coffee is my boyfriend

Pegue um café e sente aqui. Vamos falar sobre a vida.

Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro.

É um ciclo

O amor é doce, mas quando ele se vai - principalmente se isso acontecer somente para uma das partes envolvidas - não existe sabor mais amargo ou dor mais profunda. Parece que nunca vai passar, que a dor nunca cessa. Até que a gente aprende que faz tudo parte de um ciclo.


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Era difícil dormir. Quando finalmente conseguia, um sono duro e sem sonhos, já era hora de acordar. Disfarçava os olhos pesados e ia para a luta de todo o dia – afinal o mundo não para. A manhã era ocupada toda com trabalho, queria sempre mais e mais trabalho para não deixar o pensamento livre um minuto sequer. Não queria pensar em quando você me olhou e disse tenho-que-ir-não-da-mais-adeus. Não. Bebia cafés amargos e a vida continuava afinal.

O final da tarde que ficava livre era ocupada com mais café, música, vez-em-quando uma dose forte. Whisky geralmente. Cantava alto, enchia-se de raiva daquela solidão que não era para lhe pertencer. Nesses pesados finais de tarde era momento de ter raiva, de enumerar tudo de ruim que tinha passado. Precisava ter raiva. Precisava continuar, se não desse lugar para a raiva, viria o amor e então tudo seria mais difícil.

Tarde da noite o sono não vinha. Na cama sentia tudo – seu cheiro, seu peso leve do lado do meu corpo, seus cabelos. Saudade enorme. Nessas noites surgia uma vontade súbita de te ligar e pedir para voltar. Perguntar se já tinha alguém. Tenho certeza que sim. Deve ser alguém do trabalho. Será que você diz as mesmas coisas que me dizia? Estremeci. Chorava algumas vezes com esses pensamentos. Lia livros madrugada adentro, na tentativa de fazer o sono chegar. O quarto se enchia de você – ou melhor, da falta que você fazia.

No começo liguei algumas vezes, mas ouvir sua voz dura e indiferente no telefone era quase como te ouvir dizendo que ia embora novamente. Te cuida, você terminava dizendo. Fica bem. Você também, eu dizia. Estou me cuidando. Será que você mentia também? Queria que você dissesse que queria cuidar de mim.

Foi assim por algum tempo, os dias arrastando-se lentos, sua falta gritando alto. Não sei quanto tempo foi, mas foi ficando menor. Ainda doía bastante, mas já tinha me acostumado. A gente tem mais força que imagina não é?

Conheci muita gente. Não procurei ninguém, pensava que ninguém estaria a sua altura, nunca. E a cada conversa que tinha, era impossível não comparar com você. Seu sorriso era melhor, seu corpo mais bonito, você era mais inteligente, ninguém me tocaria como você. Era como uma armadura que eu não deixava ninguém ultrapassar. Na esperança de que você surgiria a qualquer momento e me tiraria daqueles bares esfumaçados, falando que chega, vamos para casa, vim te cuidar.

Mas você nunca aparecia. Então, aos poucos, fui me permitindo. Precisava me permitir. Fui percebendo outros sorrisos, outras conversas, outros corpos. Nenhum igual ao seu. Ninguém seria igual, te amei demais, você sabe. Mas, tinha consciência de que alguém iria me libertar.

Não lembro bem ao certo quando aconteceu ou quanto tempo passou. Mas foi acontecendo aos poucos. De repente já ocupava novamente meu quarto vazio, as tardes de domingo, as conversas dos bares esfumaçados. De repente já não recordava mais de ti, não com tanto mágoa ou saudade, mas como algo que passou. De repente, não era o seu sorriso o mais bonito, já não lembrava do tom da sua voz ou do cheiro do seu pescoço. De repente, parecia que outra pessoa tinha vivido aquela história, não eu.

Estava livre. E entendi que o amor é um ciclo, e até mesmo essa dor toda vale a pena. Estava forte para deixar ele entrar de novo.

"Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca" " - Caio Fernando Abreu.


Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro..
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