cinema shots

Uma dose de sétima arte com um twist de vida real.

Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio.

O Dinheiro Acaba

Marx e Paulo Mendes Campos se encontraram para um café. Quem pagou a conta?


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O dinheiro acaba. Numa fila de banco, por exemplo, antes de pagar um boleto de cobrança atrasado, na conversa com o idoso simpático e carente que quer seu lugar de direito no assunto; acaba dias depois do pagamento, quando cai o cheque, aquele que nem lembrávamos termos endossado; na fatura do cartão de crédito com um erro de cálculo sem limites; o dinheiro acaba de repente, quando chega a conta assinada pelo garçom; acaba em letra de forma irregular, com uma soma de dez por cento onerando o amor; o dinheiro acaba na catraca do ônibus, indo pra casa e recusando convites para jantar; conta-gotas e moedas e o dinheiro não dá mais; o dinheiro acaba depois do último prato feito, com fritas carregadas de gordura e sabor de peixe; na conta corrente o dinheiro nem para, acaba indo para outros números; o dinheiro acaba frente à mulher amada, antes da esperança, do casamento, da família; nem sequer deixa vestígios, centavos, acaba com a gente; nos guichês de telefonia, na loja de doces, no supermercado; acaba na bilheteria do cinema, antes da pipoca da qual não vamos sentir o sabor; nas periferias ele acaba, na alvorada do mês ele acaba, na aposentadoria ele é muito pouco; acaba no shopping center, antes do caminhar de mãos dadas em silêncio, cortando o ar pegajoso do estacionamento com a respiração pesada; o dinheiro acaba para os ricos, para os de classe média, para os sem classe nenhuma; se esgota e acaba com a esperança, leva a vida do céu ao inferno e ao céu novamente quando desabrocha em cédulas; compra felicidade, compra afeto, compra amigos, faz falta; o dinheiro acaba nas melhores famílias, nas pilhas de contas à pagar acumulando na soleira da porta, no olhar resignado dos pais de família que se preocupam com o futuro das filhas, na complacência de mães beirando a crise da meia-idade; o dinheiro acaba em calçadões movimentados, com ambulantes eloquentes gritando o pão de cada dia em seu dialeto próprio; acaba nos prédios antigos de galerias térreas com ofertas de vida e de morte, acaba nos inferninhos decadentes, nas mãos de putas viciadas e operários castigados de sol; acaba de dia ou de noite; acaba no domingo úmido, depois de três cervejas geladas e sete piadas de Português; exorta o homem e enxuga a alma; faz do velho moço, da rameira donzela, do bandido rei; mas acaba o dinheiro, acaba o sonho, vem o choque; há quem não precise, há quem o subjugue, há vida inteligente na terra que não depende dele; acaba na compra por impulso, na bolsa nova da menina que paga as contas de casa, a faculdade, o plano de saúde dos avós; acaba na mão dos políticos, ralos de dinheiro; acaba em Recife ou Cubatão, acaba apressado como São Paulo; a cada taxa, imposto, alíquota; a cada passo em falso em ruas escuras, nas mãos de assaltantes, taxistas, taberneiros, funcionários dos Correios; o dinheiro acaba no tilintar dos copos, no último cigarro amassado que sobrou dentro do maço, no final da noite e no começo da história diária de cada um o dinheiro acaba. Sem pestanejar o dinheiro acaba. Sem avisar o dinheiro acaba. Sem previsão o dinheiro acaba.

Publicado originalmente no blog Meus Queridos Paulistanos


Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio..
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