coffee is my boyfriend

Pegue um café e sente aqui. Vamos falar sobre a vida.

Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro.

Amor é ferida que dói e se sente

Camões que me perdoe, mas a ferida de amor dói muito! Mas só sabe disso quem realmente já sofreu por amor.


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Afagava seus cabelos e deixava que suas lágrimas caíssem no meu colo – nada poderia ser dito. Ela já tinha passado por isso e eu também; ambas sabíamos que dia mais, dia menos, a dor cessaria, mas enquanto esse dia não chegava era de se doer o corpo inteiro, o coração, a alma. O mar à nossa frente estava calmo e azul, rompido apenas pelo barulho de alguns peixes que pulavam e gaivotas enfurecidas buscando comida. Reparei nas montanhas ao fundo dessa paisagem – como nunca havia visto antes? Talvez não estivesse olhando.

A gente só olha o que quer ver.

A dor dela doía toda em mim também, queria poder ficar ali a tarde toda, sem ter que voltar ao trabalho e sentir que a tarde passaria pesadamente para ela, que disfarçaria com sorrisos amarelados a espera de voltar pra casa, tomar um banho e desabar de vez.

O amor é lindo. Mas é coisa de louco também. O amor é doido, muito doido. E doido. Que me perdoe o poeta, mas é ferida que dói e se sente sim. E não venha me dizer que se está doendo é porque não era mais amor – amor que não deu certo não deixa de ser amor, justamente por isso que dói tanto e tanto e tanto, mas tanto que jamais conseguiria expressar o que quero dizer. Diz a música que ‘quem sabe o que é ter e perder alguém, sabe a dor que senti’. E isso é pura verdade: só quem já sentiu na pele sabe do que estou falando.

São dias que não passam, é a lágrima que vem desavisada, a voz que sai desafinada quando temos que responder que não, não sabemos mais da tal pessoa. Nem queremos saber, mas nos pegamos pensando e investigando e nos machucando mais ainda. O vazio dos ambientes é preenchido pela ausência, as músicas carregam o pesar da alma, a carteira de cigarro não é suficiente. De noite, ah de noite… Escura e silenciosa, deixa tudo mais difícil. Acordamos assustados com a leveza do colchão pela falta do seu corpo, o choro sai e nem percebemos: por que por que por que meu Deus dói tanto?

Sim, eu sei, o tempo passa. Talvez isso que eu disse até agora não faça sentido pra você – conheço muita gente que nunca amou ou que está com o mesmo amor desde sempre. Então para eles isso tudo soa como drama, coisa que passa: pare de frescura, se levante que a vida segue e mais algumas palavras ditas da boca pra fora. A gente sabe disso tudo, mas o que sai da boca pra fora não é o mesmo que grita nosso coração desesperado.

A dor daquela tarde era dela, não minha. Mas me lembrei que já estive assim, já fui a dona do cabelo a ser afagado, já fui aquela que só vivia de café e Cazuza e saudades e dor e tudo isso que depois eu vi que passou também. Ela sabe que vai passar. A gente nunca sabe quando nem como, mas de repente começamos a dormir durante a noite toda, rimos de alguma bobagem qualquer, conseguimos falar sobre o que passou e enxergamos coisas que nunca tínhamos visto antes – seja a montanha da paisagem que sempre esteve ali, seja quem sabe um novo amor. O mundo está aí, com várias coisas que deixamos passar – que se passe logo essa fase de sofrimento, que se passe a amar de novo, porque mesmo com toda essa dor da alma, o amor sempre vai valer a pena.

(Artigo escrito por mim, publicado originalmente aqui)


Cristina Souza

Escrevo porque respiro. Ou seria ao contrário? Vejo poesia em tudo, e tudo que eu faço coloco o coração no meio - e um gole de café, é claro..
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