coffee is my boyfriend

Pegue um café e sente aqui. Vamos falar sobre a vida.

Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro.

Vão viver, sem viver em vão

Acordar, dar um like no insta, ver as opções no tinder, buscar inspiração em frases soltas que não sabemos de quem é. Vivemos dois mundos: o das redes sociais e o da vida real, que está tornando-se cada vez mais irreal. Nesse texto, Maria é um personagem fictício, mas bem que poderia ser você.


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Maria era uma menina com uma beleza média. Cabelos médios, altura média, peso dentro da média, inteligência mediana, que usava para gravar os últimos sertanejos do momento, dançar quadradinho de oito e enviar na velocidade da luz seu nome para todas as festas mais badaladas. Maria usava chinelo havaianas e ficava até três dias sem lavar o cabelo, pegava ônibus para seu emprego que detestava e quando queria impressionar nas redes sociais digitava Caio Fernando Abreu no Pensador e postava com uma hashtag Cult. Maria nunca leun nada sobre o autor e acha que frases como “Eu cuido, corro atrás, peço desculpas, me importo, mas quando eu desisto, pode crer, meu desapego é pra sempre!” são dele. Maria nem sabe o que é desapego, acha que significa emprestar aquele shorts badalo para sua amiga.

No instagram, Maria tem muitos seguidores. Está sempre linda e feliz, come sempre sushi e é focada na academia, bebe cerveja às sextas posta o look do dia. No Tinder Maria é interessante e descolada, no Whatsapp Maria é falante e inteligente, sempre tem assunto. Maria é incapaz de viver sem baseblushpórímel, sente falta de um cara que queira fazer sexo – sem ir embora no dia seguinte em busca de outro match – e é incapaz de manter um diálogo sagaz pessoalmente quando está sóbria. Maria não consegue olhar nos olhos, não sabe ter firmeza em um assunto se não pode pesquisar no Google e se esqueceu como é andar olhando pra frente e apreciando a paisagem.

Maria se sente angustiada toda noite e não sabe porque. Por mais que Maria saia, faça sexo, ganhe likes, tenha suas ideias – que nem são suas – compartilhadas, todo dia vai dormir e acorda com essa sensação de vazio, um vazio inexplicável. Mas ainda assim acorda e faz as mesmas coisas todos os dias, porque Maria, tão #determinante e #focada tem medo de sair da própria bolha que criou para si. Só quero ser aceita, diz Maria, mas Maria, aceita por quem? Aceita para que? Maria queria que a vida da rede social fosse sua vida de verdade. Maria não sabe o que é ser social nem o que é vida de verdade.

Maria é mais uma das milhões de pessoas que buscam na tecnologia a ‘realidade aumentada’, com cada vez mais velocidade e dinamismo para imitar o que deveríamos estar fazendo: nos socializando. Somos diversas Marias e Joãos cada vez mais solitários em busca de uma companhia refletida em um ícone que pisca. Queremos cada vez mais ser inseridos em círculos descolados só para colecionar egos, para no final das contas acabarmos sozinhos esperando mais uma nova mensagem, um novo like, um novo match.

Se parece exagero, uma pesquisa do portal Huffington Post apontou que 48% das mulheres americanas preferiam ficar sem sexo do que ficar sem seu smartphone. E mais: 47% deixam o celular ao lado da cama para usá-lo assim que despertam. Despertar, aliás, é o que está faltando para as pessoas desse mundo: não busquem realidade aumentada através da tecnologia, ela está logo na sua frente, é só levantar os olhos. Ao invés de ver #sunset, que tal ver o por do sol numa praia? Invés de fazer pose para o #treino que tal dar uma corridinha na rua e chegar exausta e descabelada, como deve ser para quem realmente treina? Porque ao mesmo tempo que expomos tudo da nossa vida, nos encolhemos cada vez mais?

Fiquei um tanto impressionada com o filme Her, onde o protagonista se apaixona por um sistema operacional, mas logo percebi que isso basicamente já existe: se o Iphone começar a fazer sexo e cafuné, digam Adeus para os relacionamentos humanos. Que mundão.


Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro..
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