cinema shots

Uma dose de sétima arte com um twist de vida real.

Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio.

Contraponto: um conto de fadas ao contrário

A realidade cruel pelos olhos inocentes de uma criança.


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Era uma vez um diretor maluco, um budget de 12 milhões de Libras e uma jovem atriz talentosa. Junte isso a uma trama com personagens que vieram de um mundo muito, muito distante: a cabeça do diretor Terry Guilliam (Monty Phiton, A Vida de Brian,O mundo Imaginário do Dr. Parnassus). Pronto! Você terá um filme que alterna cenas marcantes, daquelas que chocam até os mais céticos, com momentos de extrema ternura.

Contraponto (Tideland - 2003) é louco, perigoso e sublime ao mesmo tempo. Se você é o tipo de pessoa que vai se impressionar facilmente com uma menina de 10 anos de idade preparando uma dose de heroína para o pai logo na primeira cena é melhor alugar um filme da Pixar. Nada contra, mas Contraponto vai embargar a sua voz e não é só de emoção. Prepare-se também para um pouquinho de angústia. Olha só o que diz o diretor:

“Alguns de vocês vão odiar este filme. Outros irão amá-lo. E muitos não saberão o que achar quando o filme terminar. Mas uma coisa é certa. Este filme irá fazer você pensar.” - Terry Gilliam.

Veja a primeira cena do filme. (em inglês)

É exatamente isso. Apesar da temática pesada do filme, Terry Gilliam consegue fazer um retrato da imaginação de uma criança de uma maneira não melodramática. Totalmente isenta de artifícios carimbados. Com ternura e delicadeza, a menina esperta do filme reinventa constantemente o mundo em que vive. E enquanto discute os acontecimentos com as cabeças de suas bonecas, vai reconstruindo sua própria história. Coisa que nós adultos não somos capazes de tentar.

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Ver o filme é como tomar uma vitamina de Irmãos Grimm com Lewis Carrol e uma pitada de Irvine Welsh. Taxidermia, amor proibido e um Jeff Bridges como se estivesse acabado de voltar de Woodstock enriquecem a trama que carrega o espectador para dentro de uma experiência no mínimo insana. Entretanto, apesar do terror de algumas situações que estão presentes na história, o que se destaca são a esperança e a confiança na vida acima de tudo, mesmo em face da morte. Os pais irresponsáveis de Jeliza-Rose, vivida pela brilhante Jodelle Ferland, a deixam em uma situação de extremo abandono, a qual ela sobrevive usando seu incrível superpoder: uma fantástica imaginação.

Assista ao filme com os olhos de uma criança. Entregue-se às incríveis possibilidades de interpretação que ele possui. Neste conto de fadas ao contrário, o lobo mal não morre no final. Aliás, o lobo mal deste filme tira longas, muito longas férias.


Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio..
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