coffee is my boyfriend

Pegue um café e sente aqui. Vamos falar sobre a vida.

Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro.

Ministério da saúde adverte: esse texto fala sobre cigarros

Ele já foi sinônimo de virilidade e agora ocupa impreterivelmente o cargo de vilão. Porém, mesmo os mais maléficos possuem algo que possa ser aproveitado, inclusive ele - o cigarro. Entenda porque você não deve defendê-lo, mas também não pode crucificar todos os fumantes.


411267_473697166005342_1063203615_o.jpg Cheguei e acendi um cigarro. Fechei os olhos, respirei fundo, soltei a fumaça bem devagar. Se fosse a cena de um filme, seria em preto e branco com toda certeza. Uma música melancólica tocaria ao fundo e choveria lá fora. O café, quentinho e amargo como sempre, estaria fazendo companhia. Esta é minha cena preferida para fumar um cigarro, embora isso nem quase nunca aconteça assim. Antes que os saudáveis de plantão me crucifiquem por eu ser assumidamente fumante, já deixo em minha defesa uma frase de Mário Quintana: “Desconfia dos que não fumam: esses não têm vida interior, não tem sentimentos. O cigarro é uma maneira sutil, e disfarçada de suspirar”.

Sim, eu sei, cigarro faz mal a saúde. Possui milhares e milhares de toxinas. Ele é fedido – eu mesma não gosto de seu odor. Ele mata um pouco por vez, mas afinal das contas, já dizia algum poeta que a gente mal nasce e já começa a morrer aos poucos. Então, por que não deixar que cada pessoa escolha a forma de fazer isso da maneira que achar melhor? Não estou defendendo o cigarro. Mentira, eu estou sim: mas em defesa a minha defesa, quero dizer que escrevo pelo direito de escolher as coisas que me fazem bem ou mal, sem ter que ficar ouvindo lição de moral cada vez que dou a minha suspirada – diga-se de passagem sempre em algum lugar reservado para suspiradores como eu.

É engraçado que a pessoa que critica meu cigarro é a mesma que se entope de batata frita com bacon, ou então bebe até não se lembrar mais. Não fuma, mas não pratica nenhum exercício. Não fuma, mas vai para a balada de segunda a segunda, sem dormir nada. Não fuma, mas é viciado em refrigerantes. Já Imaginou que chato se para cada coisa que a gente faz alguém viesse meter o bedelho? Ao invés do “Moça, tão bonitinha, por que tu fuma?” ou então o “Moço, tu não sabia que cigarro mata?” ouviríamos: Tão bonitinha, pena que come batata frita. Ou ainda: Ele é tão gato! Mas fui beijar e ele tinha gosto de refrigerante na boca. Nem disfarçou.

Não importa qual teu vício, sempre vai alguém contra. Como já falei antes: cada um deve ter o livre arbítrio para escolher o que quer para a vida, para seus pulmões ou barriga. E me desculpem os saudáveis, mas antes dessa explosão de proibições e campanhas, era até charmoso fumar um cigarro. Ele é o companheiro da literatura, da dor, dos filmes, da música. Está presente nas dores de “Vai Passar”, de Caio Fernando Abreu, no “Chão de Giz” do Zé Ramalho, no poema já mencionado de Quintana, no título da canção de Zeca Baleiro e muitas outras coisas. De alguma forma, o cigarro está ligado à arte, ao drama, à criatividade e até mesmo à conquista.

Para comprovar minha teoria, levei minha dúvida até as ruas. Perguntei aleatoriamente mesmo. Sentei num banco da praça com meus cigarros, pois sabia que logo alguém iria pedir fogo, como sempre. Cigarro é social também. Não demorou: um senhor cansado me pediu um cigarro (por favor). Quando lhe entreguei, perguntei por que ele fumava e ele me disse que era para pensar. Ajudava a organizar os pensamentos. Ele sabia que fazia mal, mas ao mesmo tempo o ajudava de alguma forma. Compreendi.

Para a menina bonita e de uns vinte tantos anos, fiz a mesma pergunta. Ela me disse que era para amenizar a ansiedade. Começou a fumar porque terminou um namoro – na época fumava um atrás do outro – mas que agora tinha se tornado um vício mesmo. E que quando ela estava agoniada fumava muito, que isso ajudava a não surtar com as coisas do dia a dia.

Se eu tivesse tempo, teria ouvido muito mais histórias. Cada bituca de cigarro largada por aí (sou a favor de que sejam colocadas no lixo, acho mesmo que a natureza não é cinzeiro) conta uma história diferente, é um suspiro, é uma pausa, um pensamento. E é isso que eu sinto quando acendo o meu. Deixando bem claro aqui: se você não fuma, parabéns, continue assim. Faz muito bem. Não caia nessa besteira. Mas deixe quem se rendeu a esse vício por qualquer motivo que seja, em paz – desde que ele esteja respeitando seu espaço também. Sei que vou parar de fumar um dia, muito em breve, quem sabe. Mas quero fazer isso quando eu quiser, e não porque alguém mandou. Afinal, eu deixo você comer seu bacon em paz.


Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro..
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