nenhuma imagenzinha, nada. Nenhum pedacinho da barba do homem. Até hoje não sabemos direito qual o paradeiro de Osama Bin Laden. A guerra ao terror acabou e não temos um fotograma pra contar a história.

Esta batalha contra o terrorismo aconteceu ao mesmo tempo em que acontecia também a revolução das câmeras digitais. Estranhamente, quando o criador finalmente conseguiu derrotar a criatura, teve que mandá-la às pressas para o fundo do mar. Não deu nem tempo de tirar uma foto e postar no Facebook.

É uma pena. Quem disse que a revolução seria televisionada errou. O fim da guerra ao terror não teve nem a pose final do vilão. Mas ainda há quem diga que a sequência final esta sendo rodada, no mais absoluto sigilo, em um set de filmagens todo especial - para americano, brasileiro ou guantanamero nenhum botar defeito.


Thiago Lira

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