coffee is my boyfriend

Pegue um café e sente aqui. Vamos falar sobre a vida.

Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro.

Precisamos falar sobre o amor, de novo e de novo

Pelo tanto de postagens que tenho visto ensinando sobre o desapego, desilusão, perda e solidão, percebo que temos é que falar mais sobre o amor. Não temos que aprender a lidar com a perda se não sabemos nem mais o que fazer com ele. Amor não deveria assustar não. Amor não deveria pesar. Amor não deveria ser vergonhoso - vamos falar mais sobre o amor, com vontade e sem favor.


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Eu não queria precisar falar desse assunto assim, com tanta voracidade, como se me faltasse o fôlego. Não queria ligar esse tema a palavras como desespero, futilidade, insegurança, discrepância, obsoleto – e a que mais me dói – raridade. Queria, aliás, poder trata-lo com palavras fáceis, simples, bonitas e leves, mas acontece que o cenário que vejo ultimamente não me deixa agir assim. Ele, sim, lá está ele na pauta novamente – claro que estou falando sobre amor. Sobre amar. Está cada vez mais inapropriado, já percebeu? E difícil, muito difícil.

Perceba a quantidade de textos publicados e compartilhados recentemente nas redes sociais – textos que ensinam a lidar com a dor da perda, com o desapego, com a humilhação de uma traição ou como se portar diante essa avalanche de sentimentos líquidos que perturbam corpos sólidos, feitos de carne e osso – nós, nosso corpo, que clama por algo que preencha, mas que morre de sede ultimamente. A música que mais toca na rádio é aquela que fala sobre ser profano e levar o sentimento assim, sem sentido. O texto que invade a minha timeline quer me ensinar a sair por cima da situação, ser trocada mas continuar diva. Os conselhos que pesco por aí nas andanças cotidianas passam um check-list de como se portar, se vestir, quanto tempo permanecer em silêncio, quando dizer não quando na verdade se quer dizer sim e tantos outros joguinhos desnecessários.

Não. Para tudo.

Devemos parar de querer complicar algo tão simples, de se preparar para a perda de uma coisa que a gente nem deixa entrar direito. Perdemos tanto, sofremos tanto, nos apegamos tanto pelo simples fato de que não vemos o amor como ele é: livre, digno e simples. Colocamos mil artimanhas, usamos palavras difíceis, nos expressamos com emojis fofinhos porque não temos coragem de falar aquilo que deve ser dito. Tem um trecho de um dos meus livros favoritos da Clarice Lispector que diz: "E "eu te amo" era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé.” É assim que está ultimamente – um eu te amo sincero parece uma farpa, parece que foi feito pra doer, quando na verdade é feito para doar, se espalhar, fluir.

Não adianta espalhar frases de “mais amor por favor” nas paredes, se estamos desaprendendo a amar. Mais amor, sem favor nenhum. E quando falo amor, quero dizer de todos os tipos: venho de uma família que fala ‘eu te amo’ sem medo ou vergonha. Eu falo que amo para as pessoas que realmente amo. Tem gente que não consegue fazer isso de uma forma sincera, parece que engasga – então manda um bonequinho amarelo esquálido com coração no lugar de olhos e acha que está tudo certo. Está tudo errado.

Vejo mães e pais que se dizem preocupados porque seus filhos não desgrudam da tela do celular, mas quantos destes se preocupam realmente em ouvir e se fazer ouvir? Hoje em dia é muito mais fácil jogar um tablet na mão de uma criança do que “perder tempo” com ela. Todo mundo tá de saco cheio e coração vazio – e pior, preenchendo com o alimento errado. Parem de querer aprender a desapegar, parem de ler sobre joguinhos: estamos ficando analfabetos emocionalmente, resolvendo nossas palavras com figurinhas. Vamos reaprender a se expressar, a entender que não adianta textos rebuscados ou silêncios enigmáticos – adianta é falar aquilo que se sente – pouco importa se fará sentido para fulano ou ciclano. Amor não é para ter sentido, é para ser sentido.


Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro..
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