cinema shots

Uma dose de sétima arte com um twist de vida real.

Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio.

Paris, Texas, São Paulo, Lisboa...

Wim Wenders e os não-lugares para onde voltar.


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Já se perguntou qual a história por trás do mendigo que vaga pelas ruas do seu bairro? Será que antes de ser um simples errante, não foi ele um cidadão como qualquer outro? Desses com família, chefe, conta no banco e prestação do carro para pagar?

A grande maioria não tem respostas. Pode perguntar. As lembranças simplesmente se perderam na fuligem do esquecimento. O corpo, como se tentasse proteger de um grande sofrimento, produz uma amnésia de certos fatos que desencadearam grandes mudanças. Problemas são substituídos por novos desafios cotidianos, como sobreviver ao relento, a mercê do frio e da chuva, ou conseguir alimento para o corpo e repouso para a alma debaixo de alguma marquise.

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Estes personagens me chamam a atenção quando caminho pelas ruas de São Paulo, cidade onde moro. Observo estas figuras e questiono em pensamento: qual a história de vida e que acontecimento fez com que abdicassem de tudo. Que gatilho foi acionado? Que troca foi feita? Que passado foi apagado pela imundice das ruas e pelo calor dos sopões feitos por almas caridosas para essa gente tão sofrida?

O filme que me fez refletir sobre isso foi "Paris, Texas", do cineasta americano alemão Wim Wenders.

O personagem Travis é quem começa a nos contar a história. Ele vaga pelo deserto carregando apenas uma imagem no bolso - uma fotografia de uma placa que indica a cidade de Paris, no estado americano do Texas - Travis acredita que vai encontrar o lugar onde foi concebido. Metaforicamente, ele volta a origem de sua existência. Algum trauma que não conhecemos o faz querer voltar às origens. É, sobretudo, o retrato de um crise desencadeada por por alguma decepção afetiva. O exemplo clássico de uma família que ruiu.

O trauma é revelado mais tarde. Quando Travis finalmente encara o seu problema de frente.

Infelizmente não encontrei uma versão da cena com legenda em português.

Depois de tentar uma vez sem sucesso, as palavras de Travis atravessam o vídro do peep-show, espécie de vitrine onde mulheres se exibem. Só então sabemos o que havia por trás de sua fuga. Vemos os fantasmas que o fizeram calar desde o início. Jane, sua ex-esposa parece digerir as palavras com dificuldade. As duras verdades atravessam o vidro e amolecem o seu coração antes petrificado pela angústia.

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Na vida, é muito fácil deixar as dificuldades do outro lado do vidro e simplesmente fechar a cortina. E o que o cinema de Wim Wender me ensinou através do semblante calmo que um novo Travis apresenta nesta cena é que, diante das falsas expectativas que criamos, as vezes é preciso enfrentar o inferno para gozar plenamente a felicidade. Seja no vasto calor do deserto ou na solidão latente de uma grande metrópole.


Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio..
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