coffee is my boyfriend

Pegue um café e sente aqui. Vamos falar sobre a vida.

Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro.

Não acomodar com o que incomoda

Eu quero a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida ou se eu ficar é porque gosto do seu lepo lepo? No Brasil tem muita música boa, mas muito mais espaço para as músicas ruins. Porque isso acontece no final das contas? Porque elas são mais fáceis de digerir. Que tal mudar o cardápio?


c27fd89025f8635540ace1cc8789f7194c6540.jpg Quando falo que amo música brasileira me olham torto. Como poderia eu gostar desses Lepo Lepos da vida? Porém, os mesmos olhos que me enxergam dessa maneira carregam ouvidos que estão acostumados a aceitar esse tipo de música e uma mente limitada a pensar que é só isso que se tem por aí. O Brasil tem muita música boa e não falo aqui de Caetanos, Chicos e Djavans da vida, mas daqueles Léos, Tulipas, Tiês, Céus e Anas que você nunca (ou)viu por aí.

Tem muita gente fazendo poesia embalada em notas musicais que você desconhece. Isso porque são as escórias sonoras que se popularizam. Não há um dia que eu não saia de casa sem escutar uma buzina me dizendo para me preparar, porque é chegada a hora do show das poderosas. Ou então que eu gosto do teu ah, ah, ah, ah, ah lepo lepo.

Muito raramente estou sentada e alguém despeja nos meus ouvidos que quando a fé ruge, o meu coração dilata. Ou então que eu desço dessa solidão e espalho coisas sobre um chão de giz. Não, as outras músicas são mais fáceis de digerir. Assim, quem sabe, a vida fica mais fácil de engolir também. Pra que falar sobre amor, se é mais fácil então ganhar três minutinhos de solteiro enquanto sua mina vai ao banheiro? Ou, pra que falar de solidão, se dentro de um Citroen nois convida e elas vêm? Acredito que é por isso que certas músicas fazem sucesso. Porque são fáceis de engolir. Mais fácil para aceitar nossas acomodações, porque brasileiro é um povo deveras criativo, mas muito preguiçoso.

Vamos lá: quem aqui acordou um dia desejando ser caixa de supermercado o resto da vida? Quem tinha o sonho de criança de empenhar uma vassoura, e não uma espada? Acontece que, às vezes, é isso que a vida nos oferece, afinal, temos que sobreviver, mas defendo que mesmo sobrevivendo temos que viver afinal. Se nosso momento é de contar as notas de troco em vez dos plaquê de cem, tudo bem, eu também já fiz muito isso.

Já limpei muito banheiro sujo nessa vida, e se preciso for farei isso de novo. Mas o que acontece é que nunca aceitei isso. Eu gosto é de escrever, fotografar, de ter devaneios e não os deixo presos na realidade que a vida me oferece naquele momento. É isso que eu quero dizer. Todos têm vontade de ser alguma coisa, mas poucos lutam para concretizá-la. Então é muito, muito mais fácil chegar em casa, ligar a televisão e ver as bundas rebolando. É muito mais fácil ligar o rádio e ouvir que tá tudo, tudo bem, que mesmo com essa sujeira toda a gente se diverte. Pra que pensar, pra que se mexer, pra que criar? Vamos aceitar esse lixo todo então, acordar um dia após o outro com aquela frustração de não querer estar naquele lugar. Você pode estar, sem problemas, mas pode se mexer também.

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Existe uma cena no filme Clube da Luta (se você não viu, corra para ver), em que Tyler, personagem interpretado por Brad Pitt, coloca a arma na cabeça do dono de uma loja e diz que vai matá-lo. E então pergunta qual era seu sonho, e ele responde que queria ser veterinário. Tyler fala, com a arma engatilhada, que no dia seguinte o comerciante tem que acordar e ir correr atrás disso, tornar-se o melhor veterinário daquele lugar, e se não começar a correr, em seis semanas estará morto. Desesperado, o rapaz corre. E no outro dia, com certeza começará a mudar de vida, porque viu a morte de perto, senão estaria lá até o resto de seus dias conformado com o que a vida lhe ofereceu até então.

Somos conformados. Mas não temos que esperar uma arma apontada na nossa cabeça. Temos que abrir as mentes. Começar a reparar nas coisas belas que temos em todo canto. Parar de achar que o que fazemos aqui é lixo. Não, é luxo: vamos parar de nos diminuir. Parar de aceitar o que é fácil, simples e de fácil digestão. Temos muitos sabores por aí. E até mesmo no arroz e feijão de todo dia, podemos criar algo novo.

Talvez a mudança esteja na mistura que fazemos com aquilo que nos servem. E eu tenho fome, muita fome. Tomara que tenha lhe deixado com água na boca também. A propósito, o título desse texto é um trecho de uma música, de um grupo chamado O Teatro Mágico. Nunca ouviu falar? A internet está aí, vai dar uma explorada.


Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro..
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