cinema shots

Uma dose de sétima arte com um twist de vida real.

Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio.

Coxinha desde pequeno

Uma reflexão sobre a formação de caráter de uma criança rechonchuda mas feliz, que virou um jovem adulto sem problemas de auto-estima que come fibras no café da manhã.


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Uma garotinha com seus cinco aninhos de idade mais ou menos, caminhando saltitante, cachinhos louros reluzentes balançando para lá e para cá. Seria suficiente para eu morrer de ternura. Imaginem a mesma cena só que agora com a criança equilibrando uma voluptuosa coxinha de frango com o dobro do tamanho de suas mãozinhas. A menininha na frente e o pai, um homem que estampava na cara um tipo de felicidade contida há algum tempo, comparável à maravilhosa sensação de beber o suco de laranja direto da caixinha sem que a esposa perceba. Era tanta a felicidade da princezinha do papai que vazou entre dedos sujos de massa e recheio de frango. Uma cena deliciosa.

Me chamou a atenção este retrato contemporâneo de um costume nada saudável, mas que proporciona uma alegria meio clandestina para as crianças. Principalmente aquelas que são criadas a base de uma alimentação totalmente saudável que, vá lá, é necessária e louvável sim, mas às vezes é chata como um punhado de quinoa no yogurte sabor nada.

“Tenho que registrar isso”, pensei. Mas a vergonha e o medo do pai da garota quase me fez engolir o smartphone, como faria a um avestruz em pânico. Puxei da memória o que seria tão belo e que serviria de comparação. Listo aqui meus devaneios:

Anita Ekberg na Fontana de Trevi em La Dolce Vita de Felinni: felicidade suprema. Dela e do Mastroianni.

Woody, o vaqueiro, voltando pra casa em Toy Story: felicidade de um brinquedo ao encontrar seu dono que é o inverso do que eu vi.

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Eu sentado em cima do balcão de um bar observando o Sr. Otacílio fritar as coxinhas, enquanto esperava ansiosamente pela minha, autorizada previamente por meu pai que jogava bilhar logo ali ao lado: ISSO!

Sim meu pai me levava para o bar e me pagava uma coxinha e um guaraná de garrafinha que eu mal conseguia segurar. Formação de caráter de uma criança rechonchuda mas feliz, que virou um jovem adulto sem problemas de auto-estima que come fibras no café da manhã. Este texto não é só uma ode à coxinha. É mais que isso. É uma celebração da maior alegria da infância. A tradução em palavras de um sentimento. A exemplificação da alegria que sente uma criança com aquele conezinho de massa frita recheada na mão. Que me desculpem os pais macrobióticos, mas eu sou coxinha desde pequenininho.


Thiago Lira

Redator, roteirista e baixista sem técnica. Escreve crônicas e bulas de remédio..
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